ENTRETENIMENTO

Um inventário da obra de Sofia Coppola para eternos admiradores

Uma das mais notáveis cineastas de Hollywood.

07/07/2017 18:10 -03 | Atualizado 07/07/2017 18:13 -03
Gabriela Landazuri / HuffPost; Photos: Alamy, Getty

O AR QUE RESPIRO

"Não sabia o que iria querer fazer depois, mas sabia que queria fazer algo que fosse realmente belo."

Os filmes de Sofia Coppola revelam suas contradições. É uma diretora cuja estreia em Hollywood foi um direito nato, graças a uma ilustre árvore genealógica e um estágio azarado como atriz, que ela nunca quis. A juventude fugaz repousa no centro de suas histórias: os adolescentes problemáticos em As Virgens Suicidas e Bling Ring: a Gangue de Hollywood; os atores envelhecendo à deriva em Encontros e Desencontros e Um Lugar Qualquer; a duquesa imatura empurrada para a notoriedade em "Maria Antonieta"; e agora as moradoras do internato repressor em O Estranho que Nós Amamos. Seus personagens buscam horizontes melhores, mas Coppola é, acima de tudo, resoluta, sofisticada, singular.

Nas palavras de Israel Broussard, astro de "Bling Ring: a Gangue de Hollywood", Coppola tem "graciosidade e uma essência maternal". De acordo com a matriarca de As Virgens Suicidas, Kathleen Turner, que também atuou com Coppola na comédia Peggy Sue – Seu Passado a Espera, de 1986, "ela dá a você muita liberdade, mas você sente que ela sabe o que quer". Stephen Dorff, o principal astro de Um Lugar Qualquer, em quem Coppola detectou uma vulnerabilidade que nenhum outro diretor tinha visto, enfatiza seu caráter observador e "confiante". Bill Murray, que colheu sua única indicação a um Oscar até hoje por Encontros e Desencontros é conhecido por chamá-la de Velvet Hammer (literalmente, martelo de veludo, expressão que significa mulher firme e graciosa).

Não muitos cineastas podem exibir uma gama de qualidades ― ou personas ―tão idiossincrática como as de Coppola. Ela é conhecida por conseguir o desempenho que deseja de seus atores e a estética salpicada de sol que deseja de seus diretores de fotografia. Ela pode se apropriar da gravidade da Revolução Francesa ou da Guerra Civil Americana, imbuindo-a de uma atmosfera contemporânea que pode fazer alguém se esquecer de que está assistindo a um filme de época. Coppola tem abordado o provincianismo do subúrbio e a falta de conexão de uma metrópole, certificando-se de que o espectador estabeleça uma relação com ambos. Toda vez que pensamos que conhecemos Sofia Coppola, ela desafia as suas suposições ao mesmo tempo em que ainda mantém uma fixação no efêmero da adolescência e nas inibições que acompanham a maturidade.

O Estranho que Nós Amamos é mais contido do que suas produções anteriores e se passa inteiramente no Internato Miss Martha Farnsworth para Jovens Senhoras. Os recursos da instituição se tornaram escassos com o avanço da Guerra Civil Americana, invocando um mal-estar que define o catálogo de Coppola.

"Um Lugar Qualquer era um exercício sobre quão minimalista poderíamos fazer aquele filme e ainda assim ser um filme", disse Coppola durante uma recente entrevista em Nova York. "O roteiro não era sequer um roteiro – era algo como 30 páginas e simplesmente muito, muito simples. Depois de Maria Antonieta, tão rebuscado e com tantas pessoas, eu queria somente chegar ao modo mais simples de fazer um filme. Essa era a ideia. E então, depois do mundo tão horrível de Bling Ring: a Gangue de Hollywood, quis fazer algo bonito. Esse era o ponto de partida para O Estranho que Nós Amamos."

Focus Features

IDADE DE CONSENTIMENTO

"Às vezes, não posso tão somente relaxar e desfrutar um livro sem olhar para ele como alguma coisa a adaptar, o que é irritante, porque gosto simplesmente de ler livros."

Ao longo de seus seis filmes ― sete se a contagem incluir o especial de Natal da Netflix A Very Murray Christmas, de uma hora de duração―, Coppola adaptou romances focados em mulheres jovens, contou comoventes originais histórias de autorruminação e retratou episódios da história, maiores que a vida.

