MUNDO

O significado de O.J. Simpson em 2017

A sede pelo absurdo se transformou desde que O.J. desapareceu atrás das grades, quase uma década atrás.

01/08/2017 20:54 -03 | Atualizado 01/08/2017 20:55 -03

A história de O.J. Simpson é uma história de força e celebridade. Tanto seus críticos mais ferrenhos quanto seus discípulos mais dedicados concordam quanto a isso.

Quem tende a pensar que O.J. conseguiu escapar das malhas da justiça em seu julgamento por homicídio em 1995 graças a toda uma série de meios sinistros e escusos imagina o antigo astro voltando correndo para o centro das atenções, como alguém dourado pelo estrelato. Essas pessoas enxergam em O.J. um homem de grande estatura que mutilou quem encontrou pelo caminho e se retratou como vítima de discriminação racial para escapar da justiça.

Enquanto isso, aqueles que acreditam em sua inocência imaginam Simpson como alguém ardiloso, que angariou privilégios; uma pessoa que usou ferramentas que normalmente não estão disponíveis para homens negros ricos para com elas derrotar um sistema legal opressor e emergir dele como o Adônis cavalheiresco que essas pessoas passaram a admirar.

E há também quem opte por uma versão intermediária: as pessoas que não acreditam na inocência de O.J. nem na inocência do sistema que o levou a julgamento. Mesmo essas pessoas, porém, admitem que o poder de O.J. Simpson – tanto sua força física quanto seu poder social – acrescentou camadas de complexidade a um julgamento já repleto de complexidades ligadas à política racial e de gênero.

VINCE BUCCI via Getty Images
O.J. Simpson olhando para um par novo de luvas Aris extragrandes que os promotores lhe mandaram vestir durante seu julgamento por homicídio duplo em Los Angeles. 1995.

As agressões documentadas de Simpson contra sua mulher, Nicole Brown Simpson, convergiram com o histórico notório do Departamento de Polícia de Los Angeles para criar o ambiente em torno do evento noticioso mais sensacionalizado da história americana.

Mas existem razões para acreditar que, de maneiras importantes, a América já deixou para trás as narrativas que alimentaram o julgamento de O.J. Simpson em 1995 e coloriram a pessoa que Simpson foi entre esse julgamento e sua prisão por roubo à mão armada, em 2008. Não pretendo sugerir que tenhamos amadurecido enquanto nação, mas simplesmente que, desde que Simpson desapareceu atrás das grades, quase uma década atrás, as fontes de nosso ativismo e nossa sede nacional pelo absurdo mudaram.

Simpson, que obteve liberdade condicional na quinta-feira (21), parece estar preparado para reingressar na sociedade. Se e quando for libertado, será para entrar em um mundo que, ao que parece, evoluiu de maneiras que tornam sua história menos singular do que antes a considerávamos.

O elemento racial no julgamento por homicídio de O.J. em 1995, centrado no assassinato de sua mulher e de um amigo dela, Ron Goldman, era evidente. Fazia parte de uma estratégia explícita empregada primeiramente pelos advogados de Simpson e depois utilizada de modo equivocado pelos advogados que representavam o Estado da Califórnia.

Os advogados de Simpson conseguiram semear dúvidas nas cabeças dos jurados com relação à eficácia do Departamento de Polícia de Los Angeles (o LAPD), que passou anos mergulhado em controvérsias em torno de suas práticas racistas.

Essas controvérsias permitiram que Simpson fosse visto como uma espécie de representante dos negros americanos e das injustiças cometidas contra eles pelos departamentos de polícia pelo país afora. Era uma ironia, em que se tratando de um homem cuja carreira como atleta universitário e profissional foi passada apaziguando o medo dos brancos, bajulando brancos ricos e minimizando a existência do racismo.

Por exemplo, em 1968, quando o ativista e atleta Harry Edwards tentou convencer Simpson a apoiar um boicote olímpico para pedir tratamento mais justo aos negros em todo o país, a resposta de Simpson não previu o rumo que sua vida seguiria anos mais tarde.

Edwards falou desse assunto no documentário premiado com o Oscar "O.J.: Made in America", de Ezra Edelman:

"O.J. foi procurado porque era o maior nome do esporte universitário da época. Além disso, era corredor recordista mundial, então tínhamos um caso de dois por um. Quando falei com ele, eu disse: 'Queremos que os atletas negros entendam que têm um papel a exercer no movimento atual de direitos civis'. A resposta dele foi: 'Não sou negro, sou O.J.."

