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Como o Brasil passou de país em ascensão, membro dos Brics, para barco em processo de naufrágio

Houve época em que se considerava que a economia brasileira estava prestes a alçar voo. O que aconteceu?

07/07/2017 13:02 -03 | Atualizado 07/07/2017 13:02 -03
Gregg Newton / Reuters
Juscelino Kubitschek chegou à presidência em 1956 prometendo promover “50 anos de progresso em cinco anos”.

Por Steven M. Helfand, professor adjunto de Economia, University of California, Riverside, e Antônio Márcio Buainain, professor de Economia, Universidade Estadual de Campinas

A maioria das manchetes de 2016 vem focando a crise política brasileira. Mas o Brasil também se encontra mergulhado numa recessão econômica profunda.

A economia vem encolhendo desde o segundo trimestre de 2014. Ela sofreu contração de 3,8% em 2015, e a previsão é que a contração continue no mesmo ritmo este ano. A OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) previu que a recessão continue em 2017.

No entanto, foi apenas em 2009, no meio da crise financeira global, que a revista Economist publicou reportagem intitulada "O Brasil decola", com uma foto do Corcovado, com o Cristo Redentor ao alto, deslanchando como foguete. O artigo destacou por que o Brasil merecia ser um dos chamados Brics – as economias em rápido crescimento que incluem Rússia, Índia e China e que hoje são responsáveis por quase 25% do PIB global.

Como é possível que as perspectivas do Brasil tenham mudado tão rapidamente? Este tipo de ciclo de boom and bust (expansão e crise) é algo sem precedentes, ou será que é um tema recorrente na história brasileira?

Neste artigo analisamos a crise econômica atual desde a perspectiva histórica, lançando mão de nossos próprios estudos a respeito e de anos de análise da economia brasileira.

O Brasil chegando

O Brasil vem batendo à porta do mundo desenvolvido há muito tempo.

Ele é apelidado de "o país do futuro" desde que Stefan Zweig cunhou a frase no título de seu livro de 1941. E esse futuro parecia ser alcançável.

Entre 1900 e 1980, a economia brasileira teve um dos crescimentos mais acelerados do mundo. A renda per capita subiu mais rapidamente no Brasil que nos Estados Unidos. O país foi transformado de uma economia rural e agrícola – fornecedora de café, açúcar e outros produtos de exportação – em potência industrial urbana.

Mas um olhar mais atento sobre a história econômica brasileira revela ciclos frequentes de boom and bust, nos quais o otimismo considerável caiu por terra, deixando em sua esteira sonhos que não chegaram a ser realizados. Parece que o futuro sempre esteve perto, logo ali na esquina.

Vários analistas no Brasil começam a reiterar a previsão de que a recessão atual provavelmente será pior do que a que o Brasil enfrentou na década de 1930. Embora seja tecnicamente correta, essa, a nosso ver, não é a comparação correta.

O Brasil se saiu bastante bem na década de 1930, comparado com muitos outros países. Depois de crescer mais de 10% ao ano em 1927 e 1928, a economia brasileira só encolheu em 1930 e 1931. A recessão foi seguida por oito anos de crescimento robusto.

Os anos 1980 e início dos 1990 foram um período muito mais doloroso no país, após um boom especialmente poderoso que ganhou a alcunha de "milagre brasileiro". Voltamos abaixo a uma comparação com esse período.

A industrialização liderada pelo Estado e o chamado "milagre brasileiro"

Após a Segunda Guerra Mundial, o governo federal brasileiro começou a traçar planos para o desenvolvimento econômico do país, tendo como meta a industrialização e o crescimento acelerado.

Juscelino Kubitschek chegou à presidência em 1956 prometendo promover "50 anos de progresso em cinco anos". Foi uma fase de otimismo imenso, e o Brasil parecia uma enorme e interminável obra em construção, com rodovias, edifícios e fábricas pipocando em todo o país.

