POLÍTICA

Aeroporto, aviões e bafômetro: As controvérsias de Aécio Neves

O tucano, que quase chegou à presidência, acumula uma lista robusta de polêmicas, desde avião carregado de droga a caronas para amigos como Luciano Huck.

20/06/2017 17:47 -03 | Atualizado 20/06/2017 17:47 -03
Ueslei Marcelino / Reuters
Trajetória política de senador Aécio Neves é marcada por controvérsias.

Alvo de nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) coleciona controvérsias dentro e fora das delações premiadas. Mas antes mesmo das investigações Operação Lava Jato, o neto do ex-presidente Tancredo Neves protagonizou polêmicas.

Em abril de 2011, primeiro ano de seu mandato como senador, o tucano teve a carteira de habilitação apreendida por estar com o documento vencido e por se recusar a fazer o teste do bafômetro numa blitz no Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

O artigo 277 do Código de Trânsito Brasileiro estabelece que a recusa do motorista em fazer o teste do bafômetro é uma infração gravíssima a ser punida com perda de sete pontos, retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado e multa de R$ 2.934,70.

Segundo os policiais, o senador foi liberado por não apresentar sinais de embriaguez. Ele pagou um taxista para dirigir a Land Rover que conduzia até o prédio onde mora no Rio, a poucos quarteirões da blitz.

Em nota, a assessoria de imprensa informou que o senador não sabia que a carteira de habilitação estava vencida e que o bafômetro não foi realizado "uma vez constatado o vencimento do documento de habilitação e providenciado outro motorista para condução do veículo".

Aécio foi multado em R$ 1.149,24 (957,70 - valor da multa por se recusar a fazer o teste do bafômetro e R$ 191,54 pelo documento vencido, ambos valores da época) e perdeu 14 pontos na carteira, sete por cada infração.

Aeroporto

Em junho de 2014, época da campanha eleitoral para o Palácio do Planalto, reportagem da Folha de São Paulo revelou que o governo de Minas Gerais gastou quase R$ 14 milhões para construir um aeroporto dentro de uma fazenda de um parente de Aécio quando ele estava no segundo mandato como governador do Estado.

Reprodução/GoogleMaps

Pronto em outubro de 2010, o aeroporto no município de Cláudio, a 150 km de Belo Horizonte, era administrado por familiares do senador. O local não tinha funcionários e sua operação era considerada irregular pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

Na época, o parlamentar admitiu usar as pistas do local, mas disse desconhecer o fato de que a chave do portão ficava com sua família. A autorização da Anac para o aeroporto funcionar foi dada em outubro de 2016. Em 2015, o Ministério Público de Minas Gerais decidiu arquivar a investigação alegando que não havia irregularidades nem desvio de finalidade na obra.

Uma interceptação telefônica feita pela Polícia Federal em abril neste ano flagrou uma conversa de Frederico Pacheco de Medeiros, primo de Aécio, em que ele sugere a interlocutor que a chave do aeroporto estaria com um segurança do parlamentar.

O diálogo consta de um relatório anexado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao pedido de abertura de inquérito contra Aécio no STF no âmbito da Operação Patmos, a partir da delação premiada feito pelo grupo JBS.

O primo de Aécio foi preso em 18 de maio, após ser filmado buscando uma mala com R$ 500 mil em propina da JBS, supostamente a pedido do senador.

Caronas

Entre 2003 e 2010, época em que o tucano estava à frente do governo de Minas, aeronaves do estado foram cedidas para deslocamentos de políticos, celebridades, empresários e outras pessoas de fora da administração pública a pedido do então governador, de acordo com reportagem da Folha de São Paulo.

Foram 198 voos sem Aécio ou agentes públicos autorizados a usar as aeronaves, como secretários de Estado, vice-governador e o presidente da Assembleia Legislativa.

Dois dos voos foram usados pelo apresentador da Rede Globo Luciano Huck, amigo do tucano, para se deslocar de Belo Horizonte para o interior de Minas. Uma das viagens contou com a dupla Sandy e Júnior, que na ocasião gravava um quadro para o Caldeirão do Huck.

Reprodução

Também estão na lista o ator José Wilker, o ex-executivo da Rede Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, conhecido como Boni, o então presidente do grupo Abril, Roberto Civita e o ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Ricardo Teixeira, dentre outros.

Ao longo do mandato como governador, Aécio fez 124 viagens de Minas ao Rio de Janeiro, a maioria entre quinta e domingo Em 2008 e 2009 há ainda seis passagens para Florianópolis, onde morava a namorada e hoje mulher do tucano, a ex-modelo Letícia Weber.

O decreto do governo de Minas 44.028 e a resolução 3, ambos de 2005, definem que "a utilização das aeronaves oficiais será feita, exclusivamente, no âmbito da administração pública estadual (...) para desempenho de atividades próprias dos serviços públicos."

