ENTRETENIMENTO

'As pessoas resistem ao diferente', diz Gloria Perez sobre debate de gênero em 'A Força do Querer'

Em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil, autora fala sobre quebra de tabus e a batalha por justiça que travou nos anos 90.

22/06/2017 20:15 -03 | Atualizado 06/09/2017 11:24 -03
Estevam Avellar/Divulgação
"As pessoas [...] tendem a reduzir o mundo à dimensão de seu próprio umbigo."

Jade em O Clone, Dara em Explode Coração, Sol em América, Maya em Caminho das Índias e Morena em Salve Jorge. O universo criativo de Gloria Perez é habitado por mulheres fortes e fundamentais nas discussões de temas-tabus que a autora de novelas explora há quase cinco décadas no horário nobre da TV.

Essa lista de personagens de fibra ganhou novos nomes desde a estreia, há dois meses, de A Força do Querer, novela das 21h da Globo que goza da melhor audiência no horário desde 2013. Entre as personagens destemidas e cheias de personalidade do folhetim, destaca-se o trio Ritinha (Isis Valverde), Bibi (Juliana Paes) e Jeiza (Paola Oliveira).

Sereia que encantou dois homens, Ritinha tem características que intrigam o público. Sensível e emotiva, ela se mostra arrogante e mentirosa na mesma medida. Já Bibi, cuja narrativa é baseada em uma história real, descartou um amor e se entregou por completo a uma paixão que a levará ao poder no submundo do tráfico de drogas.

Enquanto isso, Jeiza, a policial e lutadora de MMA, mostra que é dona de sua própria história - uma autêntica mulher do século 21.

"Minhas protagonistas foram sempre mulheres fortes, intensas e politicamente muito incorretas: porque humanas. E foi a dimensão humana que sempre me interessou", conta Gloria Perez ao HuffPost Brasil.

Para a autora, a composição de personagens carrega muito de seus autores. "O que ele aprendeu, seja através de vivências pessoais, seja através da observação de vidas muito diferentes da sua", diz.

E quanto da própria Gloria existe na composição de mulheres cheias de nuances como Jeiza, Bibi e Ritinha? "Muito, é claro", responde.

Por meio dos folhetins, Gloria Perez já levou de forma pioneira ao público discussões sobre o universo drag queen, relacionamentos entre pessoas com grande diferença de idade e também do mesmo sexo.

Teria sido na novela América o primeiro beijo gay em horário nobre da teledramaturgia brasileira. Cortado da trama devido à reação da audiência, o gesto de afeto entre dois homens só seria visto pelo público quase dez anos depois, em 2014, em Amor à Vida, novela de Walcyr Carrasco.

Aos 68 anos, a autora se orgulha de propor discussões de tema-tabus, em suas palavras, sem "levantar bandeira". E explica: "Levantar bandeira, que eu digo, é tratar do assunto através de discursos das personagens em prol da causa. Nunca fiz isso em nenhuma das minhas campanhas: penso que a melhor maneira de defender uma causa é mostrar a situação vivida. Buscar a dimensão do humano".

Em A Força do Querer essa busca não não tem sido diferente.

Para a novela campeã de audiência, Gloria decidiu trazer à tona a questão de gênero. O público tem acompanhado aos poucos a jornada de desconforto de Ivana (Carol Duarte), uma jovem que não consegue se reconhecer no corpo de uma mulher.

TV Globo
Em sua estreia na TV, Carol Duarte interpreta a jovem Ivana.

Em outro núcleo está a travesti Elis Miranda, expulsa de casa depois que seu irmão descobriu sua identidade de gênero e que tenta tocar a vida no Rio de Janeiro como Nonato.

Reação negativa do público à história de Ivana não é uma preocupação da autora. Gloria acredita que seu método de abordagem da questão serve de antídoto contra o preconceito.

Ela esclarece: "Primeiro criando a empatia com o público, fazendo com que ele se reconheça nela enquanto ser humano. E depois, mostrando o que a faz 'diferente'".

No país que é apontado como o que mais mata transexuais no mundo, Gloria sabe que o caminho até o fim do estigma da mulher trans é longo. "As pessoas resistem muito ao 'diferente'. Tendem a reduzir o mundo à dimensão de seu próprio umbigo. A considerar, no mínimo exóticas, outras maneiras de viver, outras opções sexuais, outras culturas", reflete. "Através das novelas, temos contribuído bastante para quebrar essas resistências".

Antes de começar a escrever a novela, a autora trocou experiências com transexuais e travestis do Projeto Damas, no Rio. "As integrantes do projeto eram, em maioria, travestis em busca de inserção no mercado de trabalho", conta. Lá, a autora conheceu barreiras sociais específicas que uma mulher trans enfrenta para ter uma vida digna.

"Sua aparência, o contraste entre seu visual e os documentos de identidade, tudo isso constituindo barreira para que fossem aceitos os seus talentos naturais para diversos ofícios. E deixando a prostituição como sua única possibilidade de sobrevivência", completa.

Fábio Rocha / Gshow
"Minha luta foi por justiça para homens e mulheres e contra a impunidade de homens e mulheres."

Um batalha por justiça e contra a impunidade

Quando Gloria Perez afirma que as personagens empoderadas das tramas que escreve tem muito dela, fica claro a dimensão de sua força interior.

A vida pública da autora, como se sabe, é marcada por uma dolorosa história de perda. Em 1992, o ex-ator Guilherme de Pádua, junto com sua então esposa, Paula Nogueira, mataram a golpes de tesouras a filha de Gloria, a atriz Daniela Perez – casada na época com o também ator Raul Gazolla.

A vítima e o criminoso formavam o casal Bira e Yasmin na novela De Corpo e Alma, escrita pela própria Gloria. O crime chocou o Brasil. E o que se viu posteriormente foi a árdua batalha de uma mãe pela condenação do homem e da mulher que assassinaram sua filha.

Na era pré-internet, ela protagonizou uma grande conquista. "Encabecei uma campanha de assinaturas que resultou na primeira emenda popular da história do Brasil: a lei que inclui o homicídio qualificado na Lei dos crimes hediondos", recorda.

Na época, a autora não pensava em uma justiça especificamente para as mulheres."Minha luta foi mais ampla: por justiça para homens e mulheres e contra a impunidade de homens e mulheres".

Reprodução
Daniela Perez, filha da autora Gloria Perez, assassinada em 1992.

Em 1997, Guilherme de Pádua foi condenado a 19 anos e seis meses de prisão. No entanto, cumpriu apenas um terço da pena. Aguardou o julgamento também na cadeia e foi colocado em liberdade em 1999, depois de seis anos, nove meses e 20 dias da sentença.

Da década de 1990 até os dias de hoje, algumas coisas mudaram no âmbito da Justiça em casos de violência contra a mulher. Dois bons exemplos são a incorporação do feminicídio na legislação brasileira e a sanção da Lei Maria da Penha.

Gloria não considera tais mudanças um sinal de franca evolução do Brasil na proteção às mulheres. "Está em expansão uma consciência maior dessa violência, que não se expressa só fisicamente. Mas ela ainda está longe ainda de ser erradicada. As mentalidades mudam muito lentamente", pontua.

Ela acredita, no entanto, que a ampliação do mercado de trabalho para as mulheres, vista nas últimas décadas, "impulsiona essa conscientização". Mas sentencia: "Ainda temos um longo caminho pela frente".

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