MULHERES

Obcecada por ‘GLOW’, da Netflix? Conheça as lutadoras da vida real que inspiraram a série

A série da Netflix se baseia num hit dos anos 1980 que quebrou padrões.

07/07/2017 16:26 -03 | Atualizado 07/07/2017 16:32 -03
Some of the original Gorgeous Ladies of Wrestling
Parte do elenco original das Gorgeous Ladies of Wrestling.

Antes de virar uma série comentada da Netflix, estrelada por Alison Brie, "GLOW", sigla em inglês para Gorgeous Ladies of Wrestling (Lindas Senhoras da Luta Livre), foi um fenômeno dos anos 1980 – uma série de sucesso que misturava atleticismo, música, humor e fantasias exageradas no mundo da luta livre. Personagens extravagantes como Big Bad Mama, Matilda a Huna e Montanha Fiji se provocavam, se estapeavam e de vez em quando até cantavam rap. O programa foi um sucesso enorme de audiência e, mais de 30 anos depois, a irmandade segue forte.

Conversamos com seis das integrantes do elenco original de "GLOW" para descobrir o que era fazer parte do primeiro programa de luta livre só de mulheres e o que elas acham da série que inspiraram.

"Melody Trouble Vixen MTV", Eileen O'Hara, 55

Eileen era atriz em início de carreira e estava fazendo testes para um comercial de restaurante quando deu de cara com testes abertos para "GLOW". O diretor, Matt Climber, disse que ela seria bem-vinda nos treinamentos, mas achava que ela "apanharia pra valer". No fim das contas, ela acabou se tornando a personagem Melody Trouble Vixen MTV, a roqueira que usava sua guitarra (chamada Elvis) para atacar as adversárias. Hoje em dia, ela é roteirista, produtora, atriz e autora de livros de ficção científica e fantasia na cidade de Tarzana, na Califórnia.

Eileen O'Hara, na época e hoje:

Getty Images/Eileen O'Hara
Eileen O'Hara, then and now.

Como você entrou no elenco de "GLOW"?

Eu era bem magra. Tinha 1,57 metro de altura e pesava uns 45 quilos, mas sou invocada. Cresci num rancho, cuidava de cavalos, essas coisas. Sabia me garantir. Mas passei por todo o treinamento. O primeiro corte aconteceu com duas semanas, o segundo, com quatro, o terceiro, com seis semanas e, depois de oito semanas, as meninas que eles achavam que renderiam boas personagens assinaram contratos.

Amei assim que pisei no ringue. Cinco minutos lá dentro são suficientes para saber se aquilo é para você.

O que você acha da série da Netflix?

Jenji Kohan e a equipe têm um estilo bem provocador, bem gráfico, bem direto. Minha reação foi bastante adversa. Fiquei chocada, porque vivi "GLOW". Tenho muito orgulho do que conquistamos. Não somos só as Lindas Senhoras da Luta Livre, somos as premiadas Lindas Senhoras da Luta Livre. Fomos honradas no Cauliflower Alley Club, este ano. Ganhamos os CAC 2017 Women's Wrestling Awards, e foi importante, porque na época não nos reconheciam como lutadoras. Não nos reconheciam pelo que fazíamos. Nos premiaram por romper o teto de vidro e por sermos a primeira liga de luta livre só de mulheres. Abrimos o caminho para as mulheres nesse esporte. E a série não é sobre isso.

Como era sua relação com as outras meninas?

Algumas viraram amigas para sempre, outras, não, mas sempre que estamos juntas temos essa conexão. Porque é quase como ir para uma batalha juntas. Cuidamos umas das outras, passamos por todo o treinamento físico. É duríssimo; pesado fisicamente. E, quando você está no ringue, apesar de estar lutando e dominando a outra, não quer sobrepujá-la. Temos de cuidar uma da outra. É uma ligação muito forte.

Matilda a Huna, Deanna Booher, 68

Deanna Booher já tinha 34 anos quando entrou para o elenco de "GLOW" e tinha experiência em luta greco-romana, esporte que praticou na universidade. Sob o nome de Queen Kong, Deanna uma vez lutou com um urso quando não conseguiu encontrar uma adversária. Além de luta livre e roller derby, Deanna trabalhava como atriz e dominatrix quando entrou para o programa. Como Matilda a Huna, ela se deliciava em assustar as crianças do público comendo carne crua no ringue.

Deanna escreveu um livro de memórias intitulado "Glamazon Queen Kong: My Life of Glitter, Guts and Glory" (Amazona glamurosa Queen Kong: minha vida de glitter, coragem e glória, em tradução livre).

Courtesy Deanna Booher
Deanna Booher, then and now 

O que te atraía na luta livre?

Não tinha ideia que queria ser lutadora profissional. Só gostava de dar porrada nos homens. Sou uma mulher grande. E Gloria Steinem dizia: "Não ature nada dos homens", e pensei: "OK". Fiz aulas de defesa pessoal e me dei tão bem que a próxima aula que fiz foi de luta livre.