Bettmann via Getty Images
O.J. Simpson e sua primeira esposa, Marguerite, sorriem numa coletiva de imprensa depois de ele receber o Troféu Heisman em 1968.

Nosso ambiente social evoluiu de maneira tal que hoje não nos faltam mártires negros – eles são onipresentes. Muitos deles estão gravados para toda a eternidade em hashtags. Isso significa que Simpson deixou de ser uma figura singular, mobilizadora, especialmente para movimentos de justiça social em sua maioria encabeçados por jovens que não admiram a figura de Simpson e que tiveram o privilégio de avaliar seus julgamentos e suas ações em retrospectiva.

Embora exista muito que se possa aprender com o primeiro julgamento criminal de Simpson sobre o modo como nossa nação lida com a questão racial, O.J. Simpson, o indivíduo, vai figurar minimamente ou nada em movimentos que lutam pela justiça racial.

Apesar de constituir um caso psicológico fascinante, sua história será reduzida, com isso, a um relato sobre celebridade desperdiçada e que caiu em desgraça. Nada mais.

E há também as questões de sua vida após sua absolvição e de sua posterior condenação por assalto, que parecem relativamente pouco dignas de nota, em vista dos fatos recentes.

Depois de O.J. ser absolvido, sua vida seguiu um rumo perigoso. Tendo perdido um julgamento cível no valor de US$33 milhões movido pela família de Ron Goldman, O.J. recorreu a várias jogadas bizarras e duvidosas para não cair no vermelho. Entre elas, um show com câmeras ocultas e, no exemplo mais infame, um livro intitulado "If I Did It" (Se eu tivesse feito), que trata de como o suposto homicídio duplo que teria sido cometido por ele poderia ter acontecido.

A família de Goldman moveu uma ação preventiva que lhe deu os direitos sobre o livro e imediatamente, antes de publicá-lo, mudou o título para "If I Did It: Confessions of the Killer" (Se eu tivesse feito: confissões do assassino).

O repúdio do público levou Simpson a cair na obscuridade. Sua acusação por assalto, em 2008, se deu porque o ex-ganhador do Troféu Heisman tentara recuperar objetos de memorabília seus que ele insistiu que tinham sido roubados por um negociante.

Ethan Miller via Getty Images
O.J. Simpson observa seu ex-advogado de defesa depor durante audiência de apresentação de provas no Tribunal Distrital do Condado de Clark, em 17 de maio de 2013.

O que é interessante, porém, é que O.J. Simpson, recém-libertado, vai descobrir que a grotesca capitalização da infâmia é hoje uma prática muito mais presente em nossa sociedade do que era quando ele saiu dela para a prisão.

Onde antes Simpson parecia ser uma anomalia em seu capitalismo descarado, hoje oferecemos a outras pessoas de sua laia uma abundância de oportunidades para serem premiadas por suas ações.

Nos quase dez anos passados desde que Simpson foi encarcerado, fomos hiperexpostos aos níveis de grossura e brutalidade que antes o empurraram para as margens de nossa sociedade. O.J. Simpson saiu de um mundo livre em que a perversão do poder e da celebridade era algo raramente festejado em pública. Na época, ele próprio era o exemplo mais gritante dessa perversão.

Mas ele vai retornar à liberdade sem essa distinção. E hoje a América não pode fingir que sente repulsa por isso, como fizemos na época.

Não podemos fingir, no momento em que forramos os bolsos de nossos assassinos mais vilipendiados.

Não enquanto agraciamos nossos policiais que mais praticam conluios.

E menos ainda quando elevamos a figura que mais declaradamente infringe as regras de nossa sociedade a posições de poder incomparáveis.

O.J. Simpson vai voltar para uma nação onde o sensacionalismo causa muito menos espanto do que era o caso em 2008. Uma nação onde o absurdo causa muito menos choque. Quer dizer que uma vida de obscuridade, longe do olhar público, estará realmente à espera dele, se ele assim quiser. E, em vista da normalidade atual de seu comportamento antes audaz, o valor que O.J. terá para nós como figura social será muito pequeno.

Ele não precisa mais cumprir a função de exemplo negativo, porque as coisas negativas que ele exemplificava estão em toda parte à nossa volta.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Mãe de Eliza Samúdio teme pela vida do neto e pede que Bruno volte à prisão

- 5 coisas que você deve saber antes de dizer que 'bandido bom é bandido morto'

'Covarde': elas denunciam violência