POLÍTICA

Os 8 candidatos para comandar a Lava Jato

Substituto de Rodrigo Janot será escolhido por Michel Temer.

24/06/2017 12:33 -03 | Atualizado 24/06/2017 12:33 -03
Montagem / Getty Images
Presidente Michel Temer irá indicar substituto de Rodrigo Janot como procurador-geral da República.

À frente das investigações da Operação Lava Jato como procurador-geral da República, Rodrigo Janot deixa o posto em setembro. A escolha de seu substituto está nas mãos do presidente Michel Temer, investigado por corrupção, organização criminosa e obstrução à Justiça no âmbito da Lava Jato.

No próximo dia 27, a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) irá escolher três candidatos para compor uma lista tríplice a partir da qual Temer deve tomar sua decisão. Votam cerca de 1,3 mil membros do Ministério Público Federal (MPF).

Tradicionalmente, o presidente indica um dos três nomes para ser o novo procurador-geral da República. A prática foi adotada pelos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, não seguiu a lista votada pela associação, em 2001, quando a iniciativa foi inaugurada pela ANPR.

Diante do clima de disputa entre Temer e Janot desde que o procurador-geral pediu a abertura do inquérito contra o presidente, cresce a expectativa de que o peemedebista indique um nome de fora da lista.

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, chegou a defender que outras associações ligadas ao Ministério Público da União (MPU), além da ANPR, apresentem nomes para o cargo.

Dentro da lista, os nomes de Mario Bonsaglia e Raquel Dodge são apontados como os preferidos. Ele foi o segundo colocado na lista tríplice em 2015 e ela conta com o apoio do PMDB.

Dos oito candidatos a chefiar a PGR, quatro são considerados opositores a Janot: Carlos Frederico Santos, Raquel Dodge, Eitel Santiago e Sandra Cureau. Do outro lado estão Nicolao Dino, Mario Bonsaglia, Ela Wiecko e Franklin Rodrigues da Costa.

Conheça os candidatos:

Carlos Frederico dos Santos

Reprodução / Youtube

Nas eleições para PGR em 2015, Carlos Frederico dos Santos se considerava o maior opositor de Janot. Ele criticou o uso de "efeitos midiáticos" na condução da Lava-Jato.

Em seu site de campanha, defende a agilidade na elaboração de pareceres, investigações, denúncias e uma "ação eficaz que priorize as atividades institucionais que sinalizem, de forma satisfatória, resultado efetivo".

Nascido em Manaus (AM) em 18 de fevereiro de 1962, Frederico dos Santos ingressou no Ministério Público em 1987. É procurador da República desde 1991 e foi presidente da ANPR entre 1999 e 2003.

Ganhou notoriedade por sua atuação na apuração da chacina de índios ianomâmis, no Norte do país, em 1995. No mesmo ano, foi um dos autores da ação civil pública que impediu a construção de uma hidrelétrica dentro da área que hoje é a reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.

Eitel Santiago

Edilson Rodrigues / Agencia Senado

Nascido em 24 de outubro de 1955 em João Pessoa (PB), Eitel Santiago foi secretário de Segurança Pública e Defesa Social do governo do governo de Cássio Cunha Lima (PSDB) na Paraíba, em 2007, quando se licenciou do Ministério Público Federal.

Ingressou no MPF em 1984. Em 1996, ocupou o cargo de subprocurador-geral da República. Antes da ligação com o tucano, foi filiado ao PFL (atual DEM), partido pelo qual foi candidato a deputado federal pela Paraíba, em 1994.

Em entrevista ao jornalista Matheus Leitão, o procurador criticou o emprego de longas prisões preventivas como forma de obter informações dos investigados. "A colaboração (premiada), como método de obtenção de prova, é lícita se for espontânea. Não pode ser extorquida por meio de demorada privação da liberdade", afirmou.

Santiago também condenou o uso do perdão judicial para investigados líderes de uma organização criminosa. O empresário Joesley Batista, da JBS, por exemplo, recebeu o benefício após fechar um acordo de delação com o Ministério Público Federal.

Ela Wiecko

João Américo / Secom / PGR

Ex-vice-procuradora-geral da República, deixou o cargo após a divulgação de um vídeo em que aparece em uma manifestação contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Funcionária concursada do Ministério Público Federal desde 1975, a procuradora construiu uma trajetória de luta pelos direitos humanos e já integrou seis vezes a lista tríplice.

Lidera uma corrente crítica ao foco na área penal, em detrimento da garantia dos direitos humanos. Em entrevista ao jornalista Paulo Moreira Leite, a procuradora afirmou que o objetivo de sua candidatura é trazer "o ponto de vista de mulheres e de homens que se preocupam com a desigualdade material, com a discriminação e a violência decorrente das divisões e hierarquias que estruturam a sociedade brasileira por sexo/gênero, raça/cor/etnia e classe".