Estava lutando profissionalmente e enchendo homens de porrada, então achei que era muito durona. Era muito divertido.

Que tal fazer o papel de vilã?

Eu era a lutadora que todo mundo amava odiar. E eu adorava ser odiada, desde que fosse com amor. Fazia tudo dando uma piscadela. Amava quando as crianças ficavam com medo e começavam a chorar. E, quando eu aparecia para dar autógrafos, elas me perguntavam: "Matilda, você está bem agora?" As crianças eram a melhor parte. E as mulheres. Fiquei surpresa por termos fãs mulheres, porque achava o programa pesado. Achava as fantasias muito indecentes.

Qual foi o impacto de "GLOW"?

Nem sei te dizer quantas vezes me disseram: "Seu programa mudou minha vida". Dizem isso para todas nós, porque éramos um fenômeno. Foi a primeira vez que muitos viram mulheres poderosas, de todas as formas e tamanhos e raças, e as viram lindas, femininas, fortes, inteligentes e engraçadas. Não tinham visto nada disso antes.

As mulheres não eram consideradas heroínas do esporte naquela época. Não havia o reconhecimento de hoje em dia. Abrimos uma porta.

"Sunny The California Girl", Patricia Summerland, 52

Com 1,80 metro, Patricia Summerland era alvo de piadas por causa da sua altura quando competia com meninos em provas de atletismo. Quando fez o teste para integrar o elenco de "GLOW", em 1987, Summerland tinha 20 anos e era uma autointitulada "menina de praia", atriz e modelo de biquínis. Seu pai, amante do esporte, a convenceu a mandar uma foto de rosto para os produtores.

Sua personagem, Sunny, era uma "menina alegre e ensolarada de Newport Beach", na Califórnia". O perfil se inspirou em seus cabelos loiros e seu bronzeado – Summerland lembrava o diretor de sua ex-mulher, Jayne Mansfield. Ela ainda mora na Califórnia e trabalha no mercado imobiliário.

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Courtesy Patricia Summerland
Patricia Summerland, then and now 

Quais são os erros e acertos da nova série?

A maneira como retratam o personagem Marc Maron, que deve ser nosso diretor Matt Climber, definitivamente não tem nada a ver com ele. Ele era um direto incrível. Misturaram algumas personagens. Pegaram várias personagens e transformaram em uma só. Eu tinha uma filha de 4 anos, ela ia assistir as lutas. Na verdade ela amava mais a Ninotchka que a mim.

Você fez amizades com as outras mulheres?

As vilãs não podiam ficar com as mocinhas, nem mesmo na vida real. Matt queria que mantivéssemos nossas personas assim, porque se algum fã nos visse sendo amigas poderia estragar a caracterização do programa. Então a gente tinha de estar sempre separadas, do contrário tomávamos multas. Então as mocinhas ficaram amigas das mocinhas, e as vilãs, das vilãs. Mas é claro que, nos bastidores, todas eram amigas.

Qual era sua parte favorita de ser uma das "GLOW"?

Ver as crianças no público. Minha alegria era ver aquelas menininhas lindas dizendo: "Sunny, a gente te ama!" E mostrar para as mulheres que elas podem ser o que quiserem e fazer o que quiserem. Elas conseguem lutar como os homens. Elas podem ser duronas, mas não ser más ou bullies.

"Ahsley Cartier", Nadine Kamiri, 54

Nadine era cheerleader de um time de futebol americano e conseguiu fazer o teste graças a seu agente. Apesar de às vezes ser chamada de "Mabel", a "personagem de capuz de origem desconhecida", sua principal personagem era Ashley Cartier, uma mulher à Marilyn Monroe conhecida por lixar as unhas no ringue. Os produtores chegaram a proibi-la de ir à academia para que ela não perdesse as curvas.

Hoje, Nadine é cosmetóloga em Libertyville, Illinois.

Courtesy Nadine Kadmiri
Nadine Kadmiri, then and now 

Como era a experiência de ser mulher em uma atividade dominada pelos homens?

Me disseram que era um programa para crianças e, depois que gravamos, havia muitas tomadas mostrando nossas virilhas e coisas do tipo. Não fiquei muito feliz. Também queriam que eu estufasse o peito, e meu uniforme era tipo um maiô que ficava entrando no meu traseiro.

Um produtor era meio chauvinista. Lembro de estar machucada – tive um estiramento muscular na perna. Não quero ser vulgar, mas ele disse: "Ashley, você é só uma buceta. Volte pro ringue". Lidávamos com esse tipo de coisa.

Passamos por muitas merdas assim. Aí consegui um emprego de comissária de bordo. Como não sabia que futuro teria o programa, pensei: "Essa não é minha vida. Não sou lutadora". Então decidi ser comissária de bordo.

