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A história não contada das menores vítimas da guerra brutal no Iêmen

Em uma área remota, um jornalista cidadão encontrou um hospital cheio de crianças gravemente desnutridas.

26/07/2017 17:08 -03 | Atualizado 26/07/2017 17:08 -03

Fatima Mohammed Ali e seus dois filhos pequenos estavam plantando verduras no sítio de sua família numa área remota do norte do Iêmen, no ano passado, quando uma bomba caiu sobre a casa deles. A explosão enorme demoliu a casa, perto do campo onde eles estavam trabalhando, e destruiu uma balança ao lado. Abeer, a filha de 10 anos de Fatima, estava brincando na balança e morreu instantaneamente.

Com medo de ser atingida por outro ataque aéreo no meio da guerra civil travada no Iêmen, Fatima e sua família deixaram o sítio. Encontraram um lugar para escavar um bunker subterrâneo improvisado, que Fatima descreveu como "um buraco grande com cortinas", para a família viver.

Mas, sem contar com a produção do sítio para se alimentar e para vender, eles tiveram dificuldade para sobreviver. Em abril, pareceu que a guerra ia acabar com a vida de outra filha de Fatima. Era Ishraq, de 3 meses. Diagnosticada com desnutrição grave, Ishraq foi internada no centro médico do hospital al-Jamhouri, em Saada City, onde estava entre a vida e a morte.

"Nossos filhos choram noite e dia por causa da falta de comida e água potável", disse Fatima Ali ao repórter e ativista Ahmad Algohbary no hospital. "Às vezes tenho vontade de morrer. Seria melhor do que vida."

Ahmad Algohbary
Ishraq Ali, de 3 meses, recebeu o diagnóstico de desnutrição grave.

Situada no norte do país, ao longo da fronteira com a Arábia Saudita, a província de Saada é uma das áreas mais isoladas e perigosas do país, quase inacessível a jornalistas e estrangeiros. A violência constante dificultou ao extremo a vida da população civil. Os bombardeios reduziram a escombros muitas escolas e feiras na antes movimentada Saada City. Na zona rural, onde a campanha de ataques aéreos vem sendo constante e os recursos sempre foram escassos, a destruição é ainda pior.

Antes da guerra, mais de 90% dos alimentos básicos consumidos no Iêmen eram importados. Hoje em dia as entregas de assistência alimentar em Saada são dificultadas por postos de checagem, barreiras nas estradas montadas por forças militares leais ao governo e bombardeios lançados pela coalizão internacional que apoia o presidente Abed Rabbo Mansour Hadi.

A província de Saada é o berço do movimento Houthi, uma rebelião xiita armada que tomou conta da parte sul do país em 2014 e acabou tomando a capital também. A ofensiva Houthi obrigou o governo de Hadi a fugir mais para o sul, para a cidade portuária de Aden. O governo não demorou a conseguir o apoio de uma coalizão militar formada por nove países do Oriente Médio e África, liderados pela Arábia Saudita.

Tanto os EUA quanto o Reino Unido fornecem armas aos sauditas. Em maio a administração Trump fechou um acordo para a venda de armas no valor de US$110 bilhões ao reino saudita.

Os bombardeiros da coalizão já lançaram pelo menos 2.166 ataques aéreos na província de Saada desde o início de 2015, segundo o Yemen Data Project, um esforço independente para colher e divulgar informações sobre a guerra. É uma média de 127 bombardeios por mês. De acordo com o banco de dados, ocorrem três vezes mais ataques contra alvos não militares, como mesquitas, feiras e hospitais, que contra alvos militares.

Saada já sofreu 268 bombardeios este ano. O ataque mais recente foi lançado contra um mercado no mês passado e matou pelo menos 25 civis que faziam suas compras de alimentação.

Ji Sub Jeong/HuffPost

Funcionários de organizações humanitárias avisam que a situação alimentar chegou a níveis de emergência em Saada City. A cidade possui o maior índice mundial de crianças que crescem atrofiadas: uma em cada oito crianças têm seu crescimento afetado pela desnutrição. Mais de 67% das crianças na província sofrem de subnutrição crônica, segundo a Unicef. Quase 10% das crianças com menos de 5 anos apresentam desnutrição aguda, enquanto 2% desse coorte apresenta desnutrição aguda e grave.

