ENTRETENIMENTO

O poder da representatividade na televisão, segundo Britney Young, a Carmen, de GLOW

Em entrevista ao HuffPost, atriz falou sobre a construção de sua personagem, ansiedade, e a amizade com outras atrizes.

26/07/2017 16:04 -03 | Atualizado 26/07/2017 16:06 -03
Divulgação/Netflix
"Temos um grupo na qual nos comunicamos por mensagens quase todos os dias", disse Young ao HuffPost em entrevista por telefone. "Damos apoio umas às outras em tudo e qualquer coisa."

GLOW, a nova série da Netflix que gira em torno de um grupo de lutadoras mulheres principiantes, trata ostensivamente de luta livre. Há um ringue, há lutas e malhas de ginástica estilo anos 1980 que aparecem várias vezes. Mas a série de dez capítulos, criada por Liz Flahive e Carly Mensch, com produção executiva de Jenji Kohan, é muito mais que apenas isso. Além das polainas e dos permanentes, é uma história que fala do sofrimento, de amor e da complexidade que existe em manter e cultivar um relacionamento.

É animador descobrir que as mulheres que representaram as Gorgeous Ladies of Wrestling, ou GLOW (em português: Mulheres Maravilhosas da Luta Livre) – atrizes como Alison Brie, Betty Gilpin, Sydelle Noel e Britney Young – são amigas na vida real, não apenas na tela. Segundo Britney Young, as atrizes mantém um grupo de Whatsapp para comemorar os sucessos de cada uma e, de modo geral, se darem apoio até a hora em que a segunda temporada virar realidade (ou pelo menos é isso que todas torcem que aconteça).

"Temos um grupo na qual nos comunicamos por mensagens quase todos os dias", disse Young ao HuffPost em entrevista por telefone. "Damos apoio umas às outras em tudo e qualquer coisa."

Ela, que nasceu em Tóquio mas foi criada em Eagle River, no Alasca, representa Carmen, filha de uma dinastia de lutadores homens que ingressa no mundo da luta livre sem o conhecimento de seu pai e seus irmãos. Nem tudo é tranquilo para ela, o que não chega a surpreender. Em uma cena memorável, Carmen enfrenta um ataque de pânico pouco antes de sua primeira luta. Britney Young representa a cena com uma autenticidade rara na televisão. Mas ela não desiste de lutar, recebendo o apoio de Ruth, Debbie, Cherry e as outras lutadoras. A solidariedade delas continua firme, mesmo quando questões pessoais espinhosas distanciam algumas delas.

Conversamos com Britney Young para falar do impacto duradouro da série sobre sua vida, do grupo do qual todas gostaríamos de fazer parte e das razões por que ela se sentiu honrada em representar as experiências de ansiedade de Carmen, sua personagem.

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O relacionamento de Carmen com sua família é um aspecto importante de sua personagem em GLOW. Você pôde se basear em alguns de seus relacionamentos familiares pessoais quando se preparava para o papel?

Adoro a relação que Carmen tem com a família dela, mas tenho que admitir que minha família me dá muito mais apoio e incentivo que a dela. Mas acho que me inspirei porque pensei: como eu ficaria se minha família não me desse tanto apoio? Especificamente aquela cena no quarto episódio em que Carmen enfrenta seu pai – pensei muito em como seria para mim se meu pai não me desse o apoio que dá. Como eu me sentiria? Senti que a garra dela veio muito de ela querer muito aquele apoio e não conseguir. Foi isso que causou aquela atitude dela de "tudo bem, façam o que vocês querem e eu vou fazer o que é bom para mim".

Meu pai é há anos treinador de futebol americano e basquete colegial, então me inspirei muito por ter notado as coisas pequenas que são capazes de nos incentivar. No episódio final, quando Goliath vem [à luta] e começa a gritar "Machu, Machu!". Isso é uma coisa que meu pai faria. Me dar um olhar ou repetir uma palavra que me transmite que sim, eu sou capaz de fazer aquilo. Tenho a força me dando apoio. Eles não vão me deixar cair, então eu tenho mais é que me lançar.

Em GLOW Carmen sofre de ansiedade. Ela tem um ataque de pânico antes de lutar pela primeira vez como Machu Picchu. Você se identificou com esse pânico dela, esse medo de entrar no ringue?

