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Os cílios desta mulher quase a cegaram

Ela pagava a vizinhos para arrancá-los, mas eles sempre voltavam a crescer – para dentro de seus olhos.

09/07/2017 17:31 -03 | Atualizado 09/07/2017 17:31 -03

Este artigo faz parte da campanha Project Zero do HuffPost, uma série de um ano de duração sobre doenças tropicais que recebem pouca atenção e os esforços para combatê-las.

ASILONG, Quênia ― Até começar a ter problemas com os olhos, Selina Chepserum era hábil na colheita de cupins. Nos poucos dias seguintes às chuvas sazonais ela se posicionava ao lado de cupinzeiros enormes, capturando os insetos quando eles desciam dos montes alaranjados, atravessavam uma armadilha de gravetos entrelaçados e caíam em sua caneca.

Selina carregava 50 quilos de cupins fechados em sacos que se mexiam constantemente. Ela vendia a maior parte, para aumentar um pouco a renda que sua família consegue com sua pequena produção agrícola, e usava o restante para preparar pratos ricos em proteínas que alimentavam a família nos meses de seca nesta parte remota e árida do noroeste do Quênia.

Hannah McNeish
Alguns anos atrás, Selina Chepserum quase ficou cega devido ao tracoma. Agora ela se prepara para colher cupins, que vão enriquecer o cardápio de sua família.

Ela preparava cupins com açúcar, com mel e uma espécie de molho pesto salgado de cupins para acompanhar o ugali, um mingau de farinha de milho que está à base da alimentação queniana. Selina vendia canecas de cupins crus por 20 xelins quenianos (cerca de US$0,20) a pessoas da região de seu vilarejo de Asilong, no condado de West Pokot.

Mas tudo isso parou dez anos atrás, quando seus cílios começaram a crescer voltados para dentro de seus olhos, provocando dor lancinante e destruindo sua visão, já que arranhavam sua córnea.

"Eu sentia alguma coisa raspando meu olho. Quando tentava tirar, não conseguia", disse Selina, que estima sua idade em cerca de 55 anos.

Seus olhos lacrimejavam, inchavam e ficaram cheios de cicatrizes. Sua condição se agravou tanto que Selina não conseguia mais distinguir o rosto de quem estivesse a seu lado, muito menos colher cupins dos cupinzeiros altos que se espalhavam por sua roça. Ela não conseguia acender uma fogueira nem cuidar da horta, das galinhas ou das cabras.

"Eu me sentia tão mal que achava que nem precisava mais viver, já que não conseguia fazer nada sozinha", ela comentou.

Ela tinha contraído um tracoma, uma infecção ocular bacteriana que cega uma pessoa a cada 15 minutos. Maior causa infecciosa de cegueira no mundo, o tracoma afeta mais de 100 milhões de pessoas em 57 países. A doença é comum em regiões quentes e poeirentas, onde a água limpa é escassa. Ela é transmitida pelo contato humano ou por moscas que entram em contato com o fluido secretado pelos olhos dos doentes. As mulheres, que tendem a cuidar de outras pessoas e por essa razão correm risco maior de ter contato com o tracoma, têm chance duas vezes maior de ficar cegas devido à doença.

O tracoma é um problema especial na África. No Quênia, a doença seria a segunda maior causa de cegueira, depois da catarata. Mas, enquanto a catarata afeta principalmente pessoas mais velhas, pessoas relativamente jovens também podem contrair o tracoma.

Embora a doença cause perda irreversível da visão, ela é totalmente prevenível e tratável com antibióticos, ou, nos casos mais graves, por uma cirurgia realizada com anestesia local. Mas em áreas como aquela em que Selina Chepserum vive, nem sempre é possível fazer a cirurgia. A conscientização sobre a doença vem crescendo, mas às vezes não há médicos suficientes nas vilas isoladas do interior que possam orientar os doentes sobre como tratar o tracoma.

Zoe Flood
Selina Chepserum vive da agricultura de subsistência em uma região árida do Quência ocidental. Quando começou a perder a visão, ela não conseguia mais alimentar a si mesma e à sua família.

Selina sofreu anos com o tracoma antes de encontrar o tratamento correto. Ela passava seus dias esperando seus filhos voltarem para casa para ajudá-lo ou implorando a alguém para arrancar seus cílios, para lhe propiciar algum alívio da dor. Na ausência de atendimento médico, ela se voltou a uma solução popular controversa pela qual outra pessoa arranca os cílios indesejados.