Coppola, de 46 anos, nunca quis fazer um remake, mas gravitou na direção de O Estranho Que Nós Amamos depois que sua diretora de arte recomendou o sedutor original de 1971, dirigido por Don Siegel e estrelado por Clint Eastwood como um soldado da União, ferido e sendo cuidado em um internato da Virgínia. As poucas mulheres e meninas que permanecem no internato ficam fascinadas pela presença daquele homem desconcertante.

A versão de Siegel, adaptada de um romance de Thomas P. Cullinan, que Coppola não leva a sério, qualificando-o como de "mau gosto", retrata a diretora Miss Martha (interpretada por Geraldine Page) e suas alunas como instáveis e selvagens –"loucas", como Coppola define. Enquanto as observava plantando sementes de flerte e sedução, Coppola refletiu sobre como seria uma perspectiva menos masculina, apesar de jurar que não é do tipo que fica pensando em como seria o filme que está vendo se fosse ela quem o tivesse dirigido.

"Só queria me conectar com cada personagem em um nível humano, por isso tentei pensar em como era para ela", disse Coppola, referindo-se a Miss Martha, a quem uma Nicole Kidman sutilmente dominadora dá vida nesta versão. "Eu queria que ela tivesse dignidade e fosse atraente. Só por ela ser mais velha, isso não significa que tenha de ser louca. E também só porque elas têm desejo, isso não deveria tampouco ser algo louco – deveria ser algo humano e natural. No outro, elas tinham de se tornar pervertidas. Tinha uma história de incesto, e há uma montagem de um sonho lésbico. Talvez seja apenas o estilo daquela época e aquele ponto de vista, mas eu queria torná-la mais humana e compreensível."

Elas são, afinal, mulheres que foram submetidas a uma espécie de academia de etiqueta. Leram manuais sobre como se comportar como uma dama respeitável, o que os homens esperavam delas, qual era o lugar delas na sociedade.

Interpretadas por Kirsten Dunst e Elle Fanning, veteranas nos filmes de Coppola, além de um punhado de jovens atrizes menos conhecidas, as personagens se envolvem em uma batalha real, cada qual ansiando pelo afeto do soldado intruso (Colin Farrell, mais vigoroso do que nunca).

O Estranho Que Nós Amamos remete à estreia de Coppola, em 1999, As Virgens Suicidas, em que cinco irmãs adolescentes dos anos 1970 guardam sua sexualidade em uma casa suburbana de Michigan comandada por pais que implementam confinamentos semelhantes aos da era vitoriana.

Os vestidos brancos de babados de O Estranho Que Nós Amamos lembram os vestidos florais pálidos que as irmãs Lisbon ostentam no baile de formatura, não muito antes de coletivamente porem fim às suas vidas. O frio Trip Fontaine de Josh Hartnett, que faz cabeças virarem enquanto desliza pelos corredores da escola como um verdadeiro magic man, é para As Virgens Suicidas o que o cabo John McBurney de Farrell é para "O Estranho Que Nós Amamos".

Jeffrey Eugenides, o ganhador do Pulitzer que escreveu o romance em que As Virgens Suicidas se baseia, enviou um e-mail a Coppola para dizer que estava "empolgado" por ela estar adaptando O Estranho Que Nós Amamos, um filme que ele ama. "Senti que deveria haver alguma coisa que ele tinha em mente – há alguma relação" entre as duas histórias, disse.

Apesar de nossa conversa sobre temas que percorrem seu trabalho, Coppola não tem nenhuma ideia sobre o que se fala dela on-line e em revistas. Suas histórias, amplamente centradas em pessoas brancas privilegiadas, inspiraram uma enxurrada de reflexões e debates no Twitter, mas Coppola é "sensível demais" para se relacionar com aqueles que acusam seus filmes, digamos, de favorecer estilo sobre substância. Na realidade, quando mencionei os debates apaixonados em torno do trabalho dela e a relação com sua vida, como filha da lenda de Hollywood que dirigiu a trilogia O Poderoso Chefão (e prima de Jason Schwartzman e Nicolas Cage), ela respondeu com seu típico "Ah!". As opiniões de vocês sobre Coppola, quaisquer que possam ser, provavelmente a pegarão de surpresa. É quase como se – imagine! – ela não estivesse aqui para dar fundamento a críticas. Seus personagens estão sempre buscando algo, como se ela procurasse uma identidade independente da biografia que tantos de nós escrutinamos. (Coppola chegou a lançar uma linha de moda e estudou pintura no Instituto de Artes da Califórnia. Desde então, participou de vídeos musicais, comerciais e uma ópera).

"Fico lisonjeada que alguém esteja pensando sobre isso", disse ela, indicando não ter interesse em se aprofundar.

