COMPORTAMENTO

Qual a importância social em ter os rappers negros Karol Conka e Rico Dalasam em horário nobre?

Abrindo a porta da representatividade onde ela ainda é escassa

24/07/2017 14:00 -03 | Atualizado 24/07/2017 18:14 -03
Bia Ferrer

Há pouco tempo seria difícil imaginar que uma mulher negra e um homem abertamente gay protagonizariam uma campanha de uma multinacional em horário nobre da televisão brasileira. Em 2017, talvez seja mais fácil ver isso, mas em geral esse retrato é pejorativo e pouco respeitoso.

Karol Conka e Rico Dalasam provam que não estão a serviço dos estereótipos e que conquistaram espaços entrando com o pé na porta e fazendo o que sabem de melhor, se tornando referências dos novos tempos.

Por si só, Conka é um ponto fora da curva. Uma das maiores representantes das mulheres negras e causas feministas do cenário musical, desde de 2016 é o rosto da marca Avon no Brasil e também estrela na nova campanha da nova máscara para cílios Avon Big & Style.

Ela, que recentemente lançou uma música que fala sobre sexo oral pela perspectiva das mulheres, tem usado a sua voz e influência para quebrar paradigmas e, principalmente, para dar mais visibilidade para a causa. Com isso, conseguiu uma legião de fãs e seguidores graças ao poder da internet.

É fácil perceber também o quanto essa presença é importante, já que são poucas as atrizes negras que estrelam as novelas das 21h, considerada a mais importante e cara da televisão, sem contar as publicidades. Taís Araújo e Camila Pitanga são dois dos mais fortes nomes nesse aspecto. A boa notícia, porém, é que em matéria de representatividade isso vem mudando aos poucos: em 2016, Velho Chico, Malhação, Êta Mundo Bom, Mister Brau e Justiça, todas da Globo, além de Escrava Mãe, da Record, contaram com protagonistas negras.

Para Rico Dalasam, não é diferente. No Brasil, não é comum uma pessoa pública falar da própria homossexualidade, especialmente em alguns meios como o rap. O medo da repercussão negativa e até das consequências que isso pode ter na carreira de um cantor ou ator ainda paralisam uma conversa franca sobre ser gay. E a pressão por levantar a bandeira a todo tempo pode tornar essa tarefa ainda mais difícil. Ajuda muito o fato de o rapper se olhar com olhos mais brandos e saber separar a vida pessoal dos momentos de luta:

"Eu já senti (essa pressão para ser politizado). Apesar de tanta gente estar perto de mim, por causa dos shows, da música, da moda e da imagem, eu tento me proteger com as pessoas que eu amo tendo elas perto, na minha casa, e ficando o máximo de tempo que eu posso com elas. E na rua, a gente troca o que for necessário", explicou ele sobre o seu papel em todo esse cenário de mudança, durante a gravação para o comercial da Avon.

Representante do 'queer rap*', o rap que une a música à força da comunidade LGBTQ+, Rico vem se tornando uma referência na direção de um mundo mais inclusivo: um homem negro usando maquiagem, na televisão, durante o horário mais assistido do dia é, de fato, uma quebra de paradigmas imensa, tanto quanto uma mulher negra, feminista e que fala abertamente de sexualidade nas suas músicas.

Para Rico, toda essa experiência é vista como um reconhecimento do seu trabalho duro e um espaço merecido em uma época em que a representatividade está tão em alta. Isso, claro, não significa que a sua individualidade deve ser anulada simplesmente por conta da sua orientação sexual e dos temas que ele aborda nos palcos. Ali, ele coloca para rodar a sua experiência de vida e o que sente, ao mesmo tempo que tenta buscar um ponto de equilíbrio entre o profissional e o pessoal.

"A gente já viveu e já tem bastante experiência em confronto, em resistir, em levar o que a gente não quer", continua o rapper. "A gente tenta se proteger dessas energias cruzadas, que nem sempre são boas para a gente."

Fica muito palpável que as mudanças de comportamento e referenciais estão chegando para ficar. Esse é um passo essencial para que o que é considerado incomum se torne apenas mais uma possibilidade. Diante dos fatos, tudo o que se pode fazer é comemorar a diversidade que está chacoalhando a sociedade brasileira, da cultura à indústria.

*Queer rap: uma vertente do rap que une a música às causas LGBTQ+. São artistas que falam abertamente sobre a sexualidade, sobre amor entre pessoas do mesmo sexo e sobre a luta contra a homofobia e o preconceito, além de explorarem elementos visuais dessa comunidade, como o visual drag.

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