MULHERES

O livro de Anita Leocadia Prestes que recupera a história de luta e resistência de Olga Benario

Filha de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes, aos 81 anos, é autora do livro que mergulha no "Processo Benario" produzido pela Gestapo.

23/07/2017 18:59 -03 | Atualizado 24/07/2017 16:21 -03
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Emma Kruger foi o nome adotado por Olga Benario durante suas atividades clandestinas na França e na Bélgica no ano de 1931.

"Muitas vezes fico triste quando minhas companheiras recebem cartas a respeito de seus filhos e ali, ao lado delas, penso: 'o que ainda sei de minha filha?. Mas, sabes, não deixaremos a coragem esmaecer", Olga Benario Prestes, em carta para Luiz Carlos Prestes, em abril de 1941.

A escrita como ferramenta para recuperar uma história silenciada pela repressão e cravá-la na memória. Talvez essa seja a intenção de Anita Leocadia Prestes, 81 anos, historiadora e filha da revolucionária comunista Olga Benario, ao mergulhar nos arquivos da Gestapo e trazer à tona parte da trajetória desconhecida de sua mãe no livro Olga Benario Prestes: Uma comunista nos arquivos da Gestapo (Boitempo, 2017).

No livro, a historiadora recupera o que Olga viveu até sua morte, em 1942, a partir dos arquivos da polícia alemã, que, disponibilizados recentemente, permitiram o encontro entre uma Olga até então desconhecida com a historiadora Anita.

"Embora no Arquivo da Gestapo haja muitos documentos inéditos, a vida e o comportamento da minha mãe já eram, no fundamental, do meu conhecimento", conta Anita em entrevista ao HuffPost Brasil. "Mas, sem dúvida, ao ler essa documentação, houve para mim momentos de grande emoção", revela.

Nascida em 27 de novembro de 1936 em uma prisão feminina em Berlim, na Alemanha nazista, Anita Leocadia Prestes carrega no nome a força de duas mulheres: a revolucionária Anita Garibaldi e de sua avó materna, Leocadia Prestes.

Ela é a criança que nasceu do relacionamento entre Luiz Carlos Prestes e Olga Benario, durante o governo de Getúlio Vargas, e que marcou a imagem de Olga, na iminência de ser extraditada do País, aguerrida, mulher e mãe, ao bradar: "estou grávida de Luiz Carlos Prestes e quero ter o meu bebê aqui no Brasil", cena retratada no filme Olga (2004), baseado no livro homônimo de Fernando Morais, publicado em 1985.

"A memória dos meus pais sempre esteve viva em minha mente. Escrevo sobre eles para que as novas gerações tomem conhecimento do seu exemplo. É muito importante que elas conheçam o horror que foi o fascismo e, ao mesmo tempo, saibam que sempre é possível resistir", aponta a escritora.

Mas o que mais chamou a atenção da escritora ao mergulhar em cartas e outros documentos confiscados pela Gestapo já não era novidade. "Principalmente a coragem e a intrepidez dela [Olga], que, como dizia meu pai, era fruto da convicção da justeza da causa do socialismo por eles abraçada à época", diz.

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A coragem e a intrepidez de Olga se fazem presentes nas páginas do livro em diversos momentos. Em um dos destacados por Anita, está uma carta de fevereiro de 1938 de Reinhard Heydrich, oficial nazista da Polícia de Segurança alemã, para o diretor da prisão onde ela estava presa:

Estou de pleno acordo com as decisões tomadas, foram absolutamente necessárias em função da conhecida esperteza dessa comunista fanática [...]. Benario se encontra em prisão preventiva e não em um sanatório, em virtude de não ser politicamente confiável, o que já se provou evidente. Benario terá de arcar com medidas mais rígidas e com revogação de todos os benefícios, caso não se esforce em evitar comportar-se de modo insolente.

A "comunista fanática" citada pelo oficial é Olga, presa em Berlim, e as reclamações e pedidos dela porque sua filha, Anita Leocadia Prestes, aos 14 meses de idade havia sido tirada de perto dela, foi transformada em "insolência". Mas uma Olga forte e resistente também aparece em carta de março de 1937 para Prestes, na qual ela relata:

Já se passaram quase quatro meses desde que a pequena Anita Leocadia nasceu. Apesar de eu ter ficado muito doente depois do parto, agora estamos bem, na medida do possível nas condições atuais. Estamos na ala da enfermaria de uma prisão. Eu mesma amamento a pequena, e por isso ela pode permanecer comigo até quando eu estiver em condições de fazê-lo. Depois de tudo o que passei, é realmente de admirar que nossa filha tenha uma saúde como esta. [...] Vou encontrar forças para aguardar o feliz dia em que novamente estaremos juntos.