Paramount Classics

SIMPLESMENTE COMO MEL

"Penso em plateias jovens. Quero que tenham algo. Nunca entendi por que filmes para adolescentes não pareciam bons ou não eram de boa qualidade"

Dentro e fora dos sets de cinema, Coppola é conhecida pelos seus modos gentis. Pode permanecer distante, mas, durante o tempo que passamos juntos, seu contato visual foi caloroso e ela parecia disposta a discutir qualquer tema que surgisse, mesmo que não gostasse necessariamente de comentar o próprio trabalho.

"Ela parece quase passiva", disse Kathleen Turner. "De certo modo, deixa as coisas acontecerem e então diz, 'hmm, ah, isso não é exatamente como eu via isso' ou 'Isso não é exatamente o que eu estava pensando'. Não há crítica direta, por si só, ou é tão rara que é bem surpreendente se houver."

Com tal temperamento, os atores querem lhe dar o que ela está procurando. É por isso que Dunst retorna ao comando de Coppola repetidas vezes e o esquivo Bill Murray se tornou um muso improvável para ela como roteirista, e Emma Watson, consciente de sua imagem, entrou com tudo na sordidez de Vallery Girl em algo como uma guinada à esquerda depois de Harry Potter e As Vantagens de Ser Invisível.

Trabalhando com seus diretores de arte e de figurino, Coppola dá ao elenco fotografias e filmes para estudarem. Para Bling Ring: A Gangue de Hollywood, uma história sobre adolescentes reais de Los Angeles que assediavam opulentas casas de celebridades, ela pediu a Watson e outros atores que vissem filmes de assaltos, como Onze Homens e Um Segredo. Para O Estranho Que Nós Amamos, Coppola buscou Tess – Uma Lição de Vida, de Roman Polanski, e as fotos etéreas de garotas de David Hamilton.

Para criar um clima gótico do sul no cenário de Nova Orleans, máquinas de fumaça espalham neblina sobre os carvalhos da plantação. Coppola imaginou um rico pano de fundo para a mansão que abriga o Internato Martha Farnsworth, palco de bailes no pré-guerra. "Foram dias de glória", disse. "A festa acabou."

Aí está um tema-chave que atravessa o trabalho de Coppola: a festa acabou. Acabou para os desleixados personagens, cansados da fama, de Murray e Dorff em Encontros e Desencontros e Um Lugar Qualquer, respectivamente. Teve um final fatal em Maria Antonieta, e um tampão legalmente e espiritualmente complicado em Bling Ring: A Gangue de Hollywood. No caso de As Virgens Suicidas, a festa nunca pôde começar. Em uma iniciativa ousada, que é rara para uma estreia "mainstream" de Hollywood, garotas adolescentes foram marcadas pelo tédio e restrição que normalmente assombram adultos.

"Quando estava começando com As Virgens Suicidas, queria fazer algo sobre jovens mulheres porque senti que não eram sempre retratadas de uma forma com a qual eu pudesse me identificar", disse. "Além disso, [em filmes de John Hughes como The Breakfast Club e Sixteen Candles] sempre havia mulheres de 35 anos interpretando adolescentes."

Apesar dos inúmeros créditos em filmes quando criança e jovem adulta — como em sua famosa e ridicularizada aparição como filha de Michael Corleone em O Poderoso Chefão 3 e uma participação no vídeo Deeper and Deeper de Madonna, aos 21 anos —, Coppola fica pálida diante da noção de que ela mesma era um tipo de estrela infantil. Independentemente disso, ela claramente tem uma afinidade com jovens atores e atrizes que alimentam seus temas recorrentes em torno do poder da juventude.

Israel Broussard, por exemplo, disse que Coppola fazia o elenco de Bling Ring correr e pular para cima e para baixo antes de uma cena para "fazer o coração bater".

Coppola disse que empregou a mesma tática em O Estranho que Nós Amamos, pedindo que as atrizes corressem com as camisolas de suas personagens para se preparem para uma cena na qual estão histéricas.

Tais anedotas refletem a essência de um set de Coppola. Kidman deve ser uma das poucas atrizes mais velhas com a qual Coppola tem colaborado; a ideia de vê-la correndo por uma mansão — que, aliás, pertence à atriz Jennifer Coolidge — evoca uma imagem de infância de menina, fugitivamente recapturada, exatamente como Sofia gostaria.

Columbia Pictures

COROA NO CHÃO

"Quero apenas que meus filmes tenham sucesso suficiente para que eu possa continuar fazendo filmes."