Ela Wiecko foi coordenadora de Defesa dos Direitos Humanos, da Câmara da Criança, adolescente, idosos e outras minorias e exerceu a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão por dois mandatos, de 2004 a 2008. Entre 1997 a 1999, presidiu o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

Franklin Rodrigues da Costa

Jefferson Rudy / Agência Senado

Subprocurador de Rondônia, fez parte da equipe do Ministério Público Eleitoral que investigou um esquema de corrupção que teria financiado a campanha de reeleição do então governador do Distrito Federal Joaquim Roriz (PSC) em 2002.

Na campanha, Costa destaca como prioridade o combate à corrupção.Ele é a favor de um limite de 10% de procuradores de cada unidade do MPF que podem ser cedidos a operações especiais, como a Lava Jato.

Sobre a revisão de benefícios concedidos em uma delação premiada, o candidato a procurador-geral da República afirmou, em entrevista ao jornal Estadão, que, com uma mudança, "potenciais colaboradores passariam a se negar a colaborar, em razão da falta de confiança na estabilidade das condições que tivessem assinado".

Mário Bonsaglia

Divulgação / Conselho Nacional do Ministerio Público

Subprocurador-Geral da República, Mário Bonsaglia é membro do Ministério Público Federal desde 1991. Em 2015 foi o segundo colocado na lista tríplice, atrás de Janot.

Se eleito, prometeu manter a equipe que auxilia o atual PGR. "Manterei o grupo de apoio atualmente existente, aos quais agregarei desde logo novos colegas com sólida atuação em matéria criminal, e comandarei toda a equipe com a segurança e desenvoltura de quem ao longo da carreira angariou longa experiência na área criminal", afirmou no site da campanha.

Bonsaglia coordenou a Câmara de Controle Externo da atividade policial, foi membro do conselho superior do MPF, procurador eleitoral em São Paulo e conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

Nicolao Dino

Getty Images

Membro do MPF desde 1991, Nicolao Dino é o candidato de Janot. Como vice-procurador-geral eleitoral, pediu a cassação da chapa Dilma-Temer no TSE. "Todos esses fatos evidenciam claro abuso de poder econômico", afirmou no julgamento que resultou na absolvição da chapa.

O procurador coordenou a campanha das 10 medidas de combate à corrupção, foi presidente da ANPR de 2003 a 2007 e conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), entre 2007 e 2009.

É irmão do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), inimigo político da família Sarney. De acordo com delação da Odebrecht, Flávio pediu R$ 400 mil em 2010, quando era deputado federal, para defender na Câmara dos Deputados um projeto de lei que beneficiaria a construtora. O pagamento teria sido feito para a campanha. Dino nega a acusação.

Raquel Dodge

Antonio Cruz / Agência Brasil

Apoiada por caciques do PMDB, como o ex-presidente José Sarney, o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (AL) e o ex-ministro da Justiça Osmar Serraglio (PR), a subprocuradora criminal Raquel Dodge foi a terceira mais votada na última eleição para a PGR em 2015.

Ela conta ainda com o apoio do Ministro da Justiça, Torquato Jardim, e do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Dodge entrou em conflito com Janot ao sugerir a 10% a quantidade de procuradores cedidos para investigações como a Lava-Jato.

Como coordenadora da 2ª Câmara do MPF, denunciou 38 pessoas investigadas na Operação Caixa de Pandora. O caso conhecido como mensalão do DEM resultou na primeira prisão de um governador: José Roberto Arruda, que comandou o Distrito Federal.

Sandra Cureau

Marcelo Camargo / Agência Brasil

No Ministério Público desde 1976, Sandra Cureau é conhecida por sua atuação rígida contra o PT. Em 2010, criticou a participação do então presidente Lula na campanha de Dilma Rousseff e o acusou de usar a máquina pública em favor da candidata: "Eu acho que ele quer, a qualquer custo, fazer a sua sucessora".

Na época, Cureau era subprocuradora-geral eleitoral, na gestão de Roberto Gurgel. Ela propôs diversas multas ao PT por propaganda eleitoral antecipada e chegou a gerar polêmica ao chamar a foto do ministério da então presidente Dilma de "ridícula".

Em sua campanha à lista tríplice, promete a continuidade e o aprimoramento da Lava Jato. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, ela criticou excessos nas delações premiadas. "Pessoas que confessam crimes de grande magnitude devem ser punidas", afirmou.

LEIA MAIS:

- Como os acordos de delação serviram como pontos-chave para a Lava Jato

- Até que ponto o Judiciário pode mudar as condições de uma delação premiada?

Entenda a Operação Lava Jato