Os arquivos "esquecidos" da Gestapo contêm, no total, 2,5 milhões de documentos, entre cartas, relatórios, fotos e memorandos, divididos entre 28 mil dossiês que, separados em outros 50 catálogos, guardam informações sobre ações da polícia secreta nazista, ativa entre 1933 e 1945.

A abertura dos documentos, batizados de Trophäendokument (documentos-troféu, em tradução livre do alemão), só foi possível pela parceria entre institutos de pesquisa russos, a Fundação Max Weber e o Instituto Histórico Alemão de Moscou. O material está disponível online e foi aberto à consulta pública em 2015. A digitalização total dos documentos está prevista para 2018.

Olga Guttmann Benario nasceu em 1808 em Munique, na Alemanha, e foi uma das figuras revolucionárias mais destacadas do século XX. Integrante do Partido Comunista da Alemanha, em 1934 foi encarregada de fazer a segurança de Luiz Carlos Prestes, fundador da Coluna Prestes e um dos símbolos de oposição ao governo de Getúlio Vargas -- que flertava com o fascismo europeu à época. Ambos chegaram clandestinamente ao Brasil e, em 1936, foram presos separadamente. Na prisão, Olga descobriu que estava grávida e, mesmo assim, foi deportada já com sete meses de gravidez por ser considerada uma ameaça ao Brasil. Na prisão Barninmstrasse, em Berlim, em novembro de 1936, nasceu Anita. Em 1939, Olga foi transferida para o campo de concentração de Lichtenburg e, depois, para o então recém-inaugurado campo de concentração para mulheres em Rasvenbruck. Em 1942, foi assassinada em uma câmara de gás.

Com ajuda de tradutores, Anita debruçou-se sobre esses papéis e encontrou o "Processo Benario", que contém oito dossiês e cerca de 2 mil folhas, para compor a narrativa sobre sua mãe. Eles revelam novos episódios sobre a trajetória de Olga desde o momento que ela foi extraditada do Brasil até sua morte. "Qualquer pesquisador se sentiria diante de uma mina de ouro ao deparar com o acervo histórico que deu origem a este livro", escreve Fernando Morais no prefácio do livro.

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O que os documentos trazem de novo

A vida de Olga Benario já havia sido tema de uma biografia escrita por Fernando Morais (lançada em 1985 e reeditada em 1994), adaptada para o cinema, em 2004. No filme, dirigido por Jayme Monjardim, a revolucionária é interpretada pela atriz Camila Morgado. Para Anita, a versão já conhecida não tem lacunas -- mas os arquivos da Gestapo trazem fatos que complementam uma história, muitas vezes, vista como inacabada por ela.

"O livro de Fernando Morais trata-se de um trabalho sério de pesquisa, o qual, embora seja possível apontar algumas imprecisões, era considerado muito bom pelo meu pai", diz. "Entretanto, a disponibilização recente dos arquivos da Gestapo permite que se conheçam documentos inéditos, aos quais Fernando Morais não teve acesso quando escreveu sua obra", completa.

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A atriz Camila Morgado interpreta Olga Benário no filme Olga (2004), que conta a história da revolucionária comunista no Brasil.

Os documentos trazem informações novas e preenchem lacunas. Entre elas:

A comprovação da resistência de Olga. Para a epígrafe do livro, Anita escolheu uma frase simbólica de sua mãe: "Se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei". No livro, é possível observar a resistência contínua de Olga na prisão e nos campos de concentração. Ela passou por diversos interrogatórios e questionamentos, mas, em nenhum momento, colaborou com o regime nazista. Segundo os documentos da Gestapo, ela nega, mais de uma vez, participação ou envolvimento com as ações da Internacional Comunista, tanto na Europa, quanto no Brasil.

As cartas inéditas entre Olga e Prestes. O livro recupera a troca de dezenas de cartas entre Olga, Prestes e familiares, que até então era desconhecida. No material, é possível observar um esforço de Olga, mesmo presa, para manter-se informada sobre sua filha e a vida de Prestes, que estava preso no Brasil à época. O livro reproduz nove cartas de Olga para Prestes e oito de Prestes para Olga.

