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Quando – e por que – as pessoas começaram a usar dinheiro?

Mesmo se a moeda continuar a evoluir em nossa era digital, seu uso hoje ainda seria familiar aos nossos antecessores.

30/06/2017 18:23 -03 | Atualizado 02/07/2017 14:26 -03

Chapurukha Kusimba, professor de Antropologia, American University

Às vezes, encontramos uma cédula de dinheiro suja e desgastada que parece estar circulando desde o início dos tempos. Certamente não é o caso, mas a história do uso de dinheiro em moeda pelos seres humanos de fato é antiga — 40.000 anos.

Cientistas rastrearam o intercâmbio e comércio por meio dos registros arqueológicos, começando no Paleolítico Superior, quando grupos de caçadores barganhavam as melhores armas de pederneira e outras ferramentas. Primeiro, as pessoas faziam trocas, negociando diretamente entre duas partes os objetos desejados.

O dinheiro veio um pouco mais tarde. Sua forma evoluiu ao longo dos milênios — objetos naturais, moedas, papel e versões digitais. Mas, independentemente do formato, os seres humanos há muito tempo usam a moeda como um meio de troca, um método de pagamento, um padrão de valor, uma reserva de riqueza e uma unidade de conta.

Como um antropólogo que fez descobertas de moedas antigas em pesquisas de campo, tenho interesse em saber como o dinheiro evoluiu na civilização humana — e o que essas descobertas arqueológicas podem nos dizer sobre o comércio e a interação entre grupos distantes.

Por que as pessoas precisam de dinheiro?

Existem muitas teorias sobre a origem do dinheiro, em parte porque o dinheiro tem muitas funções: facilita a troca como medida de valor; reúne sociedades diversas ao permitir a oferta de presentes e a reciprocidade; perpetua hierarquias sociais; e, finalmente, é um meio de poder do Estado. É difícil datar com precisão as interações envolvendo moedas de vários tipos, mas as evidências sugerem que emergiram a partir de trocas de presentes e pagamentos de dívidas.

Objetos que eram raros na natureza e cuja circulação poderia ser eficientemente controlada emergiram como unidades de valor para interações e trocas. Estes incluíam conchas, tais como as madrepérolas, que tinham ampla circulação no continente americano, e os búzios, usados na África. Cobre nativo, meteoritos ou ferro nativo, obsidiana, âmbar, miçangas, cobre, ouro, prata e lingotes de chumbo foram usados como moeda. Até épocas relativamente recentes, as pessoas usavam animais vivos, vacas por exemplo, como forma de moeda.

O shekel da Mesopotâmia —a primeira forma conhecida de moeda— surgiu há cerca de 5.000 anos. As primeiras moedas conhecidas datam de 650 a 600 a.C., na Ásia Menor, onde as elites de Lídia e Jônia usavam moedas de prata e ouro para pagar os exércitos.

A descoberta de hordas de moedas de chumbo, cobre, prata e ouro em todo o mundo sugere que a cunhagem — especialmente na Europa, Ásia e Norte da África — foi reconhecida como um meio de moeda-mercadoria no começo do primeiro milênio d.C.

A ampla circulação de moedas romanas, islâmicas, indianas e chinesas aponta para o comércio pré-moderno (1250 a.C. – 1450 d.C.)

A cunhagem como moeda-mercadoria deve seu sucesso, em grande parte, à sua portabilidade, durabilidade, transportabilidade e valor inerente.

Além disso, líderes políticos poderiam controlar a produção de moedas — desde a mineração, fundição, impressão — bem como sua circulação e uso. Outra formas de riqueza e dinheiro, tais como vacas, serviram eficazmente sociedades pastorais, mas não eram fáceis de transportar — e, claro, eram suscetíveis a desastres ecológicos.

O dinheiro logo se tornou um instrumento de controle político. Os impostos puderam ser cobrados para apoiar a elite e exércitos erguidos. No entanto, o dinheiro também podia agir como força estabilizadora que promoveu trocas não violentas de bens, informações e serviços dentro e entre os grupos.

