POLÍTICA

Aécio Neves: 'Não cometi crime algum. Fui vítima de uma armadilha'

Ao retornar ao Senado, o tucano disse que foi condenado previamente sem nenhuma chance de defesa.

04/07/2017 17:35 -03 | Atualizado 04/07/2017 17:57 -03
ANDRESSA ANHOLETE via Getty Images
"Fui condenado previamente sem nenhuma chance de defesa", disse Aécio Neves.

"Não cometi crime algum. Não aceitei recursos de origem ilícita. Não ofereci vantagem indevida a quem quer que fosse, tampouco atuei para obstruir a Justiça. Fui vítima de uma armadilha, de um criminoso confesso." - senador Aécio Neves (PSDB-MG)

Enfático, Aécio Neves, senador e presidente licenciado do PSDB, subiu à tribuna do plenário do Senado e se defendeu da denúncia do procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, que o afastou do mandato no último dia 18 de maio.

De posse do mandato novamente desde sexta-feira (30), o tucano se disse vítima de armadilha de um "criminoso confesso de mais de 200 crimes, cujas penas somadas ultrapassariam mais de dois mil anos de cadeia".

Fui condenado previamente sem nenhuma chance de defesa. (...) Fui vítima da manipulação de alguns e da má fé de muitos.

Aécio foi acusado de obstrução à Justiça depois de ter sido gravado pelo empresário Joesley Batista traçando estratégias para barrar as investigações da Operação Lava Jato e pedindo R$ 2 milhões para pagar advogados. Aécio oferece ainda a compra de um apartamento a Joesley.

Segundo o senador, a compra do imóvel foi oferecida ao empresário, por meio de sua irmã Andreia Neves, justamente para pagar advogados. Ele disse ter que se desfazer de patrimônio da família porque não "obteve jamais, em tempo algum, vantagem financeira por causa da política".

A irmã do senador segue em prisão domiciliar por ter abordado o empresário para tratar da transação sobre o imóvel e intermediado pagamento de propina ao irmão.

Nostalgia e tristeza

A prisão da irmã e o constrangimento pelo declínio da carreira de quem recebeu mais de 50 milhões de votos na disputa presidencial de 2014 e foi afastado do mandato por uma denúncia de corrupção deixou Aécio abalado.

A tristeza do senador ficou evidente no primeiro discurso em seu retorno ao Senado. Ele afirmou que nos últimos dias ficou indignado e profundamente triste, mas ressaltou que em nenhum instante perdeu a serenidade e o equilíbrio.

Não cheguei ontem na vida pública, nessas últimas semanas deixei-me embalar por certas nostalgias.

O senador disse que errou por deixar envolver "nessas tramas ardilosas e principalmente por permitir que os familiares servissem de massa de manobra para servir a esses espúrios" e "interesses nefastos". Disse ainda ter errado pelo uso de linguajar que não o é "comum".

Vocabulário

O "vocabulário incomum" aparece em uma das conversas em que ele relata um plano para barrar a Lava Jato. "O que vai acontecer agora, vai vir inquérito sobre uma porrada de gente, caralho, eles aqui são tão bunda mole que eles não notaram o cara que vai distribuir os inquéritos para os delegados", disse, referindo-se ao ministro Alexandre de Moraes, ex-integrante do PSDB e indicado por Temer para o STF.

"Você tem lá, sei lá, dois mil delegados da Polícia Federal, aí tem que escolher dez caras. O do Moreira, o que interessa ele, sei lá, vai pro João. O do Aécio vai pro Zé. O outro filho da puta vai pro, foda-se, vai para o Marculino, nem isso conseguiram terminar. Eu, o Alexandre e o Michel", continua.

Aécio disse que estava fazendo críticas, em caráter privado, às investigações. O linguajar também é usado em uma das gravações interceptadas pela Polícia Federal. Na conversa, Aécio repreende o colega o senador Zezé Perrella (PMDB-MG).

"Deixa eu te falar bem rapidamente aqui. Eu acho que não preciso provar o quanto sou teu amigo na vida, né cara? Então, vou te falar aqui como amigo, com a liberdade de amigo. Olhe, poucas vezes eu vi uma declaração tão escrota, Zeze, como essa que você deu hoje", disse o senador.

A conversa em que os dois falam sobre financiamento de campanha termina com os senadores rindo de uma reposta de Perrella: "Porque eu sou muito agredido pelo negócio do helicóptero até hoje, sabe Aécio? Eu não faço nada de errado, eu só trafico drogas".

Aos colegas senadores, Aécio lembrou de episódios importantes de sua vida pública, como a militância pelas eleições diretas no fim do regime militar e pela Constituinte, que permitiu o voto aos 16 anos. Disse ainda que sempre atuou na defesa do interesse público e na busca por transparência e controle.

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