ENTRETENIMENTO

O dia em que Mallu Magalhães reacendeu o debate sobre o mito do racismo reverso

“Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba.”

23/06/2017 17:02 -03 | Atualizado 23/06/2017 17:47 -03

Mallu Magalhães esteve no Encontro com Fátima Bernardes na manhã desta sexta-feira (23) para divulgar seu novo álbum, Vem.

Durante o programa, ela conversou com a apresentadora sobre a polêmica em que se envolveu nos últimos dias, após repercussão do clipe do single Você Não Presta.

Lançado no último dia 19, o vídeo foi tachado como racista e reacendeu nas redes o debate sobre hipersexualização do corpo negro e estereótipos racistas.

"Em nenhum momento eu considerei a cor de ninguém durante a seleção de casting, nem reparei no número de pessoas, qual cor elas eram (...) Um grupo de pessoas negras se sentiu ofendida, disseram que eu estava usando o corpo negro para adornar o meu clipe. Não foi a minha intenção", se justificou sobre o episódio.

A cantora já tinha pedido desculpas aos fãs por meio de um texto publicado em seu perfil no Facebook. "Li cada uma das críticas, dos posts e comentários, e o debate me fez refletir muito sobre o tema", afirmou em texto. Leia o texto na íntegra:

No programa de Fátima, ela também disse que tomou a discussão como uma oportunidade de aprendizado, mas continuou defendeu o produto final.

"Foi um momento de educação para mim. Hoje eu olho o clipe com outros olhos. Continuo com a minha opinião de achar que o clipe é bonito. E, claro, não foi minha intenção [ser racista] e continuo vendo o clipe como um vídeo de convite, mas [com] o debate que se acendeu, os argumentos das pessoas, a gente aprende também. Quer dizer, Fátima, a gente aprende também que a gente não consegue prever a ferida dos outros.. [...] Eu entendo essas pessoas [ que se sentiram ofendidas]. São argumentos que nunca passaram pela minha cabeça e, por isso, eu fico triste. Realmente não foi a intenção."

Também convidada da atração, a jornalista e feminista negra Tia Má entrou na conversa e explicou para a cantora que as críticas feitas ao clipe tem fundamento, já que o vídeo apresenta dançarinos negros de forma sexualizada, sempre atrás dela e sem fazer nenhum contato com a cantora.

Dado esse contexto, a jornalista aconselhou que ela não continuasse falando sobre "intenção".

"É como um crime, muitas vezes a gente não tem a intenção, mas acaba atropelando uma pessoa na rua, nem todo mundo que atropelou alguém tinha a intenção de matar, mas terminou cometendo aquilo", comparou.

Assim que o papo terminou, Mallu se levantou para cantar novo single e fez a seguinte declaração:

"Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba."

A frase da cantora levou de imediato o debate feito durante o programa para outro rumo. Dessa vez, nas redes sociais. Ao longo do dia, Mallu Magalhães se tornou um dos assuntos mais comentados no Twitter, fazendo com que uma intensa discussão sobre o mito do racismo reverso tomasse conta da rede social

Sobre racismo reverso, a pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista negra Djamila Ribeiro já fez os seguintes apontamentos:

Não existe racismo de negros contra brancos ou, como gostam de chamar, o tão famigerado racismo reverso. Primeiro, é necessário se ater aos conceitos. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.

Para haver racismo reverso, deveria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de 300 anos da população branca, negação de direitos a essa população. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores, atrizes e apresentadores de TV? Dos diretores de novelas? Qual é a cor da maioria dos universitários? Quem são os donos dos meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento de outro.

Leia aqui o artigo completo publicado no site da revista Carta Capital em 2014.

LEIA MAIS:

- Esta é a 1ª vez em 15 anos que a Flip será mais negra e feminina

- 29 músicas que refletem o que é ser negro no Brasil

E se os negros fossem maioria em Hollywood?