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João Nery: 'A violência contra LGBTs é como um processo de higienização na sociedade'

Em entrevista ao HuffPost, o ativista comenta violência contra pessoas transgênero, uso político das redes e colaboração com ‘A Força do Querer’.

01/08/2017 16:43 -03 | Atualizado 03/08/2017 18:31 -03
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Nery foi homenageado pelos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Erika Kokay (PT-DF) ao ter seu nome usado para batizar o projeto de lei 5.002/13, que propõe o direito à identidade de gênero.

Em 1964, o Brasil sofreu o golpe civil-militar que deu início a uma ditadura conhecida, entre outros fatores, pelas violações aos direitos humanos. Para João W. Nery, este golpe não foi o único que ele sofreu naquele ano. Aos 14 anos, começou a "monstruar", o que só fez aumentar a distância entre seu corpo feminino e seu gênero masculino.

Ele escreve sobre essa difícil fase no capítulo "A Viagem Solidária", presente no livro Vidas Trans, lançado em julho pela Astral Cultural. Ele divide espaço na publicação com outros três nomes de destaque do ativismo transgênero: Amara Moira, Tereza Brant e Márcia Rocha.

Nery, que também escreveu a bem-sucedida autobiografia Viagem Solitária (LeYa, 2011), atualmente tem 67 anos, mora no Rio de Janeiro e é conhecido por um ativismo que se estende há décadas. Ele é considerado o primeiro transgênero do Brasil a ser operado. Isso aconteceu em plena época da ditadura, quando a cirurgia era considerada lesão corporal grave pela lei. O escritor fez a mamoplastia masculinizadora, que consiste na retirada das mamas e transformação do tórax em um de aspecto masculino. Ele também retirou o útero e iniciou um tratamento à base de testosterona. Era 1976 e, dois anos depois, o médico que lhe operou foi condenado a dois anos de prisão por ter feito cirurgia em uma mulher trans em 1971.

"A neofaloplastia continua experimental para os homens trans. No Brasil, isso significa que o trans, se quiser fazer um novo pênis, teria que procurar um hospital universitário", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil. "Temos que evoluir em muitas coisas. Continuamos, para a população em geral, como seres pervertidos, doentes, invisíveis, capazes de contaminar a juventude."

O ativista teve que enfrentar burocracias desumanas ao buscar o processo transexualizador. Muitas vezes, para poder ser reconhecido como homem, teve que recorrer à ilegalidades, como quando teve dois CPFs. Isso acabou implicando em perder sua profissão de psicólogo.

Nery foi homenageado pelos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Erika Kokay (PT-DF) ao ter seu nome usado para batizar o projeto de lei 5.002/13, que propõe o direito à identidade de gênero, seja no tratamento conforme a pessoa trans pede ou no registro de seu nome social em documentos.

Assíduo no Facebook, o incansável ativista dos direitos humanos colaborou recentemente com Glória Perez, para a autora abordar a temática trans na novela A Força do Querer, exibida pela TV Globo. Na entrevista ao HuffPost, Nery comenta esse e outros assuntos.

Leia a entrevista completa abaixo:

HuffPost Brasil: João, você é um pioneiro, que precisou se arriscar na ilegalidade para fazer a mamoplastia masculinizadora, e isso em plena época da ditadura. Muita coisa mudou dessa época para hoje. O cenário atual no Brasil está inteiramente de acordo com as necessidades das pessoas?

João W. Nery: Claro que não. Nós temos no Brasil apenas cinco hospitais do SUS que estão credenciados para fazer cirurgias de adequação sexual. Um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, em que as inscrições estão fechadas há anos por excesso de contingente; outro em Goiás, que abriu agora; e tem em Porto Alegre e Recife. No Norte não existe esse atendimento, só tem um ambulatório em Belém que faz a hormonização, dá atendimento endocrinológico e psicológico — e só, mais nada.

A fila de espera em São Paulo vai de dez a 20 anos para uma cirurgia. Eles fazem em cada SUS apenas uma cirurgia por mês, porque não existe uma equipe só para atender transexuais. É impossível ter um atendimento adequado. Quem pode faz no particular, o que também é uma dificuldade, porque os médicos não têm formação acadêmica para atender transexuais. Não existe a cadeira de gênero e sexualidade nas universidades como obrigatórias. Um trans não pode ir a um endocrinologista do SUS qualquer para ser atendido, porque não vai ser. Ele vai dizer que não vai dar testosterona para lésbica, sapatona, quando na verdade se trata de um homens trans. E ele [o médico] nem sabe que isso existe. A ginecologia é uma especialidade do SUS exclusivamente feminina, assim como a obstetrícia. O homem trans que vai consultar um ginecologista não pode usar o nome social, tem que dar o de registro, porque se não der, o sistema lê como fraude, porque em ginecologia não se pode atender homem.

É como um processo de higienização na sociedade. Cada gay ou travesti que você mata, a sociedade ainda agradece, porque acha que está "limpando" a cultura daquele ser abominável.