"Antes da guerra tínhamos apenas um número pequeno de casos de desnutrição, mas esse problema cresceu tremendamente desde que a guerra começou", disse a Algohbary em abril o médico Ali al-Kamadi, do departamento de nutrição do hospital al-Jamhouri.

A viagem de Algohbary a Saada em abril foi sua quinta visita à província este ano. Ele, que vive em Sanaa, a capital iemenita, conversou com funcionários do hospital al-Jamhouri e as famílias de várias crianças com desnutrição. Ele forneceu fotos ao HuffPost e também as transcrições de suas entrevistas, feitas em árabe.

Ahmad Algohbary
Naji, de 10 meses, sofria de um tipo de desnutrição grave conhecida como kwashiorkor.

Apesar de a situação na província de Saada estar se deteriorando diariamente, al-Kamadi disse que o hospital ainda vem conseguindo dar a assistência crucial para salvar a vida de crianças da região, incluindo o bebê de Nadia Mohammed.

Nadia contou a Algohbary que vendeu todo seu ouro para comprar qualquer alimento que conseguisse encontrar para seus filhos. Ela, que tem 33 anos, não se recorda da última vez em que a família comeu carne ou arroz.

Nos meses e semanas antes de chegar ao hospital, seu filho de 10 meses, Naji, chorava sem parar. Nadia e seu marido notaram que a barriga do bebê começou a inchar e, num esforço desesperado para frear o inchaço e aliviar a dor, cauterizaram a barriga do bebê. Essa prática médica secular é usada no Iêmen para tratar vários tipos de doenças, chegando a surtir efeito em alguns casos.

Pensamos que isso o ajudaria a melhor, mas ele continuou a chorar.

Finalmente seus vizinhos comentaram sobre o hospital al-Jamhouri. No hospital, ela foi informada que Naji sofria de um tipo de desnutrição grave chamado kwashiorkor, provocado por falta de proteína e que frequentemente causa distensão abdominal. Depois de receber tratamento no hospital, Naji se recupera em casa.

Naif Rahma / Reuters
Um garoto caminha sobre os escombros de uma casa destruída por um ataque aéreo recente liderado pelos sauditas na cidade de Saada, no noroeste do Iêmen. 4 de janeiro de 2017.

Crianças como Naji estão na linha de frente da crise de saúde no Iêmen. Mesmo antes da guerra civil devastar o país, o Iêmen era o país mais pobre do Oriente Médio. Hoje, mais de 2 milhões de crianças iemenitas estão desnutridas. Meio milhão delas sofre de desnutrição aguda e grave, uma condição que coloca sua sobrevivência em risco.

Enfraquecidas pela desnutrição, elas correm risco maior de morrer de doenças evitáveis como cólera. O país enfrenta um surto de cólera que já afetou 300 mil pessoas e fez mais de 1.600 mortes.

Todo ano cerca de 40 mil crianças no Iêmen morrem antes de completar 5 anos. "O conflito no Iêmen alimenta uma das piores crises do mundo envolvendo crianças", disse ao HuffPost um especialista em comunicações da Unicef em Sanaa, Bismarck Swangin.

A guerra atingiu fortemente o sistema de saúde do país. Mais de metade dos hospitais e clínicas foram parcialmente destruídos ou fechados devido à falta aguda de medicamentos, equipamentos, profissionais e infraestrutura. Um bloqueio naval imposto pela coalizão liderada pela Arábia Saudita limitou a importação de alimentos, combustíveis e suprimentos médicos. Desde que os voos comerciais a Sanaa foram suspensos, em agosto de 2016, os civis são impedidos de viajar ao exterior para buscar atendimento médico.

Os rebeldes Houthis, as forças do governo e os aviões da coalizão, todos já foram acusados de mirar contra hospitais e centros de saúde, bombardeando instalações, roubando ambulâncias e saqueando medicamentos e equipamentos médicos, segundo relatório da Watchlist on Children and Armed Conflict.

"Os hospitais estão sendo atacados sistematicamente. É uma tática de guerra dos sauditas e seus aliados", disse Christine Monaghan, pesquisadora do Watchlist. "Somados à negação de acesso a ajuda humanitária devido ao bloqueio dos portos, esses ataques levam a população civil, em especial as crianças, a morrer de doenças evitáveis, algo que vem acontecendo em grande escala."

