ENTRETENIMENTO

Na hora certa, no lugar certo: Homem-Aranha volta aos cinemas de cabeça erguida

Apostando em diversidade e insatisfação com elites no poder, novo filme do super-herói da Marvel também é sobre crescer

06/07/2017 12:04 -03 | Atualizado 06/07/2017 15:14 -03
Divulgação/Sony
Tom Holland: “Meu objetivo é fazer esse personagem ser tão amado quanto ele era nos quadrinhos”

Em uma manhã quente de maio, um enorme salão do hotel Grand Hyatt, em São Paulo, está repleto de jornalistas. Repórteres e blogueiros inquietos ocupam fileiras e fileiras de cadeiras. Fotógrafos disparam cliques e flashes para testar seus equipamentos na área reservada a eles. Ao fundo, câmeras de emissoras de TV já estão posicionadas para gravar. Há uma pergunta que não para de ser repetida no ambiente: "onde está o Homem-Aranha?".

Os atores Tom Holland e Laura Harrier, as estrelas de Homem-Aranha De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017), estão atrasados em quase meia hora para a coletiva de imprensa. No entanto, assim que eles entram e posam para tirar fotos, tudo que se pode ouvir na sala são as máquinas fotográficas e seus cliques furiosos. Todos os olhos estão no ator inglês. Finalmente, aí está o Homem-Aranha.

Holland, 21, interpreta Peter Parker no novo e (muito) esperado longa-metragem do super-herói, que estreia nesta quinta-feira (6). Trata-se do primeiro filme do personagem dentro do gigantesco Universo Cinematográfico Marvel, algo que só foi possível devido à inesperada parceria firmada dois anos atrás entre a Sony Pictures, estúdio que há quase 20 anos anos detém os direitos de adaptação do aracnídeo, e a Marvel Studios, que conduz a franquia.

"Meu principal objetivo é fazer esse personagem ser tão amado quanto ele era nos quadrinhos", diz o ator, cujos rosto e voz podem ser facilmente confundidos com os de um garoto de 15 anos.

É uma missão e tanto, já que se trata de um personagem que estreou nos gibis há 55 anos e jamais deixou de atrair antigos e novos leitores; e, além disso, reapareceu no cinema após uma ausência de dois anos em Capitão América: Guerra Civil (2016), deixando os fãs eufóricos.

De Volta ao Lar inicia a terceira franquia cinematográfica do Homem-Aranha. Tudo começou em 2002, com a trilogia dirigida por Sam Raimi (Evil Dead, Oz: Mágico e Poderoso) e protagonizada por Tobey Maguire (Seabiscuit – Alma de Herói). Apesar de fazer um imenso sucesso, recolher bilhões de dólares em bilheterias e receber elogios rasgados da crítica – principalmente para os dois primeiros filmes –, a Sony escolheu terminar a passagem de Raimi na franquia após o terceiro capítulo e cancelou planos para o quarto.

Em seguida, para cumprir obrigações contratuais com a Marvel e manter os direitos de adaptação, o estúdio decidiu fazer um reboot. Em 2012, O Espetacular Homem-Aranha chegou aos cinemas, com Andrew Garfield (A Rede Social) no papel principal e Marc Webb ((500) Dias com Ela) no comando. Dois anos depois, estreou a sequência. O desempenho em críticas e bilheteria de ambos os filmes desanimou a Sony, que finalmente decidiu receber a Marvel Studios, que já estava a todo vapor com o MCU, em seu balcão de negociações. O acordo teve o seguinte resultado: Sony produz, distribui e fatura toda a bilheteria; a Marvel, por sua vez, cuida e tem a palavra final na parte de criação, e pode usar este que é um de seus brinquedinhos prediletos nos filmes produzidos por ela, como Vingadores.

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Jon Watts e Holland em cena: influências de 'Curtindo a Vida Adoidado' são usadas em nova abordagem de Peter Parker.

A produtora Amy Pascal é peça-chave desse acordo. Ex-presidente da Sony Pictures, na quase uma década em que ficou na posição, ela supervisionou filmes bem sucedidos. Além das franquias de Homem-Aranha, Pascal fez acontecer O Código da Vinci, A Rede Social e The Smurfs, entre vários outros. Agora, ela cuida do Aracnídeo com sua nova produtora, a Pascal Pictures.

Essa trajetória de linhas retas, curvas e algumas turbulências não impede Holland, que passou por um longo e apertado processo de seleção para conseguir o papel, de ter "muita sorte" pelos cinco filmes anteriores. "Eu pude absorver deles o que manter e levar para meu filme. Houve incontáveis coisas que eu pude roubar."

Embora seja o mesmo personagem, a nova abordagem cria várias diferenças entre De Volta ao Lar e os longas que o antecederam.

"A maior delas é que o meu [Homem-Aranha] parece muito mais jovem", conta o ator. "Ele se diverte sendo herói. Se você der superpoderes a um garoto de 15 anos, ele terá o grande momento de sua vida."

Comandado por Jon Watts – responsável pelo bem-sucedido thriller independente A Viatura (2015) – e escrito pelo diretor em parceria com Christopher Ford, seu frequente colaborador, e com as duplas Jonathan Goldstein & John Francis Daley (Quero Matar Meu Chefe) e Chris McKenna & Erik Sommers (LEGO Batman: O Filme, Community), o tom leve e sagaz é latente em De Volta ao Lar, o que distancia muito a obra das marcas de Sam Raimi e Marc Webb.

