POLÍTICA

O que pensa o futuro partido de Bolsonaro e por que quer homenagear Enéas

“Quem não ganha com uma família saudável de estrutura e de decência?”, afirmou ao HuffPost Brasil o presidente do PEN, Adilson Barroso sobre questões LGBT.

01/08/2017 11:21 -03 | Atualizado 15/08/2017 15:23 -03
Montagem / Agência Brasil / YouTube
Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) irá se filiar ao PEN para se candidatar à Presidência da República em 2018.

Fundado em 2012, o Partido Ecológico Nacional (PEN) foi o escolhido pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que se auto-intitula o "Neymar da política", para disputar a Presidência da República em 2018. "Se Deus quiser teremos Bolsonaro no partido", afirmou ao HuffPost Brasil o presidente da legenda, Adilson Barroso.

De acordo com Barroso, o parlamentar irá se filiar na próxima semana, mas a assessoria de Bolsonaro informou que ele irá aguardar a janela partidária. Caso contrário, o PSC pode pedir a cassação do mandato atual.

O período para troca de partido é o mês anterior ao prazo de seis meses antes da eleição, no caso da disputa do próximo ano, seria em março. A antecipação da data, contudo, está em discussão na reforma política em tramitação na Câmara dos Deputados.

Apesar do nome, a sigla rejeita a marca de defensora do meio ambiente, que não encontra ressonância no eleitorado do deputado. "O PEN não é só natureza. É a economia e a segurança sustentáveis. A segurança hoje não funciona", afirmou Barroso.

Para se descolar da ecologia, a sigla irá mudar de nome. O objetivo é homenagear Enéas Ferreira Carneiro, fundador do Partido de Reedificação da Ordem Nacional, (Prona) e candidato ao Planalto em 1989, 1994 e 1998.

Contrário ao comunismo e considerado de extrema-direita, Enéas ficou marcado pelo bordão "Meu nome é Enéas!", usado no curto tempo com o qual contava no horário eleitoral gratuito. Em 2002, ele foi eleito deputado federal pelo estado de São Paulo com votação recorde: mais de 1,57 milhão de votos, a maior votação já registrada no País.

O PEN lançou uma enquete para o rebatismo. Além de Prona, as opções são Patriota, Pátria Amada Brasil e Republicanos.

Para mudar de nome, é preciso autorização do plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No caso do PTN, por exemplo, que se tornou Podemos neste ano, o processo demorou seis meses.

Porta aberta

Em conversa por telefone, o presidente do PEN deixa claro que Bolsonaro terá liberdade na defesa de suas pautas. "Ele tem boas ideias, bons projetos". Na área de saúde, educação e economia, o lema será similar ao de Juscelino Kubitschek: 50 anos em cinco.

Sobre a política de armas, Barroso, que já foi deputado do estado de São Paulo pelo Prona em 2012, e é atual vereador de Barrinha (SP), diz que defende o mesmo que o pré-candidato. "Hoje no Brasil não tem porte de arma para o cidadão de bem e é liberado para o mal. A lei é tão fraca que bandido não tem medo de andar por aí com fuzil no peito. Tem que rever", afirmou.

Quanto à defesa de direitos humanos e questões que envolvem mulheres e a população LGBT, o presidente do PEN acredita que as controvérsias envolvendo o deputado federal são fruto de "comentários descontextualizados que querem enquadrá-lo no radicalismo".

A visão de Barroso, por sua vez, é similar ao de Bolsonaro.

Quem não ganha com uma família saudável de estrutura e de decência?

Sobre a descriminalização do aborto, o presidente do partido responde: "Quem quer que um bebê de oito meses, com cabelo, que só falta falar 'mamãe' seja arrancado da barriga e jogado no mar?"

Ecológico ou cristão?

O PEN conta com um deputado no estado de São Paulo e três deputados federais. Um deles, Júnior Marreca (MA) se absteve na votação que cassou o mandato do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Em 2016, primeira eleição municipal, a sigla elegeu 96 vereadores em São Paulo, cinco vice-prefeitos e um prefeito.

Apesar do tamanho da legenda - o que implica em uma percentual pequeno do Fundo Eleitoral - Barroso acredita que "nada dificulta a candidatura" de Bolsonaro. Ele aposta que os 4 milhões de seguidores do deputado no Facebook junto com 6 milhões em sua página na mesma rede social garantem a vitória nas urnas. "Não precisa de tanto dinheiro para mostrar que tem condição de fazer um país de primeiro mundo em tão pouco tempo", afirmou.

Em ascensão nas pesquisas eleitorais, Bolsonaro procurou antes o PSDC, partido de José Maria Eymael, e o Muda Brasil, legenda em processo de formação comandado por Valdemar Costa Neto, ex-deputado federal condenado no Mensalão.

De acordo com pesquisa Datafolha divulgada em junho, o parlamentar tem 16% das intenções de voto, empatado em segundo lugar com Marina Silva (Rede), que conta com 15%. Na liderança, está Lula (PT), com 30%.

No estatuto, o PEN diz que o "foco central é a defesa da sustentabilidade" e que tem como base "os conceitos da Social Democracia Cristã". O símbolo da legenda é um trevo de quatro folhas e as cores são as mesmas da bandeira do Brasil: verde, amarelo, azul e branco.

A sigla é contra a prisão após condenção em segunda instância, decidida pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A medida é considerada um avanço no combate à impunidade, mas foi criticada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por relativizar o princípio constitucional da presunção de inocência.

No site do partido, o texto que conta a história da formação faz questão de destacar que o registro no TSE foi concedido "no dia 19 de junho de 2012, em plena discussão internacional sobre o futuro do planeta, durante a Rio + 20, e uma semana após a comemoração do Dia Mundial do Meio Ambiente".

A sigla tentou atrair Marina Silva para ser candidata ao Palácio do Planalto em 2014, mas o acordo não foi fechado. O candidato Aécio Neves (PSDB) ficou com o apoio da legenda à época.

A aproximação com Marina é justamente um dos pontos do PEN criticados por Marcelo Vivorio, sindicalista de Campos dos Goytacazes (RJ) que tenta refundar o Prona. "Encaramos essa postura do PEN como um desrespeito ao povo brasileiro. Um partido de esquerda vir para a direita, que vem se colocando como uma opção para mudança no País?", afirmou ao HuffPost Brasil.

A página dos que defendem a volta do partido de Enéas chegou a emitir uma nota contra o novo partido de Bolsonaro.

De acordo com o TSE, os apoiadores da refundação do partido de Enéas contam com 857 apoiamentos aptos até o momento. Vitório diz que já reuniu 445 mil assinaturas e que a intenção é concluir o processo em 2018 para lançar candidaturas próprias, inclusive ao Planalto, já para o próximo pleito.

Estupro e #ForaBolsonaro

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