E fisicamente, como eram as coisas?

Sabe o ringue? Ele normalmente é maleável, cede ao seu peso. Mas nosso orçamento era tão pequeno que usávamos só madeira coberta de lona. Imagine as lesões que poderiam acontecer. Tive um estiramento de um músculo das costas e uma torção séria no tornozelo. Mas eu queria fazer parte de um programa que fosse um hit, então meio que superei meu medo.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost Photos: Getty/Handout
Pictures of the "GLOW" girls during their wrestling days.

"Roxy Astor", Tracee Meltzer, 54

Tracee Meltzer era cabeleireira e não tinha experiência em TV quando viu o chamado para testes. Ela mandou uma foto e foi chamada na semana seguinte. Meltzer virou Roxy Astor, uma das meninas da Park Avenue, apesar de nunca ter ido para Nova York. Agora, ela é uma das líderes da Afterglow Fan Party, um show que será apresentado num navio de cruzeiro com presença das integrantes originais de "GLOW".

Courtesy Tracee Meltzer
Tracee Meltzer, then and now 

O que você acha da série?

É um pouco próxima demais para mim, pois eu vivia esse mundo.

A série não é exatamente um programa de luta livre. Não mostra muita luta, é mais sobre as personagens. Em "GLOW", nós lutávamos. Por que chamar a série Lindas Senhoras da Luta Livre? Deveriam ter chamado de "Anos 1980, Luta Livre, Sexo e Cocaína". Aí você chamou minha atenção!

Agora os fãs perguntam: "Quem perdeu o bebê? Quem fez aborto? Vocês usavam drogas na época?" Talvez, mas não com um robô.

Como era o programa fisicamente?

Meu Deus do céu, era horrível. Imagine: era cabeleireira. Não deu muito certo. Saía para dançar até as 6h, mas não treinava. Muitas das meninas estavam fora de forma e fumavam.

Treinar era difícil, sair da cama às 7h era difícil. Para algumas delas, pedir para acordar às 7h era como pedir que elas te entregassem seu primeiro filho. Treinávamos um pouco e íamos direto para o ringue. Sem as fantasias, só de moletom, para praticar os encontrões e os golpes. Lembro que, no terceiro dia, a gente mal conseguia se mexer.

"Hollywood", Jeanne Basone, 54

Nascida e criada na Califórnia, Jeanne abandonou o emprego numa clínica e mudou-se para Las Vegas depois de passar no teste para fazer parte de "GLOW", em 1986. Ela fazia o papel de "Hollywood", uma comparsa da vilã "Vine".

Hoje em dia, Jeanne mora parte do tempo em Nashville, onde tem uma produtora de lutas chamada Hollywouldproductions.com.

Courtesy Jeanne Basone/Hollywood Prods
Jeanne Basone, then and now 

Como você entrou para o programa?

Fiz um teste em 1985. Eles nos disseram que seria um programa de luta livre só de mulheres, filmado em Las Vegas. Superei centenas de concorrentes e fui escolhida como uma das 12 meninas que filmariam o piloto, em dezembro. Sou a única que participou do piloto e de todas as quatro temporadas.

Quais são os acertos da série da Netflix?

A série toma muitas liberdades. As roupas, o treinamento e a academia estão certos. A produção era muito rígida. Se nos pegassem bebendo ou usando drogas, você era demitida! Fim de papo.

Como era sua relação com as outras meninas?

Fiquei amiga de todas elas, mas andava mais com as outras "comparsas". Durante uma época, fui muito próxima de "Babe The Farmer's Daughter". Certa vez, ela estava trabalhando de babá em uma casa em Hollywood. Fui com ela e decidimos tomar uma garrafa de vinho que achamos na geladeira. Nem sequer gostamos, mas depois descobrimos que era um vinho caríssimo. "MTV", "Lightning", "Godiva" e eu íamos muito a shows de rock. Sempre estávamos arrumando confusão!

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    As lutadoras de GLOW num ringue em Los Angeles, em 4 de maio de 1988. Jacqueline Stallone é a técnica da equipe GLOW (Gorgeous Ladies Of Wrestling), que ficou famosa usando fantasias coloridas e fazendo acrobacias elegantes.
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    As integrantes do elenco de GLOW posam no ringue.
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    As integrantes do elenco de GLOW durante uma luta.
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    A lutadora Miss MTV posa para foto.
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    Ross Shaffer, apresentador do 'Late Show' conversa com as lutadoras.
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    Jacqueline Stallone posa para foto com a escritora Sydney Biddle Barrows.s.
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    As lutadoras do elenco de GLOW no ringue.
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    As integrantes do elenco de GLOW durante uma luta.
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    Shaffer conversa com Stallone no ringue.
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    As lutadoras de GLOW.
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    As meninas de GLOW se preparam para uma luta.

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