A neofaloplastia continua experimental para os homens trans. No Brasil, isso significa que o trans, se quiser fazer um novo pênis, teria que procurar um hospital universitário. Temos que evoluir em muitas coisas. É claro que, da minha época para cá, houve um avanço muito grande, em função das passeatas, dos movimentos [sociais] e tal, e agora na mídia, por causa da novela [A Força do Querer]. Mas continuamos, para a população em geral, como seres pervertidos, doentes, invisíveis, capazes de contaminar a juventude. E com essa onda evangélica [fundamentalista] que está dominando o Brasil, nós somos os altamente pecadores — enfim, tudo de ruim que possa acontecer.

As pessoas trans brasileiras vivem um momento contraditório. Ainda somos um dos países que mais as mata e, entretanto, a visibilidade delas cresceu na mídia, o debate se amplificou. Na sua opinião, por que isso acontece?

Acho que isso está ligado ao machismo. Eu sempre digo que é a maior patologia social hoje é o machismo, porque ele mata. E não está só no mundo dos homens, mas no das mulheres também, porque quem cria filhos machistas são mães machistas. Acho também que há uma grande misoginia, porque as mulheres são muito discriminadas, o feminino é algo altamente ameaçador para o mundo masculino, machista.

Um gay afeminado, por exemplo, serve de espelho, assim como os trans, para a possibilidade de que o gênero é uma construção social, e que você tem direito de ser quem você é. Só que a sociedade não permite isso, torna-se uma grande ameaça. Então há um genocídio em massa, como eu digo, em relação a essas pessoas, com mortes crudelíssimas — empaladas, queimadas. São crimes de ódio. É como um processo de higienização na sociedade. Cada gay ou travesti que você mata, a sociedade ainda agradece, porque acha que está "limpando" a cultura daquele ser abominável. A violência é geral em toda a população, não só na LGBT, mas a diferença é que o LGBT é morto só por ser quem ele é.

Seu ativismo é anterior à popularização das redes sociais e ao atual momento em que elas são usadas intensamente para fins de política e ativismo. O que você pensa a respeito das redes? Há uma grande preocupação em torno das "bolhas" que elas criam.

Olha, eu acho a internet fantástica. Não tive acesso a ela na minha juventude e por isso me vi isolado, sem informação alguma que pudesse me ajudar, com quem eu pudesse dividir [minhas experiências]. O primeiro transexual que eu conheci em minha vida foi aos 30 anos de idade, depois de ter feito a cirurgia. Hoje eu tenho um perfil no Facebook só para atender os trans masculinos. Eu faço o primeiro censo brasileiro de transmasculinidade pelo Facebook. Criei 26 grupos secretos e, em cada um deles, coloquei uma lista de profissionais de endocrinologia, psicologia e cirurgiões que são capazes de atender trans. Eles [os trans] me procuram, eu os coloco no grupo, eles passam a conhecer outras pessoas trans, a ter acesso a profissionais que possam entender e compreendê-los, a trocar ideias.

Só que, quando você é cis, sua identidade está de acordo com o gênero que lhe foi designado ao nascer. E, quando você é trans, não está. Seu gênero transcende o que determinaram para você.

Sabemos, entretanto, que tem de tudo na internet. É uma faca de dois gumes. Alguns trans compram hormônios por ela, porque querem se hormonizar, mas a testosterona só é vendida com receita médica e os médicos não querem dar. É complicado você ter um corpo que não corresponde ao gênero em que você se sente. Então, para sofrer menos transfobia e ter também autossatisfação e autoestima, eles começam a se hormonizar por conta própria, e isso é um perigo. Eles falsificam receitas médicas e compram testosterona nas academias, que são lugares onde o mercado paralelo atua, trazendo importadas do Paraguai, muitas vezes, as testosteronas malhadas, que são um perigo para a saúde, porque não são puras.

O lado positivo [das redes] é que elas dão acesso a um monte de informações. Eles [os trans] têm grupos de discussões e se organizam, inclusive, para lutar pelos seus direitos. Eu acho muito importante. É o maior avanço tecnológico que vi.

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O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Em 2016, foram 127, um a cada 3 dias. A expectativa de vida deles é de 35 anos.

Você foi consultado pela Glória Perez para a novela A Força do Querer. Você acha que a novela tem feito um bom trabalho, no sentido de abordar as diferentes realidades das pessoas trans?

Eu acho. Glória usou uma tática de primeiro conquistar o público com esses personagens. Tanto o Nonato, que se torna um bom moço, quanto a Ivana, que também é uma personagem que se mostrou de bom coração, ajudando o namorado. Parece que ela é heterossexual, mas não, na realidade ela é gay. A Tereza Brant, ator que é homem trans, entrou na trama da novela. E é através do personagem dele que a Ivana descobre que é um transhomem. A Glória deixou essa parte mais para o final da novela, que deve terminar em outubro, para poder trabalhar esse tema. Inclusive, acho que a Ivana vai engravidar, e a gravidez de um transhomem é uma coisa que ninguém nem pode imaginar que existe.