STRINGER/AFP/Getty Images
Garoto sentado em um buraco em um muro de uma escola atingida no conflito em curso na província de Saada. 14 de março de 2017.

Antes de a guerra começar, em 2015, a província de Saada tinha 700 mil habitantes. Mas muitos civis fugiram quando começaram a faltar alimentos e a coalizão saudita os aconselhou a abandonar a região, em 2015. A população da própria Saada City caiu pela metade: sobraram apenas 25 mil civis. O hospital al-Jamhouri é um caso raro de um lugar que oferece ajuda à população vítima da miséria e da violência.

O hospital é um de apenas quatro centros médicos ainda operantes na província. O al-Jamhouri conta com uma maternidade, centro de traumatologia, enfermarias cirúrgicas e pronto-socorro. A organização médica internacional Médicos Sem Fronteiras, ou MSF, apoia o hospital com medicamentos, equipamentos e profissionais. Mas foi obrigada a retirar seu pessoal em agosto de 2016, quando a intensificação dos bombardeios deixou Saada um lugar perigoso demais.

Muitos médicos ainda ativos no Iêmen estão em desespero.

O Dr. Al-Kamadi contou que as famílias muitas vezes são forçadas a interromper o tratamento de seus filhos no al-Jamhouri por falta de dinheiro para custear os medicamentos, alimentação e estadia no hospital.

A Dra. Mariam Aldogani, que trabalha em Sanaa para a organização humanitária internacional Save the Children, disse que os médicos no país atendem até 180 pacientes por dia, apesar de muitos profissionais de saúde não receberem seus salários há meses.

"Não damos conta do volume de trabalho", disse Aldogani, falando ao HuffPost pelo Skype. "Os profissionais médicos estão lutando, mas está difícil. Simplesmente não conseguimos suprir as necessidades médicas do país."

"Já vi o medo nos olhos de muitas mães. O mais difícil do meu trabalho é não poder salvar todo o mundo."

Farid/UNICEF
Meritxell Relano, representante da Unicef no Iêmen, examina um menino com desnutrição no hospital al-Sabeen, em Sanaa. 19 de janeiro de 2017.

A Unicef e outras organizações humanitárias estão pedindo doações. Em uma cúpula em Genebra, Suíça, em abril, membros da comunidade internacional se comprometeram a suprir pouco mais de metade dos US$2,1 bilhões em ajuda pedidos pela ONU.

"Não entendo como a comunidade internacional pode assistir a esta crise sem fazer tudo o que está ao seu alcance para limitar o sofrimento dos iemenitas", disse Mutasim Hamdan, diretor para o Iêmen do Conselho Norueguês de Refugiados.

As organizações humanitárias estão implorando a países como os EUA e o Reino Unido para fazem mais do que apenas doar – para que acabem com o fluxo de armas às partes em guerra no Iêmen.

"No dia em que não forem mais vendidas armas a partes em conflito em nenhum lugar do mundo, será muito difícil que uma guerra aconteça", disse o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, na cúpula, quando perguntado sobre a cumplicidade dos principais países doadores, que também forneceram armas para o conflito no Iêmen.

Ahmad Algohbary
Faris se recupera após meses de tratamento intensivo no hospital al-Jamhouri. Enquanto isso, o tempo se esgota para os menores cidadãos do Iêmen.

Enquanto isso, o tempo se esgota para os menores cidadãos do Iêmen.

A avó Alia Alaloot contou a Algohbary sobre sua longa jornada em busca de segurança. Seus filhos adultos eram agricultores no distrito de Saqeen, em Saada. Uma bomba de fragmentação atingiu o sítio da família no início deste ano. Alaloot ficou sozinha com seu neto recém-nascido, Faris.

SEla e o bebê procuraram abrigo em um campo de refugiados em al-Manbaah, cidade situada na província vizinha de Hajjah, também próxima à fronteira saudita. Mas, como Sadaa City, Manbaah, controlada por Houthis, era alvo frequente de bombardeios sauditas. Não demorou para acabarem os alimentos do campo de refugiados.

Alaloot entendeu que não poderia ficar ali. Ela e o bebê gravemente desnutrido partiram para al-Jamhouri, uma viagem de seis horas de burrico e depois táxi.

Após meses de tratamento intensivo no hospital, Faris está se recuperando e se encontra em situação estável.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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