COMPORTAMENTO

Tia Má respondeu fala de Mallu Magalhães no 'Encontro': 'Respeite nossa história'

'Mallu, cante o que vc quiser, mas na moral respeite a nossa dor e a nossa história.'

24/06/2017 15:38 -03 | Atualizado 24/06/2017 16:03 -03
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Tia Má respondeu fala de Mallu Magalhães, no 'Encontro': 'Respeite nossa história'

Na última sexta-feira (23), a cantora Mallu Magalhães reacendeu o debate sobre o mito do racismo reverso nas redes sociais.

Isso porque a cantora participou do programa Encontro, da Rede Globo, para divulgar seu novo álbum, Vem.

No momento em que foi convidada para cantar sua música, Mallu fez a seguinte declaração: "Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba."

A fala da cantora se deu após uma discussão no programa em que ela e Tia Má, a jornalista e feminista negra, conversavam sobre a recente polêmica em que Mallu se envolveu.

Lançado no último dia 19, o vídeo da música Você não presta foi tachado como racista e reacendeu nas redes o debate sobre hipersexualização do corpo negro e estereótipos racistas.

Depois do posicionamento de Mallu Magalhães sobre "brancos, preconceito e samba", o programa foi interrompido e Tia Má não conseguiu responder a cantora.

Porém, neste sábado (24), ela usou o seu perfil no Facebook para falar sobre o incômodo gerado pela declaração de Mallu Magalhães.

"Quem me acompanha sabe que eu discordo...é uma roupagem do RACISMO REVERSO. Ela demonstrou incomodo de ter a sua obra questionada e quis se colocar também no lugar de vítima. Mallu é uma Jovem, branca, rica e que tem uma série de vantagens na vida. Para pessoas como ela, ser questionada é uma afronta", escreveu Tia Má.

De acordo com a feminista negra, la não se posicionou no momento, pois não queria transformar o programa em uma "batalha". E mais, disse que seria rotulada como a "preta raivosa".

"Não iria transformar o palco do programa em uma batalha... Sabia que a internet daria conta. Ali, eu seria a "preta raivosa que não compreende as dores de uma artista". Esse papo de que branco não pode cantar samba....rsrs...A gente até rir....os principais ritmos brasileiros foram criados por pessoas negras, em espaços negros e quando se tornaram populares ganhou roupagens e intérpretes brancos."

Para ela, Mallu Magalhães contribuiu para o apagamento da luta negra e reforçou ideias racistas. Tia Má, ainda, pediu que a artista respeitasse sua "dor e história".

"Branco aqui faz o que quer e sempre foi assim. A única coisa que branco não pode ser é racista, pois isso é crime! Nós, negros, vemos a nossa história e contribuição sendo apagada cotidianamente e mesmo assim...tentam transformar, aqueles e aquelas,que são barrados no baile por terem a pele da cor da noite, em algozes! Malu, cante o que vc quiser, mas na moral respeite a nossa dor e a nossa história."

Na internet, o comentário de Mallu Magalhães foi bastante criticado.

Sobre racismo reverso, a pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista negra Djamila Ribeiro já fez os seguintes apontamentos:

Não existe racismo de negros contra brancos ou, como gostam de chamar, o tão famigerado racismo reverso. Primeiro, é necessário se ater aos conceitos. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.

Para haver racismo reverso, deveria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de 300 anos da população branca, negação de direitos a essa população. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores, atrizes e apresentadores de TV? Dos diretores de novelas? Qual é a cor da maioria dos universitários? Quem são os donos dos meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento de outro.

Leia aqui o artigo completo publicado no site da revista Carta Capital em 2014.

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