COMPORTAMENTO

Redes sociais, beleza, moda e música: As armas de luta da nova geração

Jovens, em sua maioria negros da periferia, criam espaços de autoaceitação, liberdade e diversão. São conhecidos como "geração tombamento", mas alguns rejeitam o rótulo. Para eles, o fervo também é luta!

19/07/2017 09:15 -03 | Atualizado 21/07/2017 14:20 -03
Bia Ferrer

Nunca ficou tão claro que o momento é de mudança. Seja pela comunidade negra, LGBTQ+ ou em relação aos direitos das mulheres, a sociedade como a conhecemos está aprendendo um novo jeito de ser e de viver. Essa nova forma de pensar fica muito clara com a "geração tombamento" - nome dado ao jovens com forte discurso e visão cultural que tem encontrado na música e na estética uma forma de colocar a sua posição política para rodar.

Inspirados em artistas como Karol Conka, a rapper Tássia Reis e MC Carol – sendo que as duas últimas já estrelaram campanhas da gigante de cosméticos Avon – esses jovens estão tomando as ruas e criando uma maneira diferente de serem vistos e ouvidos, inserindo-se em locais onde nunca foram aceitos. Um exemplo marcante desse movimento é a festa Batekoo, que tomou as ruas de Salvador, São Paulo e do Rio de Janeiro, abrindo espaço para os jovens da periferia se divertirem.

Um evento altamente inclusivo e diverso, que celebra a cultura negra, a acessibilidade e a representação, tornou-se uma referência da geração. Ali, os jovens negros se sentem livres para se expressarem como bem entendem, para se divertirem e aproveitarem uma noite na cidade em um ambiente onde os julgamentos não têm vez.

"Nós, jovens negros, crescemos sem muitas referências e até mesmo sem muito autoamor, sempre somos condicionados e ensinados a esconder nossa estética, nossos traços negros e nossas opiniões. A Batekoo e outros eventos têm como narrativa libertar e expor o que realmente somos, é uma proposta emancipatória, não apenas uma festa", explica a ativista Stephanie Ribeiro.

Realmente, a estética é um marco no dia a dia e nas festas frequentadas por essa turma supercriativa. A maquiagem compartilhada por todos os gêneros, assim como as cores, transforma cada rosto em uma obra de arte aberta em processo de construção.

Sempre tão distante de tudo aquilo que é mainstream e considerado 'cool' por jovens de classe média alta, a "geração tombamento" é a prova de que maquiagem e beleza são potências expressivas e de que não é preciso um necessaire cheio de marcas caríssimas e importadas para criar um look que represente tudo o que uma pessoa acredita.

"Eles não têm o poder aquisitivo para adquirir uma roupa de moda e buscam usar isso como uma forma de expressão. Eles garimpam muito em brechó. Têm esse discurso de que não tinham dinheiro, começaram com blog para postar dicas de moda acessível, de customização de roupas", comenta Brenda Zapana, frequentadora da Batekoo.

Bia Ferrer

Bia Ferrer, fotógrafa conhecida por registrar belezas reais nas ruas das cidades, diz que toda essa nova estética chama atenção para as questões defendidas pelo público de festas itinerantes como a Batekoo: ocupação do espaço público, respeito a diversidade e acessibilidade. O grito não precisa só da voz para ser ouvido; assumir suas origens, valorizar sua estética natural é capaz de mostrar a luta diária dessas pessoas por uma sociedade mais aberta e diversa.

"Com a popularização das câmeras digitais, as 'fotos de revista' deixaram de ser as únicas a apresentar os padrões. Todo mundo começou a se fotografar, e consequentemente a se olhar mais. Estamos em um momento em que os estereótipos estão caindo e que 'beleza sozinha não serve para nada'. Somos muitos, somos diversos e a beleza está muito mais ligada a atitudes e ideais. Isso é tão verdadeiro e global, que as marcas estão aprendendo com eles. Eu queria levar para outros lugares um pouco dessa cultura, então durante 2 meses frequentei as festa e com patrocinio da Avon, estou expondo o resultado desse trabalho em NY.", diz ela.

O genial poder de expressividade

O primeiro contato de Brenda com a festa Batekoo foi durante o Carnaval. O que lhe chamou atenção foi o clima do evento: "Eu vi muita galera negra, da perifa, com uma intenção: fazer a minha festa e me divertir do jeito que eu gosto. 'Não dependendo de dinheiro.' Foi um primeiro contato que pensei 'que genial' esse poder de expressividade", comentou ela.

Guilherme Casiano participou pela primeira vez da Batekoo no mês passado, mas já esteve em outros eventos com um viés semelhante, como a festa Mamba Negra. O ponto alto para ele, além da estética incrível e do propósito de divertir, é o quanto esses encontros são educativos.

"O legal dessas festas altamente politizadas é que elas educam muito o público. Elas ensinam essas ideias políticas para quem frequenta", explicou. "Isso desperta um certo interesse na pessoa. Quando você vai nessas festas, você tem uma experiência... E essa experiência é parte de um contexto, e o que molda esse contexto são jeitos de pensar."

Seja através da moda ou da música, a liberdade e igualdade são palavras de ordem. A sensação é de que as pessoas estão mais livres para serem quem são de verdade. É uma abertura da mente que agora já aceita – muito mais do que há 10, 20 ou 50 anos – diferentes formas de expressão e se mostra mais receptiva para uma realidade reformulada.

Bia Ferrer

"Todo mundo está meio cansado da mesmice, é uma baita carga que a gente sempre carregou na história. E hoje não faz sentido e faz cada vez menos sentido. É uma história fictícia. As pessoas têm um bagulho que se você estalar os dedos, desperta. Desperta numa roupa, num passo de dança, no modo que a pessoa fala, na ideologia que ela tem. Está acontecendo um movimento muito importante. E isso pode começar com uma festa. É até um alarde para os jovens, tudo com um preço muito acessível para a galera colar sem restrição", diz Brenda.

Entra aí toda a quebra de estereótipos e a fluidez de gênero: cada pessoa agora se vê mais livre para usar, vestir e maquiar o que lhe faz sentir bem. A questão da aceitação é igualmente mais ampla; as pessoas têm mais oportunidades de se enquadrarem em um cenário onde antes não se viam bem-vindas. Na verdade, o cenário é outro: elas não precisam mais se adaptar, elas já são aceitas por outras como elas. E utilizam seus looks, gostos musicais e festas que frequentam para mostrar que o racismo, o preconceito e a discriminação, por qualquer motivo que seja, estão perdendo a força.

"As pessoas estão descobrindo o que é ser livre e o que é se expressar, sabe? As pessoas estão assumindo que a ideia de gênero, principalmente em roupas, não faz sentido. É parte desse processo, para as pessoas se sentirem mais livres para não darem nomes, não darem gêneros para looks e roupas. Para mim, isso não faz o menor sentido. A descoberta da liberdade implica o desmembrar e o largar ideias antigos", finaliza Guilherme.

  • Bia Ferrer
  • Bia Ferrer
  • Bia Ferrer
  • BIa Ferrer
  • Bia Ferrer
  • Bia Ferrer
  • Bia Ferrer
  • Bia Ferrer

LEIA MAIS:

- O que Pabllo Vittar pode nos ensinar sobre beleza para todos

- Faça esse teste e saiba como a publicidade pode incentivar a igualdade