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O teste de míssil da Coreia do Norte: Como a imprevisibilidade de Trump muda o jogo

O anúncio explosivo de que Pyongyang teve êxito em seu artefato intercontinental pressiona EUA, China, Japão e Coreia do Sul.

05/07/2017 20:44 -03 | Atualizado 05/07/2017 20:44 -03
KCNA KCNA / Reuters
O míssil intercontinental Hwasong-14 foi testado, segundo governo norte-coreano.

Por Dylan Loh, da Universidade de Cambridge

Dado que a Coreia do Norte já tem a capacidade de produzir uma arma nuclear, é vital impedir o país de desenvolver mísseis balísticos intercontinentais. Segundo essa medida, o resto do mundo até aqui tem fracassado – e isso ficou mais claro que nunca em 4 de julho de 2017, quando Pyongyang afirmou ter realizado pela primeira vez um teste bem-sucedido de um míssil balístico intercontinental.

Se os relatos da performance do míssil estiverem corretos, Kim Jong-Un logo poderá ter a capacidade de atingir território americano. Donald Trump previamente afirmou que isso jamais será permitido – e os Estados Unidos e a Coreia do Sul responderam ao teste com uma manobra envolvendo mísseis no Mar do Japão.

Trump vem batendo esse bumbo desde o início de seu mandato – apesar de fazê-lo de maneira inconsistente. Exaltando o fim da política de "paciência estratégica" de Barack Obama, ele endureceu ostensivamente a postura dos Estados Unidos em relação à Coreia do Norte, afirmando que há a possibilidade de um "conflito muito, muito grande" se o país não contiver suas ambições nucleares.

"A era da paciência estratégica com o regime da Coreia do Norte fracassou. A paciência acabou. Estamos trabalhando muito próximo de..."

Em abril de 2017, pressionado a afirmar se outro teste nuclear precipitaria uma ação militar dos Estados Unidos, Trump disse: "Vamos ver". Mas, na mesma entrevista, ele afirmou que estaria "honrado" de encontrar o presidente norte-coreano, Kim Jong-un, elogiando o colega como um "rapaz bem esperto" e aparentemente demonstrando empatia, observando que deve ter sido "difícil" para Kim assumir as rédeas do país sendo tão jovem.

Observadores apontaram nessas declarações mais um sinal da inépcia e da incoerência de Trump. Mas, vistas de outro ângulo, essas mensagens confusas podem ter valor como uma espécie de metodologia extrema de "cenoura e chicote", ameaçando uma ação militar devastadora e ao mesmo tempo oferecendo um prêmio diplomático definitivo de um encontro com o presidente americano.

Até aqui, os resultados são mistos.

Petróleo e carvão

Do lado positivo, o comportamento recente dos Estados Unidos pode de fato estar ajudando a pressionar a China a reconsiderar sua política em relação à Coreia do Norte. Como disse em um comunicado conjunto com a Rússia depois do teste mais recente, Pequim considera "inaceitável" o desenvolvimento de armas de Pyongyang e gostaria de ver as duas Coreias negociando em nome da estabilidade e da paz.

A importância do papel da China não pode ser subestimada. Apesar das afirmações em contrário, é o único país que pode exercer real pressão sobre Pyongyang: se os chineses pararem de vender petróleo para os norte-coreanos e interromperem a compra de carvão, a economia do vizinho entraria em colapso.

Essa era uma medida que acreditava-se que a China jamais tomaria – mas as coisas podem estar mudando. A China sinalizou estar disposta a sacrificar essa vaca sagrada. Em abril de 2017, num editorial do Global Times, o país fez uma ameaça pública sem precedentes:

"Se o Norte fizer outra provocação este mês, a sociedade chinesa estará disposta a pedir que o Conselho de Segurança da ONU time medidas restritivas severas e jamais vistas, tais como a restrição da importação de petróleo."

A mídia estatal da Coreia do Norte respondeu admoestando os chineses, afirmando que Pequim não deveria "testar os limites da paciência [da Coreia do Norte]" e acrescentando que seria bom que o país "considerasse muito cuidadosamente as graves consequências que se seguiriam à derrubada do pilar das relações [entre China e Coreia do Norte]". Os chineses rebateram, novamente via Global Times, classificando a declaração dos vizinhos de "hiperagressiva" e "cheia de paixão nacionalista". Pyongyang, afirmou o jornal, "lida com algum tipo de lógica irracional em relação a seu programa nuclear".

A ironia não passou despercebida pelos observadores da China. Com a paciência chegando perto do limite, o país pode ser forçado a finalmente exercer pressão real sobre o vizinho mal-comportado.

Cabo-de-guerra

Kim Jong-un e seus progenitores sempre confiaram na imprevisibilidade como sua principal tática política e diplomática – mas, como Trump na Casa Branca, eles não têm mais o monopólio do comportamento quixótico. São muitos os mistérios sobre a política americana em relação a Pyongyang. O porta-aviões Carl Vinson dirigiu-se à península coreana ou não? Por que o senado inteiro foi chamado à Casa Branca em abril para receber um briefing sobre o país? Será que Trump vai ordernar ataques cirúrgicos contra a Coreia do Norte? E o que significam estes tuítes recentes?

"A Coreia do Norte acaba de lançar outro míssil. Esse cara não tem nada melhor pra fazer? Difícil acreditar que a Coreia do Sul..."

"... e o Japão vão aturar isso por muito mais tempo. Talvez a China endureça com a Coreia do Norte e acabe com essa palhaçada de uma vez por todas!"

É normal que Kim Jong-un faça propaganda política. Isso é o que se espera dele. Mas quando o presidente americano entra na brincadeira as coisas mudam de figura.

O comportamento de Trump está aumentando a tensão em vários fronts. Embora o triângulo Coreia do Sul-Japão-Estados Unidos permaneça unido, a ativação do sistema de defesa antimísseis Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) gerou uma resposta dura dos chineses. Quando o o THAAD começou a ser ativado para valer no começo deste ano, a China retaliou contra o Lotte Mart, uma rede varejista de descontos da Coreia do Sul que concordou em fornecer terras para o THAAD; muitas das lojas da empresa na China foram fechadas com explicações pouco convicentes.

Mesmo assim, a Coreia do Sul permanece próxima dos Estados Unidos e do Japão – o presidente recém-eleito, Moon Jae-in, visitou Trump em Washington dias antes do teste de 4 de julho, onde pareceu seguro de que Trump não abriria mão de seus planos em troca de algum tipo de diálogo diplomático.

Trump também parece superestimar o relacionamento pessoal que desenvolveu com Xi Jinping, presidente da China, na reunião ocorrida em Mar-a-Lago, na Flórida, insistindo que isso significa resultados diretos na contenção dos norte-coreanos.

Apesar de toda a conversa sobre restrições nas negociações de carvão e petróleo, não houve resultados práticos até aqui. Xi, por sua vez, pode ter subestimado o nível da pressão que tem de exercer sobre o regime de Kim para manter Trump satisfeito.

Com o último teste, Kim provavelmente esperou surpreender o mundo mais uma vez. Mas ele pode ter subestimado a imprevisibilidade de Trump, assim como o desprezo que o presidente americano tem por derrotas. O cálculo político entre os países interessados em parar o programa nuclear de Pyongyand está mudando.

*Este texto foi originalmente publicado no The Conversation e traduzido do inglês.

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