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 Por que tantos jornalistas estão desaparecendo e morrendo no México

7 jornalistas já foram assassinados no México este ano.

09/07/2017 12:25 -03 | Atualizado 09/07/2017 12:25 -03
No ranking de Liberdade de Imprensa no Mundo, o México está em 147º lugar dos 180 países que integram a lista, devido "à corrupção onipresente que promove a impunidade".

Os restos mortais carbonizados do corpo de Salvador Adame foram encontrados pelas autoridades mexicanas esta semana, mais de um mês depois de um grupo de homens armados ter sequestrado o veterano repórter de TV no Estado de Michoacán, onde a criminalidade corre solta.

Na metade do ano, a morte de Adame eleva para sete o número de profissionais de mídia assassinados em 2017 no México, hoje um dos países mais perigosos do mundo para jornalistas. Esta cifra macabra inclui pelo menos quatro jornalistas mortos em retaliação direta por seu trabalho, segundo o Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ).

Um colega de Adame, que como diretor do canal local 6TV cobria o noticiário e a política local, disse ao CPJ que ele criticava frequentemente as autoridades municipais. Seu assassinato engrossa uma tendência crescente de ameaças e violência contra profissionais da imprensa no México, país dilacerado pelo tráfico de drogas.

Silenciando jornalistas

Alguns meses antes, Miroslava Breach Velducea, que era repórter policial do jornal nacional "La Jornada", foi abatida em frente à sua casa, no Estado de Chihuahua, no norte do país. Um pistoleiro desconhecido lhe deu oito tiros diante de um de seus filhos.

Em seu obituário, o "La Jornada" escreveu que a morte de Breach Velducea "em um ato calculado de violência extrema feriu gravemente o melhor jornalismo de Chihuahua, trazendo à tona o fracasso do Estado que há anos sangra com a impunidade de líderes corruptos e criminosos. Não é a morte de mais uma jornalista – é a morte de nossa sociedade, que pouco a pouco se habitua a ver seus melhores membros abatidos, silenciados de todas as maneiras possíveis."

O assassino teria deixado um bilhete no local do assassinato de Breach Velducea dizendo "por ser dedo-duro".

Dados da CPJ revelam que a maioria dos jornalistas assassinados no México nas últimas décadas cobria o noticiário policial e a corrupção. Eles teriam sido mortos como retaliação, por bandidos que buscam silenciar seus críticos.

E, de muitas maneiras, os assassinos estão conseguindo silenciá-los

"O medo e a autocensura entre jornalistas são enormes", disse ao HuffPost Emmanuel Colombié, diretor para a América Latina da organização Repórteres Sem Fronteiras. Alguns jornalistas abandonaram o país e outros deixaram de trabalhar com jornalismo em função das ameaças e da violência contra profissionais da imprensa mexicana, ele disse.

Por exemplo, disse Colombié, "sobraram muito poucos jornalistas" no Estado de Tamaulipas, que faz fronteira com os Estados Unidos. "Qualquer notícia publicada tem que ser baseada em declarações oficiais e press releases do governo."

Em seu índice anual de Liberdade de Imprensa no Mundo, a Repórteres Sem Fronteiras situa o México em 147º lugar dos 180 países que integram a lista, devido "à corrupção onipresente que promove a impunidade".

Corrupção e impunidade

De acordo com o CPJ, os sequestros e assassinatos de jornalistas no México muitas vezes não são punidos, devido ao ciclo muito forte de corrupção e impunidade.

"A impunidade endêmica permite que quadrilhas criminosas, autoridades corruptas e cartéis silenciem seus críticos", explicou a organização em relatório especial de maio.

A corrupção em altos escalões e o crime organizado, que abrange a violência intensa dos cartéis, caracterizam há anos a guerra às drogas que é travada no país. Mas essas questões, embora estejam presentes em toda parte e mereçam ser noticiadas, se tornaram especialmente perigosas para serem tema de reportagens.

"Os cartéis exercem influência direta sobre as instituições políticas locais em certos Estados mexicanos", explicou Colombié. "Podem dar ordens diretas às autoridades locais. Os governadores de alguns Estados usam seus contatos com organizações locais para punir jornalistas que investiguem qualquer tema que possa ter impacto negativo sobre eles. É uma situação muito complexa."

Segundo relatório de 2017 da ONG International Crisis Group, os governadores estaduais estão entre as autoridades públicas mexicanas que têm fama mais negativa. Desde 2010 pelo menos 11 governadores foram investigados por corrupção, incluindo fraude, lavagem de dinheiro, nepotismo e vínculos com cartéis do narcotráfico.

"É evidente que, se os responsáveis por esses crimes contra jornalistas não forem detidos e levados à justiça, essa situação só vai se perpetuar", disse Colombié. "Se não combatermos a impunidade, não resolveremos o problema. Mas falta vontade política nesse sentido no nível mais alto."

A jornalista mexicana Adela Navarro Bello resumiu a situação torturante vivida por seus colegas em um artigo angustiante publicado pelo CPJ.

"Ser jornalista no México significa aprender a viver à sombra da impunidade: a impunidade que você investiga e leva a público e a impunidade sofrida em primeira mão", ela escreveu. "Quem investiga a corrupção e a impunidade corre o risco de perder a paz de espírito, ou, pior ainda, a vida. E, depois do assassinato, uma ficha incompleta será o fim mais provável do inquérito sobre sua morte."

Reação insuficiente do governo mexicano

Em maio, depois da indignação internacional provocada pelo assassinato público e sangrento do premiado repórter Javier Valdés, que escrevera sobre os cartéis do tráfico, o presidente Enrique Peña Nieto prometeu pela primeira vez dedicar "os recursos necessários para proteger jornalistas e defensores dos direitos humanos".

"A violência contra jornalistas e defensores dos direitos humanos abriu uma ferida profunda em nossa sociedade", ele disse. "O que o povo espera é ver resultados, uma luta contra a impunidade."

Organizações de defesa da liberdade de imprensa saudaram as declarações, mas fazem a ressalva de que pouca coisa mudou desde então e temem que as declarações possam não passar de frases de efeito, de olho na eleição presidencial mexicana de 2018.

"Saudamos a declaração do presidente, mas o importante agora é ver medidas concretas", disse Colombié. "Precisamos ver ações e reformas concretas para proteger jornalistas."

Mais de dez anos atrás o México criou uma promotoria especial para investigar crimes contra a liberdade de expressão. Mas a instituição vem sendo em grande medida ineficaz em combater a crise.

Entre fevereiro de 2016 e fevereiro de 2017 ela abriu 123 investigações, incluindo dez homicídios, mas só conseguiu três condenações até agora.

Segundo o CPJ, a capacidade do órgão de conduzir investigações independentes da influência das autoridades estaduais funciona mais no papel que na prática, e muitos jornalistas têm medo e hesitam em denunciar os crimes dos quais são alvos.

"É uma realidade trágica", disse Colombié. "Os jornalistas têm medo e não confiam na proteção das autoridades, então param de trabalhar como jornalistas e se calam."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e foi traduzido do inglês.

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