Na época, a assessoria do senador informou que "todos os voos foram regulares, dentro das normas legais e atenderam a interesses da administração do Estado."

Drogas

Outra controvérsia com o nome do parlamentar trata de suposto envolvimento com drogas. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura em junho de 2014, Aécio negou ser usuário de cocaína.

Claro que não. Eu tenho uma vida da qual me orgulho muito. Sou um homem do meu tempo. Nunca vesti o figurino de um político tradicional. Nunca deixei de ter minhas relações pessoais. Nunca deixei de ser alguém de bem com a vida.

De acordo como o senador, a acusação é um boato do "submundo da internet" plantada por seus opositores.

Os que me conhecem vêm me reelegendo há 30 anos e me dando todas oportunidades que tive até hoje. Infelizmente não conseguem dizer que sou desonesto efetivamente, que sou incompetente. Mas de alguma forma os ataques têm que vir.

Em uma escuta flagrada pela Polícia Federal nas investigações da Lava Jato, o senador Zezé Perrella fez piada com Aécio do episódio de uma operação que apreendeu 445 kg de cocaína em seu helicóptero, em 2013.

Na conversa, o tucano cobra apoio de Perrella após o peemedebista dar uma entrevista a uma rádio em que disse que não estava na lista da Odebrecht. "Eu posso ter sido infeliz [na entrevista], mas é que eu sou muito agredido até hoje por causa do negócio do helicóptero, sabe Aécio? Eu não faço nada de errado, eu só trafico drogas", disse Perrella, provocando risadas de Aécio.

Em nota, a assessoria do peemedebista afirmou que o diálogo refere-se "ao fato de que, mesmo após ter sido comprovada sua inocência, lamentavelmente, a imprensa ainda insiste em associar o seu nome ao caso".

Não foram achados indícios de autoria de Perrella ou do filho, Gustavo, no caso e, por isso, eles não responderam judicialmente.

Lava Jato

No âmbito da Lava Jato, o parlamentar é investigado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, obstrução à Justiça e caixa dois.

Em delação premiada, o dono do frigorífico JBS Joesley Batista afirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) que o senador pediu R$ 2 milhões. O dinheiro seria para pagar despesas judiciais. Nessa mesa ação, a irmã do tucano, Andrea Neves, foi presa por suspeita de intermediar a propina de R$ 2 milhões. Ela teria ainda pedido à JBS R$ 40 milhões para comprar apartamento para a mãe no Rio de Janeiro.

Em diálogo interceptado pela Polícia Federal entre o senador o empresário, Aécio usa diversos palavrões em defesa do interlocutor e para atacar a Polícia Federal, que semanas antes deflagrou a Operação Carne Fraca, em que o frigorífico era um dos alvos.

De acordo com a delação da JBS, o presidente Michel Temer pediu ao tucano que o PSDB retirasse a ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pedia a cassação da chapa que elegeu o peemedebista com Dilma Rousseff (PT), em 2014.

Também de acordo com as investigações, o senador pediu ao ministro do STF Gilmar Mendes que ajudasse na articulação política para aprovar projetos de lei no Senado considerados afrontas à Lava Jato.

Na delação da Odebrecht, que originou cinco inquéritos no Supremo contra o tucano, Aécio é suspeito de receber vantagens indevidas e de fraudar licitações em Minas Gerais, quando era governador, em troca de propina.

Segundo os delatores, em 2007, o tucano organizou um esquema para fraudar processos licitatórios, por meio de um cartel de empreiteiras, na construção da chamada Cidade Administrativa, em Belo Horizonte.

A Lava Jato apura ainda se o parlamentar recebeu propina de Furnas, empresa de economia mista subsidiária da Eletrobras. A acusação foi feita pelo senador cassado Delcídio Amaral (ex-PT), em delação.

Aécio nega todas as acusações e se diz vítima de uma "armação". De acordo com o senador, as acusações não se sustentam e são baseadas apenas em depoimentos.

Histórico

Nascido em 10 de março de 1960 em Belo Horizonte (MG), o neto do ex-presidente Tancredo Neves, iniciou o envolvimento com a política ao participar da campanha do avô para o governo de Minas Gerais, em 1982.

Ele ganhou projeção ao lado de Tancredo, eleito de forma indireta para a Presidência da República em janeiro de 1985, e com a própria morte do avô, em abril daquele ano, antes mesmo de tomar posse.

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Aécio foi deputado federal de 1987 a 2002, presidente da Câmara de 2001 a 2002, governador de Minas Gerais de 2003 a 2010 e senador desde 2011. Em maio deste ano, ele foi afastado do cargo pelo STF.

Em outubro de 2014, o tucano perdeu a disputa pelo Palácio do Planalto para Dilma Rousseff, em segundo turno, por uma diferença de 3,4 milhões de votos.

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