Uma gravidez e uma extradição. Os documentos da Gestapo comprovam que o consulado alemão no Rio de Janeiro concedeu um passaporte para Olga, em setembro de 1936, pouco antes de sua extradição. Ela tentava provar que havia se casado com Prestes (porém, como clandestinos, o casal nunca conseguiu selar o matrimônio) e que tinha que ficar no Brasil, pois ia dar à luz um filho brasileiro. A emissão do passaporte seguia o trâmite burocrático da época para que Olga fosse extraditada. No documento descoberto recentemente, está anotado que ela recusou a assiná-lo.

A luta pela proximidade com a filha. Em 1938, Olga escreveu uma carta significativa ao chefe da Polícia de Segurança alemã, ligada à Gestapo, protestando por terem retirado a filha de sua companhia. No documento, Olga reclama e faz três pedidos: a revisão de sua prisão e, se caso fosse negada, exigia a revogação da prisão solitária; a permissão para receber cartas de sua sogra e a autorização para receber visitas. Todos os pedidos foram negados pelo chefe da polícia, como mostra carta reproduzida no livro.

O olhar da Gestapo sobre Olga. Em agosto de 1937, Heinrich Himmler, o comandante da SS (braço militar nazista que supervisionava a Gestapo), recebeu um detalhado relatório sobre Olga. Ela é descrita como uma "comunista perigosa e obstinada" e que "durante o interrogatório realizado não relatou nada sobre sua atividade comunista", além de justificar sua prisão por "interesse da segurança do Estado".

Para ler mais:

Olga, de Fernando Morais

Ravensbrück: A história do campo de concentração nazista para mulheres, de Sarah Helm

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

Luiz Carlos Prestes - Um comunista brasileiro, de Anita Leocadia Prestes

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O caminho de Anita

Foi graças aos esforços da avó paterna, Leocadia Prestes e de sua tia Lygia -- que encabeçaram a campanha pela libertação de Olga e Prestes no Brasil -- que Anita foi resgatada aos 14 meses de idade e afastada em definitivo de sua mãe. Assim, foi criada em exílio por ambas. Mas foi em 1945 que voltou ao Brasil, aos nove anos de idade, e passou a morar com seu pai.

Anita Leocadia Prestes se formou em química industrial em 1964 pela Escola Nacional de Química da antiga Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pelo seu envolvimento no já clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi perseguida pelo regime militar brasileiro e condenada a mais de quatro anos de prisão.

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Fugindo da repressão, em 1973 ela se exilou na União Soviética, onde doutorou-se em economia e filosofia pelo instituto de Ciências Sociais de Moscou. Em 1979, sua sentença foi anulada e conseguiu regressar ao País, graças à primeira Lei de Anistia no Brasil.

Hoje, Anita é doutora em história social pela Universidade Federal Fluminense e professora do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ. Ela dedicou boa parte de sua vida à investigação rigorosa e preservação da memória do trabalho de seu pai, Luiz Carlos Prestes, de quem foi assessora pessoal até a sua morte, em 1990. Autora de vasta obra sobre a atuação política de Prestes e a história do comunismo no Brasil, Anita é presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.

O próximo passo? Escrever, literalmente, sua própria história: "Estou tentando produzir um livro com as minhas memórias, o que, em certa medida, se justifica pelo fato de durante a minha já longa trajetória de vida ter enfrentado as vicissitudes das perseguições movidas contra meu pai e nossa família", conta.

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Em entrevista por e-mail ao HuffPost Brasil, Anita falou sobre o novo livro, sua relação com a história de seus pais e o atual momento da política brasileira:

HuffPost Brasil: Em seu novo livro, você recupera o que Olga Benario passou até sua morte a partir de arquivos inéditos da Gestapo que foram disponibilizados online recentemente. Como foi entrar em contato com esses documentos e encontrar uma Olga que talvez você ainda não conhecesse?

Anita Leocadia Prestes: Embora no Arquivo da Gestapo haja muitos documentos inéditos, a vida e o comportamento da minha mãe já eram, no fundamental, do meu conhecimento. Sem dúvida, ao ler essa documentação, houve para mim momentos de grande emoção.

