MUNDO

A carreira do cardeal australiano George Pell, o menino de Ballarat que chegou ao Vaticano, e agora está diante do tribunal de Melbourne

O principal representante da Igreja Católica do país reafirma sua inocência.

27/07/2017 16:51 -03 | Atualizado 27/07/2017 16:53 -03
Daniel Munoz / Reuters

Da Austrália rural ao posto de principal representante da Igreja Católica no país, um cardeal que até o mês passado estava sentado à direita do papa Francisco, George Pell viveu a maior parte de sua vida profissional cercado de controvérsias.

Mas agora, longe da proteção dos da Cidade do Vaticano, o defensor dos bens da Igreja Católica está se preparando para enfrentar acusações que podem marcar seu legado para sempre: Pell é acusado de múltiplos crimes sexuais.

Pell, 76, que no mês passado afastou-se de seu papel como chefe das finanças do Vaticano, reafirma sua inocência de forma vigorosa.

POOL New / Reuters
O papa Bento XVI gesticula ao lado do principal membro do clero na Austrália, o cardeal George Pell (à esq.), em cerimônia de agradecimento aos voluntários do Dia Mundial da Juventude, no The Domain, Sydney, 21 de julho de 2008.

Sua presença no tribunal de Magistrados de Melbourne, na quarta-feira, marcou apenas uma fase das audiências preliminares sobre as múltiplas acusações de crimes sexuais.

Os detalhes do indiciamento ainda não foram tornados públicos.

O ex-arcebispo de Sydney e Melbourne se ofereceu para ser interrogado em Roma pela polícia do Estado de Victoria em outubro do ano passado. Mais tarde, foi anunciado que ele seria indiciado, e Pell afirmou que lutaria contra as acusações, descritas pelo cardeal como "assassinato de caráter" e campanha de difamação.

Pell disse pouco desde que retornou a Sydney, no início deste mês, onde foi recebido por uma escolta policial. Segundo relatos da imprensa, ele contratou os serviços do advogado de defesa criminal Robert Richter, que teve entre seus clientes o famoso criminoso figura Mick Gatto.

AFP/Getty Images
O chefe do Finanças do Vaticano, o cardeal australiano George Pell, participa de missa para a ordenação de novos bispos em 19 de março de 2016 na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Pell é conservador e ferrenho defensor da Igreja, de seus recursos e de sua doutrina tradicional. Ele ganhou proeminência nacional pela primeira vez no início dos anos 1990 por sua posição contra a homossexualidade e pelo estabelecimento da "Melbourne Response", a resposta da Igreja ao abuso sexual infantil.

Considerada uma posição pioneira, a "Melbourne Response" foi criticada por vítimas de abuso sexual e juristas por obrigar as vítimas a permanecer em silêncio e aceitar pequenos pagamentos de compensação.

Uma problema cardíaco impediu Pell deir à Austrália para testemunhar na Comissão Real sobre Respostas Institucionais ao Abuso Sexual Infantil. Ele testemunhou via link de vídeo. Essa decisão, e partes das respostas de Pell, receberam críticas pesadas da comunidade.

Remo Casilli / Reuters

Em meio ao interesse da mídia e à escassez de detalhes públicos a respeito das acusações que pesam contra Pell, Ingrid Irwin, que representa alguns dos acusadores de Pell, previu uma batalha legal prolongada.

Alguns advogados pediram um julgamento sem júri, temendo que a percepção pública de Pell e da Igreja possam influenciar os jurados.

Essas são as circunstâncias em que um dos filhos favoritos da pequena cidade rural de Ballarat -- que passou de padre de paróquia e chegou ao Vaticano -- retorna ao seu estado natal.

A carreira do cardeal Pell

  • 1941: Nascido em Ballarat, Victoria, de George, mineiro e boxeador, e Margaret, uma devota católica irlandesa;
  • 1959: Assina um contrato profissional com o clube de futebol de Richmond;
  • 1960: Entra no Seminário Corpus Christi em Werribee, Victoria;
  • 1963: Vai a Roma para estudar;
  • A partir de 1966: Torna-se sacerdote da diocese da Basílica de Pedro na cidade de Ballarat e serve em várias paróquias e cargos, incluindo uma década como acadêmico no instituto da educação católica e como vigário reponsável pela educação na diocese de Ballarat de 1978 a 1979;
  • 1987: Torna-se bispo auxiliar de Melbourne;
  • 1993: Acompanha Gerald Ridsdale ao tribunal. Ridsdale foi mais tarde condenado por várias acusações de abuso sexual infantil;
  • 1996: Nomeado arcebispo de Melbourne;
  • 2001: Nomeado arcebispo de Sydney, tornando-o principal representante da Igreja Católica no país;
  • 2002: Nomeado para a Congregação do Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos;
  • 2003: Nomeado para o Colégio dos Cardeais pelo Papa João Paulo II;
  • 2014: Nomeado responsável da recém-criada Secretaria da Economia, responsável pelo orçamento anual da Santa Sé e do Vaticano;
  • Março de 2016: Depõe perante a Comissão Real de Abuso de Crianças. Ele enfrentou críticas por dizer que era uma "coincidência desastrosa" que cinco sacerdotes pedófilos alvejaram crianças em Ballarat durante a década de 1970;
  • Outubro de 2016: Voluntariamente entrevistado pela polícia de Victoria em Roma sobre acusações de abuso sexual;
  • 2017: A polícia de Victoria anuncia que Pell será indiciado por múltiplas acusações de crimes sexuais históricos.
Fonte: SMH and ABC

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Austrália e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- O que é a 'teologia feminista' e como ela está mudando a vida das cristãs

- Papa Francisco classifica como 'necessário e corajoso' novo livro sobre pedofilia na Igreja

Mensagens de igreja bastante controversas