MULHERES

Uma virgem para a vida toda explica o que significa ser ‘casada com Cristo’

Laurie Malashanko é parte de uma antiga ordem de virgens consagradas.

11/07/2017 16:30 -03 | Atualizado 11/07/2017 17:58 -03

Laurie Malashanko faz parte de um grupo de algumas centenas de mulheres nos Estados Unidos que juraram se manter virgens durante a vida inteira a serviço da Igreja Católica.

Em junho, com Theresa Jordan e Karen Ervin, ela prestou o juramento para tornar-se uma virgem consagrada – entrar para a ordem de mulheres católicas que se dedicam a Deus mantendo-se virgem durante a vida inteira – em uma cerimônia solene, parecida com um casamento, supervisionada pelo arcebispo de Detroit, Allen Vigneron. Foi a primeira vez que a Arquidiocese de Detroit realizou uma cerimônia do tipo.

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Archdiocese of Detroit
O arcebispo de Detroit, Allen Vigneron, durante a missa de consagração, em 24 de junho.

Há menos de 250 virgens consagradas nos Estados Unidos, e cerca de 3 000 no mundo inteiro, segundo a Associação de Virgens Consagradas dos Estados Unidos. A vocação pouco conhecida existia quando a igreja ainda não havia criado ordens de freiras. Mas as virgens consagradas praticamente desapareceram no século 12, quando as mulheres passaram a entrar para ordens religiosas e a viver em comunidades. A vocação ressurgiu na época do Concílio Vaticano II.

Para que o compromisso fosse reconhecido pela arquidiocese, Malashanko e as outras mulheres tiveram de se reunir com diretores espirituais, estudar as escrituras e orar com regularidade. O processo todo leva anos e inclui uma solicitação com cartas de referência e ensaios.

Ser uma virgem consagrada, não uma freira, significa que Malashanko vive de forma independente, tem emprego em tempo integral e organiza seu tempo da maneira que melhor lhe convier. Isso incluir ir à missa e rezar várias horas por dia. As freiras, por suas vez, costumam viver em comunidades de irmãs e têm seu tempo submetido a rotinas rígidas.

Outra diferença das virgens consagradas é que, ao contrário das freiras, elas não podem fazer o voto de castidade depois de ter mantido relações sexuais.

Archdiocese of Detroit
Malashanko postrada durante sua consagração como virgem para toda a vida.

O HuffPost conversou com Malashanko sobre sua decisão de tornar-se virgem consagrada:

HuffPost: Como foi sua criação em termos religiosos?

Malashanko: Fui criada católica e quando era criança sempre rezava para todo mundo. Rezava até para os personagens de "Vila Sésamo". Comecei a ir à missa diariamente quando estava na faculdade. Muitas meninas como eu poderiam ter decidido tornar-se freiras. Eu estava aberta para ser freira ou para me casar, seguiria o caminho indicado por Deus.

Os caras com quem ficava pareciam intrusos, segurando vela.

Quando você se deu conta de que queria ser uma virgem consagrada?

Saí com caras durante a adolescência e na faculdade. Mas comecei a perceber que estava confusa e agitada. Os caras com quem ficava pareciam intrusos, segurando vela. Não sabia por que me sentia assim. Só sabia que não queria me aproximar muito deles. Tive essa sensação por mais ou menos um ano, e foi aí que descobri essa vocação. Pensei: "Ah, faz sentido".

Como você observou, outra mulher poderia ter optado por virar freira. Por que você decidiu consagrar-se como virgem?

Consagrar-se virgem significa viver plenamente no mundo, ou seja, sigo o Senhor aonde ele me levar. Para uma irmã, Ele a leva à estrutura e a comunidade. Há uma espécie de separação do mundo, porque ela vive numa comunidade. Os dias são protegidos e estruturados. Tem hora para rezar, para estudar. E as freiras também abrem mão de certas liberdades. Com minha vocação, tenho liberdade total. Desde que estruture meu tempo de forma que faça sentido, está be, para meu diretor espiritual. Essa flexibilidade é importante para mim.

Como foi a cerimônia?

Foi linda. Foi emocionante ver tanta gente presente e como tudo foi tão solene. Foi um dia muito feliz. Todas vestimos branco e recebemos três coisas do arcebispo: uma aliança de casamento, um véu e uma cópia da "Liturgia das Horas".

Olhando para o futuro, eu me via entrando nessa fase nova e incrível. Com exceção do meu funeral, esse é o maior evento da minha vida, meu casamento místico com Cristo.

Archdiocese of Detroit
Malashanko postrada durante sua consagração como virgem para toda a vida.

O que significa ser casada com Cristo?

Penso em Cristo como meu esposo, mas isso é linguagem teológica. Não diria que Cristo é meu marido. Isso é muito parecido com termos humanos. Quando faço minha declaração de imposto de renda ainda sou solteira. Não preparo jantar para Cristo. Mas, lembre-se, na Igreja Católica todos os padres são casados com a igreja. Em nossa teologia, esposo é um termo muito mais rico. Ser misticamente casado com Cristo é ser um sinal do mundo por vir, no qual todos estaremos unidos em Deus. Somos como ícones vivos.

Quais serão os desafios no seu caminho?

A única dúvida que tenho é pensar em quem vai cuidar de mim quando estiver velha. Sei que não terei filhos, então isso é algo que passa pela minha cabeça. Sempre fui muito maternal, desde muito pequena. Parte de mim sempre teve certeza de que teria filhos. Mas, quando me dei conta de que essa era minha vocação, sabia que poderia ter uma vida plena e feliz sem crianças.

Não acho que tenhamos de reprimir, invalidar ou rejeitar o sexual. Só temos de canálizá-lo para outras coisas.

Você se preocupa em conseguir manter a virgindade?

Quanto mais envelheço, mas a vida parece plena e ocupada. Então não me pego ansiando ou sentindo falta de um homem. Nem passa pela minha cabeça. Mas toda mulher que seja uma boa candidata terá pensado na possibilidade e já terá vivido muitos anos assim. Se você não puder ser feliz ou se achar que falta algo, [a vocação] não é para você. Tudo bem para uma mulher consagrada pensar às vezes: "Queria ter um marido de verdade". Mas ela pode trabalhar isso com seu diretor espiritual. É importante ser madura e realista. Não somos robôs. Não sou o tipo de pessoa que reprime as coisas. Não acho que tenhamos de reprimir, invalidar ou rejeitar o sexual. Só temos de canálizá-lo para outras coisas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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