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O dinheiro vivo está perdendo espaço. Será que vai desaparecer para sempre?

Os governos de vários outros países vêm experimentando alternativas digitais inovadoras ao dinheiro vivo.

28/07/2017 20:48 -03 | Atualizado 28/07/2017 20:49 -03
Mukesh Gupta / Reuters
O governo indiano inutilizou 86% do dinheiro vivo circulante.

Por Bhaskar Chakravorti

O caixa eletrônico completou 50 anos no dia 27 de junho. O ex-presidente do Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) Paul Volcker o descreveu certa vez como "a única inovação útil do setor bancário". Hoje, porém, o dinheiro em espécie fornecido em caixas eletrônicos talvez faça parte da lista de espécies em perigo de extinção.

O dinheiro físico está sendo substituído de tantas maneiras que é difícil acompanhar todas. Temos os cartões de crédito e os pagamentos eletrônicos; aplicativos como Venmo, PayPal e Square Cash; serviços de pagamento pelo celular, criptomoedas que operam fora da égide dos bancos centrais e sistemas locais como o mPesa, do Quênia, o Paytm, indiano, e o bKash, de Bangladesh. Essas inovações estão incentivando comunidades em todo o mundo a operar sem dinheiro em cédulas e moedas.

É razoável supor que o dinheiro em espécie vai seguir o mesmo caminho trilhado por outras coisas que deram lugar a alternativas digitais, como fotos, música e filmes. Será que o dinheiro vivo e os caixas eletrônicos de onde ele é sacado vão viver um momento como o da rede Blockbuster de videolocadoras e desaparecer completamente de nossas cidades?

Calma! Não é bem assim. É muito provável que o dinheiro vivo perca popularidade, graças ao custo alto de sua utilização e ao número cada vez maior de alternativas. Mas a minha previsão é que ele continuará entre nós para sempre. Haverá menos dinheiro vivo em nosso futuro, mas ele não vai desaparecer.

O custo do dinheiro em espécie

Em 2013, cerca de 85% das transações efetuadas no mundo envolveram dinheiro vivo.

A dependência do dinheiro físico varia em diferentes lugares do mundo. Cingapura, Holanda, França, Suécia e Suíça estão entre os países menos dependentes de dinheiro vivo; já na Malásia, Arábia Saudita, Peru e Egito apenas 1% das transações não envolvem dinheiro em espécie. Mesmo alguns países altamente desenvolvidos, como o Japão, ainda fazem uso grande do dinheiro em espécie.

O uso do dinheiro vivo nos EUA ainda é grande, comparado aos países da União Europeia. Em 2015, o uso de dinheiro vivo representou 13,1% do PIB dos Estados Unidos, mas apenas 7,1% do PIB da França e 4,5%, no caso da Suíça.

A preocupação com a igualdade social é um fator que motiva legisladores a promover as alternativas ao dinheiro físico. Eu e meu colega Benjamin Mazzotta estudamos os custos do dinheiro em espécie em vários países, com foco especial sobre os EUA, México, Egito e Índia. Nossas pesquisas revelam que os pobres e as pessoas com menos acesso a instituições suportam uma parte desproporcional desses custos do uso do dinheiro vivo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o dinheiro vivo impõe um imposto regressivo sobre o consumidor, sendo que o impacto maior é sofrido por pessoas que não têm conta em banco. Descobrimos que as pessoas sem conta bancária pagam quatro vezes mais em tarifas para acessar seu dinheiro do que as que têm contas. E elas pagam US$4 a mais por mês em tarifas, em média, para acessar seu dinheiro, do que as pessoas com acesso a serviços financeiros formais. Essas tarifas incluem as que são cobradas por empréstimos de curto prazo, empréstimos para a compra de automóvel e saque de cheques. As pessoas sem conta em banco têm chance cinco vezes maior de terem que pagar tarifas para sacar seus salários ou suas aposentadorias ou outros benefícios com cartão especializado.

Os consumidores mais pobres também gastam muito mais tempo para sacar dinheiro. Os americanos passam em média 28 minutos por mês em deslocamentos para sacar dinheiro vivo, mas esse tempo não é distribuído de maneira igual. As pessoas que não têm conta em banco gastam cinco minutos mais para chegar ao lugar onde podem sacar dinheiro. Os desempregados gastam quase nove minutos a mais.

Enquanto isso, outros acadêmicos defendem os benefícios de uma sociedade com menos dinheiro vivo. Ken Rogoff, da Universidade Harvard, argumenta que eliminar as cédulas de valores altos pode impedir que o dinheiro vivo seja utilizado para financiar atividades ilegais.