Eu não tenho esse tipo de medo de subir ao palco, por sorte. Mas postei no meu Instagram um tempo atrás uma foto de depois de filmar aquela cena. Me senti honrada em fazer aquela cena. Desde meus tempos de faculdade acho que já tive três ou quatro ataques de pânico, quando quase comecei a chorar ou chorei mesmo, não conseguia respirar, fiquei com o peito apertado e tive que me meter debaixo das cobertas. Me lembro de um desses incidentes em que eu estava no canto do meu quarto, me balançando para frente e para trás, tentando respirar num ritmo calmo, porque eu não estava dando conta. Fiquei honrada por ser Carmen quem enfrentou isso, porque acho que, especialmente nós na mídia, geralmente evitamos falar em questões mentais.

Também evitamos dizer que a ansiedade é um problema mental. Tantas pessoas sofrem de ansiedade, mas quando ouvem falar em "problemas mentais" elas pensam "eu não sou louca!". Não é isso o que estamos dizendo. Estamos dizendo que você tem um problema psicológico. Não é algo de errado com você, é algo pelo qual você passa.

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"Obrigada a todos vocês fãs que vieram me falar do ataque de ansiedade/pânico de Carmen. Eu mesma já tive vários ataques, e meu objetivo principal foi mostrar a verdade nessa cena. O peito apertado e pesado, a respiração superficial, tontura e vertigem, como se nosso corpo tivesse acabado de correr uma maratona e não soubesse como parar de correr. A todos meus amigos que já passaram por isso, saibam por favor que vocês não estão sozinhos e que não há absolutamente nada de errado com vocês! Às vezes a vida só precisa que você se acalme, tire uma horinha para você mesma, e tudo bem. Mas saiba que se você precisar, eu vou estar do seu lado, assim como sua família e seus amigos estão. Então não tenha medo de dizer 'ei, estou precisando de um minuto!'. Amo vocês!"

Mencionei isso em meu post no Instagram depois de conversar com minha tia, que também sofre de ansiedade, e ela me disse uma vez: "É o jeito do mundo lhe dizer que você precisa se acalmar e tirar um momentinho para você mesma. Tudo bem dizer ei, estou precisando de um minuto." Recebi muito feedback positivo por não dramatizar excessivamente a cena. Simplesmente fiz o que eu mesma conheço. E o que conheço são meus próprios ataques de pânico, quando não consigo respirar e preciso me sentar e ficar parada por um instante. Me senti realmente honrada em fazer aquela cena que mostrou o que era minha realidade e também a de Carmen.

Em entrevistas anteriores você falou da importância da representação na TV. Quem são algumas das atrizes e personagens que você admirava quando era criança?

Eu era obcecada pela Raven-Symoné quando era criança. Era uma garota sapeca e de pele clara, como eu. Mais velha, passei a apreciar muito o que mulheres como Rebel Wilson, Melissa McCarthy e Leslie Jones fizeram pelas garotas plus size, ou, no caso de Leslie, as garotas mais altas. Me lembro de quando se pensava que uma garota plus size sempre tinha que ser ou aquela garota tímida que fica no canto, não tem amigas e não se ama, ou então tem que ser uma malvada que está disposta a lhe dar uma surra se você sequer olhar na direção dela.

Gosto realmente do fato de que Carmen não é nenhuma dessas coisas. Ela é real. Para mim, ela é real. Ela me parece uma pessoa que, quando você está sentada na arquibancada esperando por um teste, diria "oi, como vai seu dia?" Eu gostei disso, porque a ênfase não era tanto sobre a personagem ser alvo de piadas por ser grande ou ser vista como malévola por isso. Foi algo como "vamos festejar seu tamanho, vamos mostrar você como uma pessoa de verdade, é isso que queremos valorizar".

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Como foi o processo de testes para conseguir o papel em "GLOW"?

Meu processo foi muito mais longo, porque eu cheguei no início. Eu tinha visto um artigo no Deadline sobre a série e tive a ideia de mandar um e-mail ao meu agente dizendo: "Fique de olho nesse projeto". Ele não ficou. Mais para frente recebi algumas informações sobre testes de nossa diretora de casting, Jen Euston. Liguei para meu agente e perguntei: "Isso é para o quê?". E ele disse: "Você vai fazer um teste para GLOW. Boa sorte!".