Há uma cena em que John Hughes (1950-2009), cineasta responsável por clássicos adolescentes, como Curtindo a Vida Adoidado (1986) e Clube dos Cinco (1985), é referenciado diretamente. No novo Homem-Aranha, Peter Parker é apenas um garoto vivendo as experiências típicas de sua idade, assim como Ferris Bueller.

Após conhecer os Vingadores em Guerra Civil, Peter volta à rotina de colegial, que obviamente é muito menos emocionante. Ele mal vê a hora de se tornar um Vingador, mas Tony Stark, o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) crê que o garoto precisa amadurecer bastante antes disso. Peter discorda. Tentando equilibrar a vida escolar com a pessoal – ele continua péssimo com as garotas – e a de super-herói em Nova York – e também não é mais aquele acrobata de precisão olímpica; os vários tombos que ele toma mostram bem isso –, ele enfrenta uma dificuldade excepcional para impedir que um grupo de ladrões armados com aparatos alienígenas roube caixas eletrônicos.

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Laura Harrier (à esq.) vive Liz, o par romântico do herói - mas sem afetações de mocinhas estereotipadas.

Trata-se de armamento pesado feito com resquícios da batalha dos super-heróis da Marvel contra os alienígenas Chitauri em Os Vingadores (2012). Por trás da facção que fatura com o tráfico de armas turbinadas está Adrian (Michael Keaton), o peão-chefe da operação que recolhe os escombros do quebra-quebra. No entanto, a criação de uma nova empresa pela Stark Industries em parceria com o governo federal, a Controle de Danos, causa a repentina demissão de Adrian e sua equipe. Indignado pela mudança de planos, ele se revolta com a indiferença dos "poderosos" quanto às pessoas comuns, pais de família como ele. Agora dono de um par de asas robóticas e destruidoras, Adrian – ou Abutre – quer ele próprio um pouco de poder para si.

"Ele provavelmente é um dos vilões mais assustadores", diz Holland sobre o personagem de Keaton. "Ele é um cara comum que está muito bravo com o que está acontecendo no mundo e faz algo a respeito disso."

Harrier, 27, defende que o personagem representa a atual insatisfação do povo com as elites de poder na sociedade. "Há pessoas indignadas e esse é o caso do Abutre, que não tem grandes ideais", argumenta.

"Como diz o Tom, 'super-heróis do dia a dia podem ser super-heróis todo dia'. E eu acho que o mesmo se aplica ao atual momento político. Pessoas comuns podem protestar, ligar para seus senadores e congressistas e fazer a diferença, porque elas podem fazer."

A diversidade é algo notável no elenco. Liz, o par romântico de Peter, passa longe de ser uma donzela em perigo. Ela é negra, ambiciosa e tão inteligente quanto Peter.

"Liz é interessante porque ela é realmente focada em seu futuro. Ela é a presidente do time de decatlo acadêmico. E passa por mudanças interessantes no relacionamento com Peter."

O havaiano Jacob Batalon vive Ned, o melhor amigo do protagonista. A cantora e atriz Zendaya, de ancestralidade africana e europeia, é Michelle, uma devoradora de livros que usa uma camiseta com Sylvia Plath estampada. O arrogante Flash, que tem Peter como alvo predileto, é vivido por Tony Revolori, descendente de guatemalenses.

Ainda no elenco estão Marisa Tomei, como May, a tia de Peter em versão rejuvenescida; Jon Favreau como Happy Hogan, o hilário motorista de Tony Stark; Donald Glover, como Aaron Davis, um dos bandidos que se associam ao Abutre; Chris Evans é o Capitão América em divertidas pontas; e Jennifer Connelly, em atuação de voz, é K.A.R.E.N., a inteligência artificial do uniforme do Aracnídeo.

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Não é fácil ser super-herói e cursar o colegial ao mesmo tempo.

Até o momento, o novo longa do "Amigão da Vizinhança" já é sucesso consolidado pelo menos entre críticos. No site Rotten Tomatoes, que agrega resenhas de filmes e séries, De Volta ao Lar tem aprovação de 93% – é um "tomate fresco", com direito à estampa amarela. A revista Time elogia o filme por mostrar "um super-herói em atividades profundamente humanas, como se aprontar para um encontro com a garota que ele gosta". A Little White Lies, publicação inglesa especializada em cinema, diz que a atuação de Holland é "excelente", "com uma verve sapeca", mas ainda com "uma inocência charmosa, que o faz ser instantaneamente carismático". Já a Hollywood Reporter elogia as atuações de Holland e Tomei, mas critica as quantidades de piadinhas do Aranha e de arcos paralelos à história principal, que "afundam" o segundo ato.

A Sony Pictures já confirmou que haverá sequência – as filmagens estão agendadas para o primeiro semestre de 2018. Enquanto isso, o estúdio segue trabalhando no próprio universo compartilhado de seus personagens Marvel: Venom, arqui-inimigo do Homem-Aranha, tem filme solo confirmado com Tom Hardy (O Regresso) e direção de Ruben Fleischer (Zumbilândia). Silver & Black será um longa centrado nas antagonistas Gata Negra e Sabre de Prata, com direção de Gina Prince-Bythewood (A Vida Secreta das Abelhas). De Volta ao Lar ainda abre passagem para a já anunciada série Controle de Danos, a ser exibida pelo canal ABC, e para um filme do grupo de vilões Sexteto Sinistro.

Finalmente, aqui está o Homem-Aranha.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar tem duração de 133 minutos, classificação indicativa 12 anos e distribuição da Sony Pictures.

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