Um mundo sem dinheiro vivo

Um misto de iniciativas públicas e privadas vem reduzindo o predomínio global do dinheiro físico. Alguns países avançam nesse sentido mais rapidamente que outros.

A Suécia, que já ocupa posição alta na escala dos países que vivem sem dinheiro vivo, pode se tornar-se o primeiro país a chegar perto de ser verdadeiramente isento de dinheiro físico. Os bancos suecos começaram a promover alternativas ao dinheiro em espécie já na década de 1960, com salários sendo pagos através de transferências eletrônicas. Os cartões se popularizaram mais na década de 1990, época em que os bancos começaram a cobrar uma tarifa pela emissão de talões de cheques. O aplicativo Swish, desenvolvido pelos grandes bancos, é usado hoje por quase metade da população para fazer transferências eletrônicas. Muitas empresas desencorajam o uso de dinheiro físico, e as lojas varejistas têm o direito legal de recusá-lo.

Os governos de vários outros países vêm experimentando alternativas digitais inovadoras ao dinheiro vivo. Em 2012 a Royal Canadian Mint (a Casa da Moeda canadense) lançou o projeto MintChip, entregue recentemente ao setor privado. O plano é guardar dinheiro em chips de computador e possibilitar a transferência de dinheiro entre chips por meio de mensagens codificadas.

Em alguns países é o setor privado quem lidera, criando sociedades com "menos dinheiro físico" nos lugares mais inesperados. É o caso da Somalilândia, um dos países mais pobres do mundo. Com sua plataforma ZAAD, ela está na vanguarda de uma revolução dos pagamentos por meio de celular. Com uma média de 30 transações mensais pagas via celular, os cidadãos da Somalilândia estão, em média, muito à frente do resto do mundo, onde a média é de 8,5 transações mensais desse tipo per capita.

Possivelmente o mais dramático avanço em direção a "menos dinheiro físico" foi visto recentemente na Índia. Em novembro passado o governo indiano tomou uma iniciativa de alto risco, desmonetizando as cédulas de 500 e 1.000 rúpias; com isso, concretamente, inutilizou 86% do dinheiro vivo circulante. O objetivo inicial era combater a corrupção e as atividades ilegais financiadas com dinheiro vivo. Foram emitidas novas cédulas de 500 e 2.000 rúpias, de modo que os consumidores tiveram que ir a agências bancárias para trocar seu dinheiro físico desmonetizado.

Em um país quase 90% dependente do dinheiro físico, a medida causou confusão em empresas, criando problemas para o pagamento de salários e gerando filas extensas diante de agências bancárias. Os beneficiários incontestes foram os serviços de pagamento por celular; o líder nesse mercado, Paytm, relatou um aumento de 435% no tráfego e um aumento de 250% nas transações totais e no valor das transações.

Porém, apesar do aumento do uso de pagamentos por celular após a desmonetização, o dinheiro vivo continua forte na Índia. Em março, cinco meses após a desmonetização, 0,6% mais dinheiro em espécie foi sacado do que um ano antes.

O futuro do dinheiro físico

Como se explica a resiliência do dinheiro vivo, apesar de seus custos e da presença de cada vez mais opções alternativas?

O dinheiro vivo é o único dos instrumentos de pagamento com o qual qualquer pessoa pode efetuar transações a qualquer momento e em qualquer lugar, sem o envolvimento de terceiros. Essa liberdade vem acompanhada de grande proteção da privacidade. O dinheiro físico não sabe e não se importa com quem o detém nem com quando e onde ocorreu uma transação. As pessoas têm um senso visceral de segurança quando carregam dinheiro físico no bolso. Esse sentimento foi revelado em nossos estudos sobre o Custo do Dinheiro Vivo, conduzidos em vários países.

É claro que essa situação vai evoluir à medida que nossas sociedades se digitalizam cada vez mais. Mas hábitos e percepções antigos levam tempo para dar lugar a outros. Alguns comerciantes vão resistir aos custos de novos equipamentos ou das taxas que acompanham as alternativas ao dinheiro vivo. O dinheiro físico também é visto como mais conveniente e versátil, sendo que, com as transações digitais, sempre existem preocupações com a possibilidade de hacking e fraudes.

Assim, não importa onde estejamos no mundo, vamos festejar o meio século de vida dos caixas eletrônicos. O vínculo humano com o dinheiro em espécie será difícil de romper. O dinheiro físico pode perder espaço, mas pode ter certeza que sempre haverá alguém que vai lhe parar na rua para pedir indicações de como chegar ao caixa eletrônico mais próximo.

*Este artigo foi publicado originalmente no The Conversations e traduzido do inglês.

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