Simbolizando todo esse progresso, Brasília foi inaugurada em 1960 como capital planejada, dotada de arquitetura modernista. No entanto, o otimismo dos anos 1950 não demorou a dar lugar à turbulência política do início da década de 1960.

Com a renúncia repentina do presidente Jânio Quadros, em 1961, o cargo passou para as mãos do vice-presidente João Goulart, de tendência esquerdista. Sua promoção dos direitos trabalhistas, da reforma agrária e outras políticas populistas levaram a seu afastamento pelos militares em um golpe de Estado em 1964, com o apoio da elite brasileira e do governo dos Estados Unidos. Os generais comandariam o país até 1985.

As principais vítimas foram a democracia brasileira e um modelo de desenvolvimento mais inclusivo. Já o crescimento foi retomado em pouco tempo, contribuindo para uma redução rápida da pobreza. Naquele que ficou conhecido como o milagre brasileiro, entre 1968 e 1976 o PIB real apresentou crescimento superior a 8% ao ano em todos os anos menos um. A pobreza caiu mais de 20 pontos percentuais entre 1960 e 1980, não obstante o crescimento constante da desigualdade de renda.

O que deu errado

Diferentemente dos períodos de desaquecimento dos anos 1930 e meados da década de 1960, a crise econômica da década de 1980 foi muito mais prolongada e profunda.

A economia global havia mudado na década de 1970, e o Brasil demorara a se adaptar. O país dependia de sua dívida externa para prolongar o modelo de industrialização voltado para dentro que funcionara tão bem durante décadas, mas também isso chegou ao fim em 1982, com a explosão de uma crise de dívida em toda a América Latina.

O otimismo dos anos do milagre daria lugar à estagnação e hiperinflação. Entre 1981 e 1992, a economia apresentou crescimento negativo em cinco anos distintos, enquanto a inflação anual subia para a casa dos milhares. A renda per capita chegou ao auge em 1980 e só voltaria a ultrapassar esse nível permanentemente outra vez em 1994.

Foi uma "década perdida" para o Brasil em matéria do padrão de vida da população, mas a insatisfação popular forçou a saída dos militares do poder em 1985 e em 1988 levou à redação de uma nova Constituição.

De volta ao boom

As bases do ciclo mais recente de crescimento e otimismo foram deitadas entre 1994 e 2002.

Para começar, após várias tentativas fracassadas, em 1994 o governo finalmente arquitetou um plano de estabilização, o Plano Real, que conseguiu derrotar a hiperinflação. Em seguida, várias políticas importantes foram adotadas entre 1995 e 2002, sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso. Entre elas, uma reforma modesta das aposentadorias do funcionalismo público, a criação do programa Bolsa-escola e a adoção de uma importante lei de responsabilidade fiscal que, 15 anos mais tarde, seria utilizada para justificar o afastamento da presidente Dilma Rousseff.

FHC também avançou na adoção de mais políticas macroeconômicas sólidas, adotando o sistema de câmbio flutuante em 1999 e depois instituindo um sistema de metas de inflação e fiscais. Embora esse tenha sido um período de crescimento lento e turbulência internacional, a disparidade de renda começou a diminuir pela primeira vez em pelo menos 30 anos.

Durante sua presidência, de 2003 a 2010, Luiz Inácio Lula da Silva levou adiante políticas macroeconômicas semelhantes, reformou a Previdência e transformou e ampliou as políticas de combate à pobreza. Com um ambiente internacional que até 2009 foi muito mais favorável, e contando com um forte boom das commodities, a economia brasileira cresceu ao ritmo de cerca de 4% ao ano, enquanto a pobreza diminuía em um terço. Foi a primeira vez em pelo menos 50 anos que o Brasil teve crescimento e ao mesmo tempo uma redução da pobreza e da desigualdade.

Com a alta dos padrões de vida e a queda da pobreza, o país ingressou mais uma vez em uma fase de otimismo considerável. Enquanto o Brasil ia saldando sua dívida com o FMI, foram descobertas grandes reservas de petróleo. As agências internacionais de classificação de risco elevaram a classificação da dívida externa brasileira de uma nota especulativa para nota de investimento, abrindo o caminho para os fundos de pensões americanos investirem no país. Lideranças políticas brasileiras começaram a falar frequentemente em "desenvolvimento sustentável".