Ao longo da história, o dinheiro tem atuado como registro, uma memória de transações e interações. Por exemplo, europeus medievais usavam amplamente talhas de madeira como comprovante para registrar dívidas.

Siga o dinheiro para ver as rotas de comércio

No passado, como hoje, nenhuma sociedade era autossustentável, e o dinheiro permitiu que as pessoas interagissem com outros grupos. As pessoas usavam diferentes formas de moeda para mobilizar recursos, reduzir riscos e criar alianças e amizades em resposta a condições políticas e sociais específicas. A abundância e evidência quase universal da movimentação de bens exóticos em diversas regiões habitadas por pessoas que eram independentes uma das outras— como caçadores-coletores, pastores, agricultores e moradores das cidades — apontam para o significado da moeda como princípio de união. Era como uma língua comum que todos podiam falar.

Por exemplo, americanos que viveram no começo do Período Formativo, entre 1450 e 500 a.C. usaram obsidianas, madrepérolas, minério de ferro e dois tipos de cerâmica como moeda para o comércio em todas as Américas, em um dos primeiros exemplos de comércio global bem-sucedido. O comércio da Rota da Seda Marítima, que ocorreu entre 700 e 1450 d.C., conectou europeus, asiáticos e africanos em um comércio global que foi tanto transformacional quanto fundamental.

Em meu próprio trabalho de escavação em 2012, recuperei uma moeda chinesa Yongle Tongbao, de 600 anos, no antigo porto comercial queniano na ilha de Manda, no Oceano Índico. As moedas chinesas eram pequenos discos de cobre e prata com um buraco no centro, para que pudessem ser usadas em um cinto. Essa moeda foi impressa pelo Imperador Yongle, da Dinastia Ming. Ele estava interessado em missões comerciais e políticas para as terras além do Mar da China Meridional e enviou o almirante Zheng He para explorar aquelas regiões costeiras, quase 80 anos antes de Vasco da Gama completar a rota de Portugal até a Índia.

Descobertas arqueológicas como esta ilustram a integração da África em interações comerciais no Oceano Índico. Também mostram evidências que as economias de mercado baseadas em dinheiro em espécie estavam se desenvolvendo nesta época. Na costa da África Oriental, havia comerciantes locais e reis dos suaílis locais que seguiam o Islã e cultivavam esses contatos externos com outros comerciantes do Oceano Índico.

Queriam facilitar os negócios, enquanto comerciantes do Oriente Próximo e Sul da Ásia tinham seus próprios Rolodexes de contatos comerciais. A cunhagem não era apenas um negócio local, mas também uma forma de deixar um cartão de contato, uma assinatura e um token simbólico de conexões.

Como a história do dinheiro mostrou, o impacto da moeda tem dois gumes: permitiu a movimentação e bens e serviços, a migração e assentamento entre estrangeiros. Trouxe riqueza para alguns, enquanto acelerou o desenvolvimento de distinções socioeconômicas e de outros tipos. Os mesmos padrões se revelam hoje com a relação moderna entre a China e a África, agora mais entrelaçada e desigual do que quando o almirante Zheng He trouxe, pela primeira vez, moedas da China em um gesto diplomático, como uma extensão simbólica de amizade através da distância que separa ambos os lados.

Em nossa época, a posse do dinheiro em moeda diferencia ricos de pobres, os desenvolvidos dos em desenvolvimento, o norte global do sul global emergente. O dinheiro é tanto pessoal quanto impessoal, e a desigualdade global hoje em dia está vinculada à formalização do dinheiro como medida de bem-estar social e sustentabilidade. Mesmo se a moeda continuar a evoluir em nossa era digital, seu uso hoje ainda seria familiar aos nossos antecessores.

*Este texto foi originalmente publicado no The Conversation e traduzido do inglês.

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