ENTRETENIMENTO

Como a série 'Sob Pressão' vai retratar o caos do sistema público de saúde do Rio

Produção da TV Globo e Conspiração Filmes mostra rotina tumultuada de uma equipe de emergência de um hospital público.

11/07/2017 20:45 -03 | Atualizado 12/07/2017 14:35 -03

A TV Globo estreia na próxima terça-feira (25) sua nova minissérie, Sob Pressão.

Derivada do filme de mesmo nome dirigido por Andrucha Waddington, a produção é livremente inspirada no livro Sob Pressão – A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro, de Márcio Maranhão.

A trama acompanha o dia a dia caótico da equipe de emergência de um hospital publico do subúrbio do Rio de Janeiro. Ficção com pé na realidade, a série tem como protagonistas os médicos Evandro (Julio Andrade), o cirurgião-chefe da equipe, e Carolina (Marjorie Estiano), uma cirurgiã vascular.

Globo / Maurício Fidalgo

Quem assina o roteiro final é Jorge Furtado, um dos roteiristas mais respeitados da TV brasileira, cujo currículo reúne obras de sucesso como Agosto (1993), Memorial de Maria Moura (1994), Ó Paí, Ó (2008) e Mister Brau (2015) - sem contar os inúmeros projetos premiados no cinema.

Em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil, Furtado explica as facetas da dupla de protagonistas "muito diferentes, mas que se completam e apoiam". "Tanto o Evandro quanto a Carolina têm fantasmas do passado que assombram a vida deles. E lidam com esses fantasmas de maneiras distintas", conta.

Dr. Evandro perdeu a esposa na mesa de cirurgia que conduzia há um ano. Deprimido e viciado em remédios, ele não consegue superar o tragédia. Já a Dr. Carolina busca na fé o remédio para enfrentar o cotidiano e esquecer uma lembrança traumática da infância.

Nessa situação de caos particulares, os dois têm em comum o desejo de salvar vidas num ambiente de trabalho regido pela tensão, onde tudo falta.

Quem é fã de séries médicas made in USA, como House, ER, e Grey's Anatomy, "pode esperar o inesperado" da produção brasileira, garante Furtado.

"Para você ter uma ideia, um total de 180 personagens passam pela primeira temporada de Sob Pressão. Alguns são fixos, outros aparecem só um dia, outros voltam. Só esse volume de personagens já diferencia ela das séries que a gente costuma ver. São seis, sete histórias por episódio", diz.

Globo / Maurício Fidalgo
Lucas Paraizo, Jorge Furtado, Antonio Prata e Márcio Alemão, os responsáveis pelas histórias de 'Sob Pressão'

Com a ajuda de Lucas Paraizo, Antonio Prata e Márcio Alemão (além da consultoria médica de Márcio Maranhão), Furtado conta que abordará temas delicados e ainda cercados de desinformação como, por exemplo, a violência contra a mulher.

"Todos os dias, os hospitais públicos recebem 'mulheres que caíram da escada', que 'estavam limpando o armário e a gaveta caiu', que 'estavam limpando o lustre e caíram'. Enfim, histórias que encobrem uma realidade duríssima de violência contra a mulher no Brasil."

Ele explica que muitas vítimas têm medo de denunciar seus agressores por achar que não terão legitimidade. "Ou porque a denúncia não vai resolver o problema e elas vão ter que voltar para aquela convivência. E, de certa forma, a impunidade preserva a epidemia que é esse tipo de violência no Brasil", analisa.

Outro assunto cercado de tabus que Sob Pressão deve abordar é a doação de órgãos.

"Um hospital de traumas salva as vidas não apenas das pessoas que chegam ali, mas também administrando a doação de órgãos, que vai salvar vidas de outros que estão longe. Esse é um tema importante de se abordar. O Brasil perde todo ano muitos fígados, rins e órgãos que poderiam ser usados em transplantes e não são por inúmeros problemas."

Globo / Maurício Fidalgo

Segundo o roteirista, a questão do abuso infantil talvez seja o tema mais delicado e menos abordado na ficção brasileira que a série deve explorar.

"É importante falar disso porque a quantidade de casos é assustadora. E as pessoas têm muita vergonha desse assunto. As meninas e meninos abusados muitas vezes acham que aquilo só acontece com eles, que eles são casos excepcionais e, por isso, talvez tenham culpa na sua condição. É importante mostrar que a ocorrência desse tipo de violência é grande. E, na maioria dos casos, é praticada por pessoas da própria família."

Gravada na área desativada de um hospital em funcionamento no Rio de Janeiro, Sob Pressão promete mostrar um retrato dramático da saúde pública carioca, uma realidade também vista em cidades periféricas de todo o País.

"O Brasil vive um momento de crise econômica e política, talvez a pior face dessa crise esteja na saúde. Porque é ali que tudo estoura", reflete.

Questionado se, nesse contexto, a série se propõe alguma cobrança de ações das autoridades, Furtado explica:

"Acredito que a exposição já é um ato político. Mostrar um problema é um ato político. Isso não é pouco. O papel da ficção não é, de forma proselitista ou demagógica, falar sobre os problemas, as fazer com que a gente vivencie através de personagens esses problemas. Não questão de fazer uma denúncia, mas de mostrar uma realidade através da ficção."

Sobre o retorno a uma obra dramática depois de escrever roteiros de grandes produções de comédia, incluindo, o roteirista revela:

"Voltar a um grande drama foi um desafio. Voltei a escrever histórias que nem sempre acabam bem."

Veja algumas cenas de Sob Pressão: