MULHERES

O livro de Angela Davis que leva o ativismo para a prática e exalta a luta política das mulheres

'Mulheres, Cultura e Política', publicado nos anos 80 nos Estados Unidos, ganha sua primeira versão em português pela Boitempo Editorial.

16/07/2017 10:39 -03 | Atualizado 17/07/2017 11:57 -03
Universal History Archive via Getty Images
Angela Davis, ativista norte-americana, acadêmica, filósofa e escritora.

"A política não se situa no polo oposto ao de nossa vida. Desejemos ou não, ela permeia nossa existência, insinuando-se nos espaços mais íntimos".

A frase acima é da escritora e ativista Angela Davis, 71, em seu livro Mulheres, Cultura e Política, lançado pela primeira vez no Brasil pela Editora Boitempo. Publicado originalmente em 1989, o livro é uma compilação de discursos e artigos que sintetizam e complementam o pensamento de Davis sobre economia, cultura, política e militância.

Enquanto Mulheres, Raça e Classe (1981) -- lançado pela primeira vez em português em 2016 -- expõe as bases do sistema político e da configuração das relações sociais nos Estados Unidos com base em gênero (mulheres), raça (negra) e classe (trabalhadoras), o novo livro pode ser visto como a continuidade prática do primeiro.

Com dados históricos e estatísticas, Davis aponta que o governo de Ronald Reagan (1981 a 1989) operou para enfraquecer grupos sociais nos Estados Unidos, como a classe trabalhadora e a população negra; e também reflete sobre movimentos sociais, além de destacar a importância de conhecer o ativismo de mulheres como Winnie Mandela, que ficou mais conhecida por ser ex-mulher do ativista sul-africano e antiapartheid, Nelson Mandela, do que uma escritora e feminista.

"Ela estabelece claramente uma relação de hereditariedade", conta Heci Regina Candiani, cientista social pela Unicamp e tradutora de Angela Davis para o português, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Neste livro, segundo Candiani, Davis mostra "o que as mulheres militantes de hoje devem aprender com as mulheres militantes do passado, e como é importante não se posicionar apenas em relação à opressão no interior dos Estados Unidos mas também na América Latina, na África, em todo o mundo".

Hoje, quando refletimos sobre o processo de empoderamento das mulheres afro-americanas, nossas estratégicas mais eficazes continuam sendo aquelas guiadas pelo princípio adotado pelas mulheres negras do movimento associativo. Precisamos nos esforçar para "erguer-nos enquanto subimos". Em outras palavras, devemos subir de modo a garantir que todas as nossas irmãs, irmãos, subam conosco.Angela Davis em 'Mulheres, Cultura e Política'.

Davis, que analisa como racismo, capitalismo e sexismo estruturam as relações gerando formas combinadas de opressão, amplia o horizonte de suas reflexões e de suas preocupações com o contexto social em Mulheres, Cultura e Política.

Divulgação/Editora Boitempo
Capa da edição brasileira do livro de Angela Davis, 'Mulheres, Cultura e Política', publicado pela primeira vez no Brasil em 2017.

Em 193 páginas, a autora expõe também o que cortes em programas sociais, de saúde e educação e o que as reformulações em políticas públicas representaram para as mulheres estadunidenses à época.

"Essas são realidades que as mulheres vivenciam todos os dias, no Brasil e em todo o mundo, e acredito que as reflexões da autora podem ser bastante claras em inspirar estratégias de resistência e de luta política", afirma Candiani.

Porém, a obra, mesmo quase 30 anos depois de publicada, continua atual. "É impossível não reconhecer nos relatos que ela traz alguns aspectos do oportunismo político dos atuais governos do Brasil e dos Estados Unidos", completa.

Como podemos garantir que esse padrão histórico se rompa? Enquanto defensoras e ativistas dos direitos das mulheres de nosso tempo, devemos continuar a fundir esse duplo legado a fim de criar um "continua" único, que represente de modo sólido as aspirações de todas as mulheres da nossa sociedade. Devemos começar a criar um movimento de mulheres revolucionário e multirracial que aborde com seriedade as principais questões que afetam as mulheres pobres e trabalhadoras.Angela Davis em 'Mulheres, Cultura e Política'.

Para a tradutora, que também é cientista social e estudou a obra de Davis em seus estudos sobre gênero, é "impossível não estabelecer uma relação dos dois livros com a própria trajetória da autora".

Na década de 70, Angela Davis integrou o grupo Panteras Negras e foi membro do Partido Comunista. Ela foi presa e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha "Libertem Angela Davis", que deu nome a um documentário. Atualmente, ela é professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia e desenvolve trabalho intenso sobre a questão prisional nos Estados Unidos.

O primeiro foi escrito, em parte, quando estava presa, e o segundo quando já estava em liberdade e em contato mais próximo mulheres de todo o mundo.

Paul Morigi via Getty Images
Angela Davis faz discurso na Marcha das Mulheres, em 21 de janeiro de 2017, em Washington, nos Estados Unidos.

O maior desafio ao traduzir Davis para o português? O cuidado para não cair em armadilhas. Segundo Candiani, o alinhamento da autora com a ideia de um feminismo interseccional transparece em sua escolha de palavras e na construção das frases. Por isso, o processo de tradução precisa levar isso em consideração.

"É preciso ter um cuidado especial com uma armadilha de nossa língua portuguesa: o masculino como fórmula de neutralidade (dizemos "historiadores", por exemplo, para nos referirmos a "historiadoras e historiadores")", conta.

"Essa característica de nossa língua encobre o protagonismo e a ação das mulheres em muitos campos da atividade humana. E isso teve outros desdobramentos, porque também em relação às questões étnicas e de classe nossa linguagem é carregada de preconceitos", complementa.

As mulheres de Angela Davis

O pensamento e a existência de Angela Davis podem ser considerados sinônimos de força e resistência a um sistema que, diariamente, insiste em criar mecanismos para que as mulheres negras tenham seus direitos cerceados e suas trajetórias silenciadas.

"Antes de queimar os sutiãs, nós, as mulheres negras, já tínhamos queimado os canaviais e as casas grandes", aponta Vilma Reis, socióloga, feminista negra e ouvidora da Defensoria Pública da Bahia que assina o prefácio da edição brasileira de Mulheres, Cultura e Política.

Davis busca integrar falas e escritos de mulheres de origem africana, afro-americana, árabe, asiática, indígena em seus textos e traz histórias, relatos e citações de textos desconhecidos, em muitos casos, pelo leitor.

"As mulheres negras e de outras etnias foram silenciadas e invisibilizadas até na literatura feminista. Angela provoca isso. Ela traz para o debate a miopia política dentro do próprio movimento feminista que, até então, só era visto por uma ótica hegemônica, como apenas um movimento de mulheres brancas", finaliza Reis.

Para saber mais:

Libertem Angela Davis, Shola Lynch (2011)

"Se eu tivesse que destacar um aspecto eu diria que é o modo como ela dá voz às mulheres de todas as etnias em suas obras", aponta Candiani.

A filósofa faz jus às mulheres que defenderam a igualdade racial de gênero nos Estados Unidos, como Winnie Mandela, na África do Sul, Nawal El Saadawi, no Egito, além de citar a também a feminista e escritora norte-americana, Audre Lorde.

Anote aí:

A escritora estará no Brasil no dia 25 de julho, Dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha, para uma palestra no evento "Julho das Pretas", sobre as perspectivas futuras da luta anti racistas, organizado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Mulheres, Cultura e Política

Editora: Boitempo

Páginas: 193

Preço: R$ 48,00

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