Em Hollywood, Coppola recebeu o que alguns poderiam chamar de cheque em branco. Poucos diretores podem fazer praticamente qualquer filme que quiserem sem interferência do estúdio que financia o projeto. Coppola, que dá a última palavra no corte final, disse que conseguir o financiamento necessário para O Estranho que Nós Amamos – o valor divulgado foi de US$ 10 milhões — não foi fácil. No entanto, ela evitou o teste de tirolesa da bilheteria que aflige muitas mulheres, cujos fracassos não recebem o passe livre que seus colegas masculinos desfrutam.

O filme de maior sucesso de bilheteria de Coppola é, sem dúvida, Encontros e Desencontros, lançado em 2003 e que arrecadou US$ 119,7 milhões (além de indicações ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor; nesta última categoria, Coppola foi a primeira mulher norte-americana indicada). Apesar de Um Lugar Qualquer (2010) ter se limitado a apenas US$ 13,9 milhões e Bling Ring (2013) a somente US$19,1 milhões, ela manteve o padrão de fazer um filme a cada três ou quatro anos.

Parte dessa boa vontade foi inevitavelmente incentivada pelo legado de seu pai, embora a obra de Coppola tenha seu próprio valor. Mas Coppola apenas se importa com a receita das bilheterias na medida em que possa garantir que irá continuar a trabalhar com a mesma liberdade. (Em 2015, ela deixou a versão "live-action" da Pequena Sereia, da Disney, que ela teria filmado embaixo d'água, porque o estúdio não concedeu a ela a licença criativa.) Desta vez, no entanto, está mais atenta aos lucros.

"Seria divertido se [O Estranho que Nós Amamos] fosse bem-sucedido, apenas porque existe esta percepção de Mulher Maravilha ser um hit", disse Coppola. "O nosso não tem a mesma escala, mas seria bom para histórias protagonizadas por mulheres. Os estúdios não pensam sempre que seja um público que valha a pena, e vale [...]. Por isso, de certa forma, espero que se saia bem."

Entender que o marketing dos filmes é uma arte comercial em si mesma e que o sucesso de qualquer projeto depende de lançá-lo no momento certo e de atingir o público certo, Coppola ficou desapontada com o fato do trailer de O Estranho que Nós Amamos ter revelado tanto da trama. É promovido como um thriller padrão, mostrando uma pontuação "máxima" que não aparece no filme, e uma produção praticamente sem músicas, o que é surpreendente para uma diretora associada com trilhas sonoras ecléticas. Ela, no entanto, ama os pôsteres e camisetas com os dizeres "vacas vingativas" escritas à mão, uma referência a uma das falas de Farrell. Em um momento surreal de sinergia de marcas cruzadas, integrantes do elenco de Real Housewives of New York postaram fotos no Instagram usando as camisetas e promovendo a data de lançamento do filme.

À parte do nome de família e da tensão de ser mulher em uma indústria monopolizada por homens, o toque visual distintivo de Coppola e seu ritmo lânguido são essenciais para a imunidade criativa conquistada por ela.

"Sofia também tem uma rara habilidade de comunicar sua visão em poucas palavras incrivelmente evocativas e bem escolhidas", disse por e-mail Sarah Flack, que tem editado filmes de Coppola desde Encontros e Desencontros. "Sempre digo aos diretores que posso levá-los de A a Z (dos diálogos a uma cena de corte ou de uma versão de uma cena para outra versão ou para uma nova versão do filme) se eles simplesmente me disserem o que é o Z. Eles não têm de saber como chegar ao Z com a filmagem que temos — este é meu trabalho — desde que saibam o que é o Z. Sofia não só sabe o que é o Z todas as vezes, como também pode descrever o Z da maneira mais perfeita."

Coppola é a rara mulher que permite algumas, se houver, comparações com seus predecessores masculinos e equivalentes. Tendo ignorado o conselho de seu pai para "diga 'ação' mais alto para que saibam que você está no comando" (e tendo sobrevivido muito bem, muito obrigada), Coppola não precisa de uma presença penetrante no clube machista de cineastas-autores de Hollywood ou bilheterias de encher os olhos para fazer filmes de sua escolha. Ela simplesmente precisa de sua própria biografia, deslocada e refratada em cada empreitada.

Nós, fiéis camponeses, continuaremos comendo seu bolo.

O Estranho que Nós Amamos tem previsão de estreia no Brasil em 10 de agosto.

Focus Features
*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e foi traduzido do inglês.

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