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Por que alguns países árabes querem o fechamento da Al Jazeera

'O Oriente Médio tem inúmeros problemas, mas eles não serão resolvidos com a retração das já limitadas liberdades de imprensa.'

24/07/2017 18:37 -03 | Atualizado 24/07/2017 18:45 -03
Naseem Mohammed Bny Huthil / Reuters
Al Jazeera, rede de TV financiada pelo governo do Qatar.

Por Philip Seib, professor de jornalismo e diplomacia pública da Universidade do Sul da Califórnia

Em 5 de junho, quatro países árabes – Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito – declararam guerra "soft" ao Qatar. Eles apresentaram uma longa lista de exigências, demandando afastamento do Irã, expulsão de forças militares turcas do país e outras medidas que reduziriam a influência regional do Qatar. Eles também exigiram o fechamento da Al Jazeera, rede de TV financiada pelo governo do Qatar que há anos critica os regimes árabes. Por enquanto, o governo do Qatar resiste à pressão para controlar as atividades da emissora.

Venho estudando e escrevendo sobre a Al Jazeera desde os primeiros anos da emissora, às vezes com preocupação, às vezes expressando apreciação. Meu livro "The Al Jazeera Effect" (o efeito Al Jazeera, em tradução livre), publicado em 2008, explorou o significado político no mundo árabe e além da rede de notícias via satélite.

Apesar das posições políticas controversas da Al Jazeera, acredito que o fechamento de qualquer empresa de mídia mina a viabilidade de uma imprensa livre – particularmente numa região em que a democracia tem tanta dificuldade para engrenar.

Um olhar crítico

Quando a Al Jazeera foi lançada, em 1996, houve um choque no cenário da mídia árabe.

Na época, os enfadonhos noticiários das TVs controladas pelo governo eram a regra. As reportagens evitavam controvérsias, e a qualidade da produção era pobre. De repente, surgiu um canal que oferecia uma cobertura mais ou menos sem censura da política da região, com um padrão visual mais parecido com redes de TV ocidentais como BBC e CNN.

Acima de tudo, quando havia alguma notícia importante no mundo árabe – como a segunda intifada, a revolta dos palestinos contra Israel, em 2000 --, os telespectadores árabes não tinham mais de buscar as emissoras ocidentais para ter acesso a análises sobre o que estava acontecendo. Em vez disso, eles viam repórteres árabes cobrindo o tema com um viés pró-árabe. A Al Jazeera English, fundada em 2006, se orgulha de cobrir mais temas e perspectivas do "Sul Global" do que qualquer outra emissora.

Em termos mais amplos, o canal gerou controvérsia por causa da cobertura das guerras do Afeganistão e do Iraque. O governo George W. Bush considerava a cobertura provocadora, pois ela mostrava vítimas civis. Autoridades americanas acusavam a Al Jazeera de incentivar a oposição aos esforços militares dos Estados Unidos na região.

Mesmo assim, a abordagem livre e pan-árabe da emissora vem sendo foco da ira dos governantes do Oriente Médio. Eles preferem exercer controle sobre o noticiário consumido por suas populações. A Al Jazeera faz reportagens críticas sobre esses governos, especialmente os que agora se manifestam contra o Qatar. Seus programas de debate tratam de assuntos como religião e direitos das mulheres e redefiniram o conceito de "liberdade de expressão" no mundo árabe.

O fervor jornalístico da Al Jazeera tem limites, entretanto. Apesar da disposição em questionar as classes dominantes da maioria dos países árabes, a família real do Qatar não recebe cobertura tão minuciosa. Pelo contrário: o canal é considerado parte do aparato de política externa do país.

A Primavera Árabe: o momento da virada

Duas décadas depois, a história segue sendo relevante.

Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, particularmente, se demonstram incomodados com a emissora desde a Primavera Árabe, em 2011. Eles afirmam que a Al Jazeera ficou do lado dos manifestantes e inflamou a revolta que ameaçou as monarquias da região.

A Al Jazeera também fez cobertura favorável da Irmandade Muçulmana, o que enfurece o presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, responsável pelo golpe que tirou do poder seu predecessor, integrante da Irmandade Muçulmana. Mesmo em meio às controvérsias, a Al Jazeera continua sendo crítica de outros países árabes.

Há um pouco de verdade nas acusações de que o conteúdo em árabe da Al Jazeera tem viés pró-islamista. Os adversários do Qatar afirmam que essa postura se manifesta em cobertura favorável não só da Irmandade Muçulmana, mas também de grupos ligados à Al Qaeda na Síria e no Iêmen.

Quem ocuparia o vácuo?

O Qatar deixou claro que considera uma violação de sua soberania as exigências do grupo de países liderado pelos sauditas. Mesmo que o país faça algumas concessões, é altamente improvável que a Al Jazeera seja fechada. A emissora é uma das grandes conquistas do Qatar, um veículo essencial na ascendência global do pequeno país nas últimas duas décadas.

E a Al Jazeera não detém o monopólio do noticiário na região – muito pelo contrário.

Seu principal concorrente é a Al Arabiya, que reflete os pontos de vista de seus donos sauditas e provavelmente ocuparia o posto de principal emissora árabe caso a Al Jazeera viesse a desaparecer. Há outras fontes importantes, como a Sky News Arabia, que pertence a um membro da família real dos Emirados Árabes, e, do outro lado do espectro, a Al Manar, voz do Hezbollah.

Essa competição vem roubando mercado e influência da Al Jazeera. Mesmo assim, a emissora é um dos alvos prediletos dos adversários do Qatar, pois o canal é em grande parte responsável pela ascensão do país no cenário global. Além do canal original em árabe e da Al Jazeera em inglês, há um canal nos Bálcãs e vários canais de esportes e de conteúdo infantil. A Al Jazeera também produz documentários e programação especial ao vivo.

A Al Jazeera está longe de ser perfeita, mas, para quem espera ver um mundo árabe mais democrático, a rede mostra que até mesmo vozes que não têm um carimbo de aprovação autocrático podem ter espaço no diálogo. Como em qualquer outro lugar do mundo, a sociedade árabe se beneficia da diversidade de opiniões debatendo os assuntos do dia.

O Oriente Médio tem inúmeros problemas, mas eles não serão resolvidos com a retração das já limitadas liberdades de imprensa.

*Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation e traduzido do inglês. The Conversation

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