MULHERES

A lição de Laverne Cox para o comediante Lil Duval: 'Assassinato de trans não é piada'

Não mesmo.

02/08/2017 14:41 -03 | Atualizado 02/08/2017 15:07 -03

Este artigo pode conter gatilhos para pessoas que sofreram violência.

A atriz trans Laverne Cox deixou claro que piadas sobre violência contra transexuais podem ser perigosas para a comunidade. Foi uma resposta ao clipe viral do comediante Lil Duval no qual ele diz que "mataria" uma mulher trans se descobrisse que tinha transado com ela.

"Algumas pessoas acham que tudo bem fazer piadas sobre nos assassinar", escreveu Cox em seu Twitter. Ela continua: "Temos liberdade de expressão, mas essa expressão tem consequências, e as pessoas trans vivem com as consequências negativas. Isso me machuca, porque não é engraçado. Nossas vidas importam. Assassinato de trans não é piada."

(Depois de respirar fundo várias vezes, meus olhos lacrimejaram pensando nas minhas irmãs que sofrem violência, são espancadas, estupradas e algumas.)

Ativistas e aliados da comunidade trans ficaram preocupados com a declaração de Lil Duval, feita no programa de rádio "Breakfast Club" na sexta-feira da semana passada. O apresentador DJ Envy perguntou a Duval qual seria sua reação se ele descobrisse que tinha dormido com uma mulher trans.

"Pode parecer zoado e não tou nem aí: ela vai morrer", disse Duval aos três apresentadores do programa.

Duval também disse que, quando se trata de mulheres transgênero, "não é menina, é menino". Ele disse que deveria haver consequências para esse tipo de "manipulação", mas, até que isso aconteça, ele resolveria o problema sozinho. Quando o apresentador Charlamagne Tha God tentou dizer ao comediante que ele não poderia sair matando mulheres trans, Duval tentou se emendar.

"Não disse que mataria transgêneros", disse Duval, numa tentativa de recuo. "Disse: 'se fizessem isso comigo e não me contasse, ficaria tão puto que provavelmente mataria'".

Angela Yee, a terceira apresentadora, disse que Duval deveria ser "politicamente correto", mas ele afirmou que comediantes não deveriam ter de ser assim.

"É disso que gosto em mim mesmo", afirmou ele. "Posso dizer o que quiser e fazer o que quiser e as pessoas entendem. Elas entendem que não é maldade. Sabem que só estou falando o que está na minha cabeça."

No domingo, Duval reconheceu a reação por meio de sua conta do Twitter, mas recusou-se a pedir desculpas ou a falar da hashtag #BoycottBreakfastClub.

Alguns dias antes, o programa havia convidado Janet Mock para que ela discutisse seu papel na comunidade trans e educasse os ouvintes sobre sua jornada. Mock falou sobre seus parceiros passados, sua infância e a diferença entre ser transgênero e identidade sexual.

"Para mim, não tinha a ver com sentir atração por homens ou pela masculinidade, tinha a ver com meu corpo e como eu queria aparentar, não só na cama, mas também no mundo", disse Mock. "Foi antes de eu ter consciência de sexualidade. Não estava pensando em meninos."

A entidade Human Rights Campaign contabilizou 22 mortes violentas de homens e mulheres trans nos Estados Unidos no ano passado. Até agora, a HRC contabiliza 15 mortes violentas, a maioria de mulheres trans de cor. O número pode ser ainda mais alto, pois muita vezes não se conhece a identidade de gênero da vítima ou então ela não é revelada às autoridades. O estudo Transgender Survey de 2015 indica que 40% das pessoas trans já tentaram o suicídio.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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