Existe algo que mais te chamou a atenção ou até emocionou ao mergulhar nos documentos que expõe tanto o sofrimento, quanto a resistência de sua mãe?

Principalmente a coragem e a intrepidez de Olga, que, como dizia meu pai, era fruto da convicção da justeza da causa do socialismo por eles abraçada.

Para você, qual a importância desses documentos estarem disponíveis atualmente?

É muito importante que as novas gerações conheçam o horror que foi o fascismo e, ao mesmo tempo, saibam que sempre é possível resistir.

Você nasceu em uma prisão feminina na Alemanha nazista e foi afastada de sua mãe com 14 meses; depois, só conheceu o pai aos nove anos e manteve uma relação muito estreita com ele tanto que, um dos textos mais completos sobre a trajetória dele é escrita por você. Escrever sobre Prestes e agora, sobre Olga, é uma forma de manter a memória deles viva não só para o Brasil, mas também na sua mente?

A memória dos meus pais sempre esteve viva em minha mente. Escrevo sobre eles para que as novas gerações tomem conhecimento do seu exemplo.

Em texto para a Boitempo, você escreve que "Olga foi uma vítima do fascismo entre milhares de outras e que seu martírio deve servir de exemplo para que não permitamos que tais horrores se repitam". Como é ser filha de Olga Benario, uma mulher que, de certa forma, se tornou símbolo para muitas outras?

Minha avó paterna Leocadia e minha tia Lygia, que me criaram e educaram, me ensinaram que eu deveria me fazer por mim mesma, sem me considerar "especial" por ser filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, dois personagens emblemáticos da história do século XX.

No Brasil não houve condenação de torturadores de períodos ditatoriais, diferentemente de outros países da América Latina. Na sua visão, isso contribui para discursos extremistas, que pedem a volta das Forças Armadas no Brasil?

O fato da Lei da Anistia de 1979 não ter permitido a condenação dos torturadores de períodos ditatoriais contribui não só para discursos extremistas, como também para justificar a prática da tortura, manter impunes numerosos torturadores, entre os quais muitos continuaram a exercer cargos públicos, e colaborar com a manutenção de práticas autoritárias em nosso país.

A luta de ampliação de direitos humanos pelas vias institucionais, como mudanças legais, está fadada ao fracasso? A senhora acredita mais em avanços via organizações da sociedade civil?

Penso que a luta pela garantia das liberdades democráticas, incluindo os direitos humanos, avançará na medida em que também avançar a organização popular em nosso país, a qual, por enquanto, ainda é insuficiente.

A aproximação do governo Temer com militares, como o fato de nomear um deles para a Funai, evitar a reforma na aposentadoria dos militares e chamar o Exército após um protesto contra o presidente é preocupante, na sua visão? Por quê?

Sem dúvida, pois confirma algo que Luiz Carlos Prestes destacou às vésperas da aprovação da Constituição de 1988: a supremacia do poder militar em nosso país, segundo o artigo 142 dessa Constituição, em que se atribui aos militares a função de "garantirem a lei e a ordem", atribuição que nem ao presidente da República ou aos outros dois poderes do Estado é tão expressamente concedida. Prestes considerava que o artigo 142 da Constituição contraria "conhecido preceito da tradição constitucional de nosso país, que sempre afirmou serem os três poderes do Estado autônomos, mas harmônicos entre si, não podendo, portanto, nenhum deles tomar qualquer iniciativa isoladamente".

Então, qual seria o impacto para o País de eleições indiretas, no caso da saída de Michel Temer, considerando a crise de credibilidade pela qual o Congresso passa?

A meu ver, seria a manutenção do estado de coisas atual: uma política voltada para a liquidação de grande parte das conquistas dos trabalhadores, alcançadas como resultado de décadas de lutas. Uma política de continuidade dos resultados obtidos pelo grande capital nacional e internacional com a realização do golpe parlamentar-jurídico que entregou a presidência a Michel Temer, um usurpador que não foi eleito pelo povo.

Como você vê o avanço do conservadorismo no Brasil e no mundo? Você acha que essa movimentação é algo que afeta a participação das mulheres na política diretamente?

Afeta todos os setores da população atingidos pela exploração do capital e, em grande medida, as mulheres. A solução definitiva para os problemas que afetam hoje a humanidade é o socialismo, pois o capitalismo nada mais tem a oferecer aos trabalhadores e aos oprimidos.

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