O otimismo apenas se intensificou quando, em 2007, o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 – no meio de uma crise financeira global.

O ex-presidente Lula participa de protesto contra o presidente interino Michel Temer e de apoio à presidente Dilma Rousseff, suspensa de suas funções. Paulo Whitaker/Reuters

A crise financeira vai tomando conta do país

Em um primeiro momento, o presidente Lula fez pouco-caso da crise.

Em outubro de 2008 ele disse que, embora ela pudesse ser um tsunami nos Estados Unidos, quando chegasse ao Brasil já não passaria de uma marola. Numa cúpula do G20 em Londres em 2009, o presidente Barack Obama foi flagrado pelas câmeras descrevendo seu colega brasileiro como "o político mais popular do mundo".

Pareceu inicialmente que Lula poderia ter razão. O Brasil teve um único ano de recessão em 2009. No ano seguinte a economia retomou o crescimento, que passou de 7%.

Mas não demorou a ficar claro que, como em épocas anteriores, o destino do Brasil está profundamente vinculado à saúde da economia mundial e sua escolha de políticas públicas. A economia estagnou em 2014, com crescimento zero, e encolheu fortemente em 2015 e 2016. Ao mesmo tempo, o déficit governamental cresceu para mais de 6% do PIB em 2014 e mais de 10% no ano seguinte.

A presidente Dilma Rousseff chegou ao poder em 2011 e disfarçou a situação fiscal deteriorante durante a eleição de 2014, justamente quando o escândalo de corrupção na Petrobrás ganhava força. Esse fato, somado ao rebaixamento da classificação de risco do país, criou o pano de fundo econômico que levou a seu afastamento do poder, enquanto ela aguarda o julgamento de seu impeachment este ano.

Três lições a tirar do passado

Ainda é cedo para saber se a recessão atual se parecerá mais com o período de desaquecimento dos anos 1930 ou com a "década perdida" dos anos 1980. Mas há várias lições que podem ser tiradas da história recente e que nos levam a concluir que um futuro róseo ainda está fora do alcance do Brasil. Destacamos três delas.

Em primeiro lugar, os investimentos em capital físico e humano foram um componente central das histórias de sucesso desenvolvimentista da China e dos chamados "tigres asiáticos". O Brasil, em contrapartida, deixou repetidas vezes a desejar nessas frentes. Mais recentemente o país desperdiçou a oportunidade possibilitada pelo boom das commodities para investir pesado em infraestrutura.

Em segundo lugar, a história da inflação descontrolada no Brasil foi em parte um reflexo da incapacidade de sucessivos governos de fazerem escolhas políticas difíceis. Do mesmo modo, enquanto o boom das commodities estava em curso, o governo pareceu ser capaz de satisfazer todas as reivindicações – desde elevar o salário mínimo e subsidiar empresas nacionais "campeãs" até ampliar as transferências de renda para os pobres --, ao mesmo tempo em que erguia estádios para eventos esportivos internacionais e reduzia a dívida em relação ao PIB. Agora que os anos de boom terminaram, chegou a hora da prestação de contas. Lamentavelmente, são muitas vezes os pobres que pagam o preço.

Finalmente, o Brasil precisa de reformas institucionais profundas para poder deitar as bases para o sucesso no século 21. Uma das reformas mais difíceis de encarar é a do sistema político nacional disfuncional. Com mais de duas dúzias de partidos políticos no Congresso, é extremamente difícil governar. Essa fragmentação gera um ambiente que propicia os tipos de escândalos de corrupção vistos em 2005, com o esquema de compra de votos de políticos no Congresso, e novamente hoje, com a Petrobrás. É esse ambiente político e institucional que contribui para a má administração e a corrupção em todos os níveis.

*O texto foi publicado originalmente em junho de 2016 no The Conversation e traduzido do inglês.

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