Acho que a Glória está dando uma grande contribuição e fazendo tudo com uma delicadeza. É uma novela exibida em horário nobre, numa emissora importante, que chega nos mais longínquos rincões do Brasil, que nunca ouviram a palavra "trans". Eu sei que os garotos trans estão todos vendo a novela e botam os pais para assistirem também. Viagem Solitária deve ser lido pela Ivana.

No seu capítulo do livro Vidas Trans, você menciona namoros que teve com pessoas cis. O que é importante para cisgêneros saberem quando há na vida dela uma pessoa trans? Seja em família, namoro, amizade etc.

As pessoas cis ainda não estão devidamente informadas e preparadas sobre as pessoas trans, porque a mídia pouco não divulga. É muito importante para uma pessoa trans ter o apoio da família. Talvez seja a coisa mais importante. E aí entram as redes sociais também. No livro, eu falo das Mães pela Diversidade, que é uma página do Facebook desse grupo de mães que estão em todo o Brasil, atendendo gente que tem trans na família para dar orientação, porque as pessoas ficam perdidas, nem sabem o que é ser trans, confundem transexualidade com homossexualidade. Todos nós, tanto cisgêneros quanto transgêneros, temos identidade de gênero e orientação sexual. Só que, quando você é cis, sua identidade está de acordo com o gênero que lhe foi designado ao nascer. E, quando você é trans, não está. Seu gênero transcende o que determinaram para você. A orientação sexual fala da questão afetivo-sexual em relação ao gênero de outra pessoa. Então aí você tem a homossexualidade a bissexualidade, a panssexualidade e a assexualidade, que hoje é considerada uma orientação sexual.

E eu falo "afetivo-sexual" porque há muitas pessoas assexuais que não têm desejo sexual, mas têm desejo afetivo, gostariam de ter relações afetivas, românticas. A população desconhece isso, como desconhece também toda a categoria existente de outras identidades de gênero, como os não-binários, que são os gêneros fluídos — eles se sentem como mulheres e homens ao mesmo tempo. Recentemente, Nova York reconheceu 31 gêneros. Eu achei pouco. Mas, enfim, um rótulo não define ninguém. Cada pessoa é única. De qualquer forma, é preciso dar alguma nomeação, sobretudo quando você quer lutar por políticas públicas. É por isso eu me defino como transhomem. É importante você respeitar como cada pessoa se define. Para se relacionar, é sempre importante saber isso.

Alguma última consideração a fazer, antes de encerrarmos a entrevista?

Eu estou em um momento difícil hoje. Estou com 67 anos e desafio a natureza há 40. Entrei na menopausa aos 27. Em vez de tomar estrogênio, passei a tomar testosterona e tomo até hoje. Já tive um infarto e sofri de uma artrose sistêmica, mas não existe nenhum estudo que relacione a artrose à testosterona. Eu também não tenho histórico familiar de artrose que possa explicar isso.

Eu tenho o maior orgulho de ser trans, embora eu hoje sofra consequências. Perdi minha profissão. Depois da cirurgia, eu não pude entrar na Justiça para trocar meu nome, então tive que fazer isso de uma forma ilegal. Eu fui no cartório e me registrei com nome masculino, aí fiquei com dois CPFs. Eu era psicólogo e hoje eu não tenho profissão, não tenho aposentadoria, não tenho emprego e faço um trabalho de ativismo voluntário.

O corpo é uma construção social, na medida em que ele precisa da linguagem para ser definido. Não pode haver corpo pré-linguístico. O gênero é uma construção social, uma performance.

Falta muita coisa. Falta criar hospitais e ambulatórios que atendam trans, forneçam hormônio. Nem todo os trans querem se operar ou se hormonizar, mas é importante que haja essa possibilidade. Hoje, existem dois sites importantes que ajudam trans a conseguir emprego, o transemprego.com.br e o www.transervicos.com.br. Empresas brasileiras não estão interessadas, mas algumas multinacionais estão abertas à diversidade, não só de gênero, mas em todos os níveis e oferecem empregos. 90% da população, sobretudo das mulheres trans, se prostituem para poderem sobreviver. Também há homens trans que se prostituem, moram na rua e se drogam muito. Há poucos abrigos para essas pessoas. Outro problema sério é o das penitenciárias. Não há espaço para trans nelas, com exceção de alguns estados, em penitenciárias masculinas, sobretudo. Se um homem trans for preso e ele não tiver mudado o nome, ele vai para uma penitenciária feminina, e lá não tem área LGBT. É tanta coisa para dizer que não cabe numa entrevista, mas eu recomendo que você leia o Viagem Solitária.

O corpo é uma construção social, na medida em que ele precisa da linguagem para ser definido. Não pode haver corpo pré-linguístico. O gênero é uma construção social, uma performance. Não é nada natural. Ninguém nasce trans, hetero, cis — a gente se torna, como dizia a Simone de Beauvoir. Tudo na vida é mudança e transformação.

Vidas Trans tem 176 páginas, custa R$ 34,90 e já está disponível nas livrarias brasileiras.

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