Eu fui, mas não achei que tivesse feito um bom trabalho no teste. Não estou dizendo isso para parecer humilde, não é um clichê de atores. Jen é incrível. Ela trabalhou 45 minutos comigo. Fizemos três cenas de várias maneiras. Eu queria tanto o papel que fiquei supernervosa e achei que eu realmente não tivesse me saído bem, já que ela teve que trabalhar comigo! Liguei para meu agente depois e falei "sinto muito, amigo, não deu certo. Quem sabe da próxima vez eu acerte." Fiquei super surpresa ao receber um e-mail mais tarde no mesmo dia me chamando para um segundo teste com as criadoras e Jenji Kohan. Saí esse teste e foi uma mudança total. Saí de lá achando que tinha conseguido o papel. "Vou ser Carmen."

Essa confiança me deu uma rasteira, porque depois disso não tive mais notícias durante semanas. Fiquei supernervosa, não sabia o que estava acontecendo. Finalmente elas me telefonaram, me chamando para fazer um teste de cena de ação. Fiquei sabendo mais tarde que eu fui a única garota que fez um teste desse tipo. Conheci nosso coordenador de luta livre, Chavo Guerrero Jr., e a coordenadora de cenas de dublês, Shauna Duggins, e fizemos duas cenas. A sessão terminou comigo mandando Shauna pular para meus braços, para eu mostrar a eles que eu era capaz de jogar pessoas e agarrá-las. Na segunda-feira seguinte fiquei sabendo que eu tinha conseguido o papel e que íamos iniciar os treinos na semana seguinte.

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Qual foi o golpe de luta que você mais gostou de aprender nos treinos?

Não é bem um golpe, mas eu adoro correr e me jogar contra as cordas. Curto correr de um lado a outro do ringue e me jogar contra as cordas. Sou uma garota grande, então na primeira vez que fiz isso, acho que Chavo estava imaginando que eu daria passadas largas e ficaria agitando meus braços. Mas, que nada, eu corro como um tiranossauro. Enfiei minhas mãos nas minhas axilas, e as meninas começaram a rir. "Tente dar passos mais longos!". E eu ali, passinho, passinho. Acho que isso combina com a Carmen, a inocência e gentileza dela. Ela vai ao ringue, mas ainda há um pouco de Carmen ali, mesmo quando ela assume o papel de Machu Picchu. Mesmo assim, ela corre com delicadeza.

Obviamente, o elenco de "GLOW" é dominado pelas mulheres. Em vista do grande número de atrizes no set, você tem alguma amiga mais íntima ou algum grupinho de amigas com quem ficava?

Éramos todas amigas. E não estou dizendo isso por não querer magoar alguém. Literalmente, o que eu adorei no nosso elenco foi que cada dia, quando posicionavam nossas cadeiras, estávamos sentadas ao lado de uma pessoa diferente. E acho que isso nos ajudou muito a ficarmos nos conhecendo. Também adorei que nunca se formavam panelinhas na hora do almoço. Não se via o mesmo grupo de meninas comendo juntas todos os dias. Isso nos pareceu muito natural. Foi uma coisa que nos ajudou a representar aquelas personalidades na tela. Entendíamos quem elas eram.

Adoro todas as garotas. Temos um grupo de mensagens de texto, trocamos mensagens quase todo dia. A gente se encontra. No fim de semana passado algumas de nós fomos ver Alison [Brie] em um filme novo, "The Little Hours". Várias de nós espalhadas pelo país, ficamos trocando torpedos dizendo "acabamos de ver o filme!". Damos apoio umas às outras em tudo. Queremos continuar a trabalhar juntas e a ser amigas.

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Se houver uma segunda temporada de "GLOW", o que você gostaria de ver acontecer nela?

Segunda temporada! Eu adoraria voltar. Quero realmente ver como essas mulheres vão abraçar ou reagir à fama. Elas são atrizes, na maioria, então queriam essa fama. Quero ver como isso vai realmente começar a moldar suas personagens e mudar ou fortalecer seus relacionamentos.

Quanto a Carmen, quero continuar a vê-la crescer em seu interior. Ela é uma pessoa ingênua que nunca foi exposta a muitas coisas. Especialmente pelo fato de ter chegado em Hollywood nos anos 1980, com drogas, álcool, rapazes, relacionamentos, sexo. Essas coisas todas vão surgir e estou curiosa para ver como ela vai reagir a essas coisas, se for colocada nessas situações. Quero ver como ela abraça o estilo de vida de Hollywood nos anos 1980, se é que ela o abraça.

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*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês

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