Quando não havia familiares ou amigos por perto, Selina pagava 100 xelins (cerca de US$1) ou alguns quilos de milho a qualquer pessoa para arrancar seus cílios, usando seus dedos e um prego coberto de cinzas.

"É um processo doloroso", ela comentou. "A pessoa precisava cuidar para arrancar todos os cílios crescendo dentro de meus olhos. Mas em pouco tempo, entre três dias e uma semana, eu percebia que estavam nascendo de novo."

Depois de ter seus cílios arrancados, os olhos de Selina ficavam cheios de secreção e tão sensíveis que ela tinha que cobrir o rosto com um lenço. Mas pelo menos ela ficava por um tempinho sem as punhaladas de dor, que sabia que voltariam em alguns dias.

Em 2014, finalmente, ela foi atendida pelo médico Michael Makari, de um hospital situado a uma hora de distância pela estrada de terra. Makari percorre a zona rural tratando pessoas com tracoma. A entidade beneficente australiana Fred Hollows Foundation financia seu trabalho, permitindo que ele localize pacientes como Selina.

"Primeiro é a bactéria que provoca a inflamação. Depois disso a pálpebra fica marcada por cicatrizes e se vira para dentro, de modo que os cílios arranham a córnea", explicou o médico.

Ele aconselhou Selina a manter o rosto limpo e recomendou cirurgia para sustar as lesões às suas córneas.

Makari contou que, para consertar os cílios, o cirurgião vira a pálpebra afetada de dentro para fora e a costura na posição correta, para que os cílios apontem na direção certa.

A Fundação Fred Hollows paga aos médicos cerca de US$30 por dia para operar pacientes. A outra solução, disse Makari, é os pacientes desembolsarem US$90 para cobrir o custo do material cirúrgico e uma semana de internação hospitalar. Esse custo estaria totalmente fora do alcance de Selina.

Em uma consulta recente de retorno, o médico examinou os olhos de Selina, sentada diante de sua choupana cônica na sombra de uma árvore. Ele aplicou algumas gotas de colírio, declarando-se satisfeito com a recuperação da paciente e aliviado porque ela não precisa mais pedir que arranquem seus cílios.

Zoe Flood
O Dr. Michael Makari aplica colírio nos olhos de Selina Chepserum em consulta de retorno. Makari realiza cirurgias básicas em pessoas com tracoma nesta região remota do Quênia, ajudando pessoas como Selina a voltar a enxergar.

"Às vezes, andando por aí, vejo pendurada em algum lugar a pinça que é usada para arrancar os cílios", contou o médico.

Ele explicou que a retirada dos cílios pode agravar a condição, levando os cílios a crescer ainda mais para dentro.

Hoje são principalmente as pessoas mais velhas que recorrem a arrancar os cílios. As informações sobre o tratamento do tracoma estão sendo mais e mais difundidas no Quênia.

Em toda a África, grandes avanços estão sendo conquistados no combate ao tracoma, fato notável quando se sabe que a Organização Mundial de Saúde considera que há poucas informações sobre a doença e poucos recursos para combatê-la.

Cerca de 200 mil pessoas em 27 países africanos fizeram cirurgias no ano passado para reparar o problema dos cílios que crescem para dentro. São 95% das cirurgias desse tipo realizadas em todo o mundo. Além disso, mais de 83 milhões de pacientes africanos com tracoma foram tratados com antibióticos – ou seja, 97% do número mundial de tratamentos com antibióticos contra o tracoma, segundo a OMS.

No caso de Selina Chepserum, a cirurgia salvou um de seus olhos, permitindo que ela voltasse à sua rotina anterior. O tempo em que ela tinha vontade de morrer ficou para trás.

"Hoje o que mais me alegra é poder enxergar meus filhos e netos e ver como está indo minha horta", ela disse.

Ela fica contente por poder procurar alimento para a família novamente, ela contou, indo buscar uma caneca e arrumando gravetos ao pé de um cupinzeiro para mostrar como vai voltar a colocar proteínas na mesa de sua família.

Hannah McNeish
Selina Chepserum se prepara para colher cupins de uma colônia grande perto de sua casa.

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