MULHERES

Por que mulheres se agredindo em rede nacional ainda é capaz de elevar o Ibope das novelas

Nesta segunda-feira (24), vai ao ar uma das cenas mais esperadas pelo público da novela 'A Força do Querer'.

24/07/2017 16:24 -03 | Atualizado 25/07/2017 10:55 -03
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Nesta segunda-feira (24), vai ao ar uma das cenas mais esperadas pelo público da novela A Força do Querer e que parte de uma fórmula que é velha conhecida dos roteiros na dramaturgia. Joyce (Maria Fernanda Cândido) e Ritinha (Isis Valverde) vão dar uma surra em Irene (Débora Falabella).

Joyce, com ajuda da nora Ritinha, descobriu que Irene, até então sua melhor amiga, tem um caso com o seu marido Eugênio (Dan Stulbach). Ela teria se aproveitado da amizade com Joyce para manipular não só uma, mas várias situações vividas com a "amiga".

No capítulo, a personagem de Maria Fernanda Cândido vai a um restaurante acompanhada de seu filho Ruy (Fiuk) para encontrar o marido. No local, ela dá de cara com Irene.

No banheiro, Joyce, Ritinha e Irene vão protagonizar um diálogo cheio de farpas. "Não precisa me tratar assim. Seu marido vai ficar com você! Está apaixonado por mim, mas vai ficar com você! Ele faz sempre o que o dever manda, não é? E você se contenta!", provocará Irene.

A fala será a gota d'água para a confusão ser armada. No perfil do Facebook, Isis Valverde publicou cenas do capítulo da novela depois das imagens terem vazado na semana passada.

A cena é um clichê das novelas bastante esperado pelo público e que promete recorde de audiência. Coloca em cena a esposa leal, a amante apaixonada e "vadia" em disputa pelo homem elegante, bonito e bem-sucedido.

Adiciona-se a isso elementos como uma amizade forçada, jogos de interesse e disputa por poder. É a famosa "vingança". O momento de acertos de contas.

Como lembrado pelo blog do Mauricio Stycer, outras "surras" emblemáticas marcaram a televisão brasileira: Melissa (Christiane Torloni) e Yvone (Letícia Sabatella) em Caminhos da Índia; Juju Popular (Cris Vianna) e Carmen (Ana Carolina Dias) em Império; e Maria Clara (Malu Mader) e Laura (Claudia Abreu) em Celebridade.

Em comum, todas elas tinham mulheres que disputavam a "posse" de um homem. Mas, afinal, por que mulheres se agredindo em rede nacional ainda é uma ferramenta capaz de elevar o Ibope?

Se, para alguns a "vingança" é bem-vinda, para outros, o clichê de "mulheres inimigas" está fora da realidade.

A página do Facebook Feminismo Sem Demagogia publicou um texto criticando a "fórmula fácil" da novela da Globo em colocar uma mulher contra a outra em casos de infidelidade. Enquanto isso, o homem sairia impune de toda a relação.

"Sabe quem sai agora como vítima da situação, como que não consegue segurar seus instintos mas continua amando sua esposa? O cara, machista, traidor! Nós, mulheres, somos ensinadas a odiar a outra e perdoar um cara que sempre vai faltar com respeito dentro de uma relação seja ela fechada ou aberta. Porque uma vez quebrado o acordo entre o casal, raramente o cara volta a cumprir esse acordo de companheirismo e lealdade. Essa de que o cara tava frágil, cansado e que a carne é fraca, na boa, não é motivo não!"

Em outro post, a diretora Gloria Perez é criticada pelos papeis criados para as personagens. Para a espectadora, A Força do Querer reforça estereótipos femininos.

"Ah galera, na boa , e vocês estão ai festejando que três personagens mulheres vão sentar porrada em outra personagem mulher, sendo que esta novela esta cheia de estereótipos negativos para fortalecer que mulher é tudo de ruim, fútil, vulgar, burra etc etc?", defende a usuária Verinha Kollontai.

Já para a blogueira Cynara Menezes, da página Socialista Morena, a novela, em sua grande maioria, é um gênero cujas narrativas tendem a afetar sempre a autoestima das mulheres.

"Minhas amigas noveleiras que me perdoem, mas não entendo porque mulher gosta de novela. Mesmo a mais bela das atrizes sempre aparece nelas de maneira subalterna: ou é a boazinha, indefesa e vítima (a vingativa surradora do futuro); ou é a egoísta, invejosa, mau caráter e psicopata. Os homens, por mais cafajestes que sejam, são os coitadinhos por quem elas se digladiam. Tem novela onde o mesmo homem (muitas vezes um galã da terceira idade) é disputado por umas cinco beldades diferentes, da jovenzinha à loba", argumenta.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Gloria Perez falou sobre suas personagens:

"Minhas protagonistas foram sempre mulheres fortes, intensas e politicamente muito incorretas: porque humanas. E foi a dimensão humana que sempre me interessou."

Enquanto isso, aguardamos ansiosamente para o dia em que personagens mulheres não sejam reduzidas aos estereótipos considerados casos de boa audiência.

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