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'O opressor me deu a luta': O feminismo e a militância LGBT de Daniela Mercury

Em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil, cantora fala sobre política, feminismo, militância e o amor por Malu Verçosa.

16/06/2017 20:07 -03 | Atualizado 18/06/2017 13:05 -03
Dario Oliveira /Anadolu Agency/Getty Images
"Estou cada dia mais apaixonada por Malu, mas não sei se é porque ela é mulher, ou não. Não importa, é porque ela é Malu"

Daniela Mercury, aos 51 anos e com mais de 32 de carreira, conquistou o título de 'rainha do axé' no Brasil e hoje, mais do que nunca, quer se expressar e firmar a liberdade do próprio pensamento seja por meio da música ou da militância. "Estimular as pessoas a amar e ser livre é lindo", conta, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Desde 2013, a carreira musical e a vida da cantora se tornaram uma espécie de manifesto espontâneo que deu ainda mais visibilidade a causas que são caras à sociedade. Naquele ano, Daniela tornou público o seu relacionamento com a jornalista Malu Verçosa ao publicar uma foto no Instagram, com a legenda: "Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar".

A união virou assunto do Jornal Nacional, do Fantástico e também foi parar na capa de duas revistas semanais, devolvendo à cantora uma visibilidade até então não imaginada -- e que ela somente tivera ao longo da década de 1990, quando se tornou o nome mais popular e com maior prestígio dentro do universo do axé music no Brasil e no mundo.

"A gente [Daniela e Malu] encorajou as pessoas a fazerem coisas por si mesmas, não só na causa LGBT, para elas conseguirem dizer que são homossexuais e que vão se casar com pessoas do mesmo sexo; mas também para que todas as pessoas saibam que elas podem fazer qualquer coisa, que não existem barreiras. É para isso que eu vivo, sabe?", defende.

Ao longo dos últimos quatro anos, Daniela, que já tinha um caminho traçado como embaixadora da UNICEF no Brasil, se tornou uma das vozes mais relevantes na luta contra o preconceito dirigido à população LGBT. Ao lado de Malu, ela é embaixadora da campanha Livres & Iguais, da ONU que, inclusive, já recebeu um beijo das duas em cerimônia solene na sede da organização, em Nova York.

O mesmo beijo também chegou em forma de protesto no Congresso Nacional, aqui no Brasil, quando o fundamentalismo do pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP) chegava à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, retirando da agenda do Legislativo a promoção da igualdade para homossexuais.

"Quem tem mais poder diz o que é certo e errado. Inclusive sobre a sexualidade do outro. E eu acho que a gente está em um momento muito interessante, de derrubar todas essas construções culturais equivocadas. E, repensar, o que é certo e o que é errado", afirma.

Em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil -- que mais pareceu um monólogo, com pequenas interrupções da reportagem -- a cantora que será uma das atrações da Parada LGBT que acontece neste domingo (18), em São Paulo, contou que é "feminista desde pequenininha", falou sobre as posições que têm tomado na vida, na carreira e que vão de encontro à luta por direitos.

Leia a entrevista completa:

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Daniela Mercury durante gravação do DVD "O axé a voz e o violão" no Teatro Porto Seguro em Novembro de 2016, em São Paulo.

Eu não tinha nada para assumir

"Quando eu falei de minha relação com Malu [em 2013], eu noticiei, obviamente, sabendo... Enfim, algumas pessoas já sabiam que eu namorava com uma mulher, mas eu sabia que poderia ser surpresa para outras pessoas. É... Porque muitos artistas não falam claramente sobre o assunto, né? Fala-se sempre do outro. Falar de si é algo muito... É de cada um, né? É da escolha de cada um. E, pensando nisso, eu não vejo a necessidade de usar a palavra 'assumir', porque eu não tinha nada para assumir. Eu só falei publicamente que estava em um relacionamento com uma mulher. A sociedade estabeleceu algumas paredes morais, inventou limites para a sexualidade humana. Quando, na verdade, nada no ser humano está limitado. Estou cada dia mais apaixonada por Malu, mas não sei se é porque ela é mulher, ou não. Não importa, é porque ela é Malu."

É para isso que eu vivo, sabe?

"A gente [Daniela e Malu] encorajou as pessoas a fazer coisas por si mesmas, não só na causa LGBT, para elas conseguirem dizer que são homossexuais e que vão se casar com pessoas do mesmo sexo; mas também para que todas as pessoas saibam que elas podem fazer qualquer coisa, que não existem barreiras. É para isso que eu vivo, sabe? Eu fico lisonjeada e com uma felicidade tremenda em fazer parte de algo libertador. Toda hora vem alguém e me diz 'muito obrigada'. Eu nem sabia que queria fazer isso e fiz e meu Deus, que coisa boa! Eu queria ser uma artista e iluminar o mundo. Eu quero demais me solidarizar com as lutas que são muito mais difíceis do que as minhas. E estar ali, como parte do exército... Eu sou linha de frente de um exército de todos que lutam pelos direitos humanos."

Divulgação
Daniela Mercury divulgou publicamente em um post no Instagram, em 2013, que estava namorando Malu Verçosa.

O palco nunca me trouxe barreiras

"Eu acho que a experiência de vivenciar o lado do preconceito, isso sim é uma coisa nova para mim. Isso é um outro lado. A homofobia, ela é tão velada, né? A questão LGBT sempre foi tão velada, tão às escondidas, pouco verbalizada em determinados setores da sociedade. Mas no meu meio artístico, não. Sempre foi muito natural. O palco para mim nunca teve paredes, nunca estive dentro de armários. Olhe, eu vou usar uma frase do ministro Carlos Ayres Britto, porque ele é de uma precisão... Ele me disse: 'Daniela, a arte personifica as coisas, né. E o capitalismo coisifica as pessoas'. Então a gente vive sempre colocando os interesses econômicos, de alguns grupos no lugar do interesse da maioria da população. E isso é uma coisa muito séria. Mas é como a sociedade foi organizada. Quem tem mais poder diz o que é certo e errado. Inclusive sobre a sexualidade do outro. E eu acho que a gente está em um momento muito interessante, de derrubar todas essas construções culturais equivocadas. E, repensar, o que é certo e o que é errado."

Quem põe no armário é a sociedade

"A gente tem uma sociedade que maltrata tanto as mulheres, que dificulta tanto a vida dos LGBTs e dos negros... Hoje eu li duas notícias muito semelhantes no absurdo: o pai de uma criança, em São Paulo, foi abordado por um segurança no shopping para saber se a criança que estava ao lado dele estava lhe importunando. Era uma criança negra. E lá no Rio de Janeiro, um segurança tirou o sorvete da mão de uma criança e manda ele sair dali. De novo, uma criança negra. Então, quer dizer... A que ponto chegamos? Quanta ignorância, quanto equívoco, quanta cegueira social. E como a gente mente para poder tornar alguns invisíveis sociais. Quantas vezes, a gente, desde criança, não foi treinada para reproduzir isso? E botando as pessoas no armário? Quem põe no armário é a sociedade. Quem põe paredes, quem põe limites, quem põe celas, quem cria prisões, quem define é a sociedade. Cada um de nós cai na armadilha de alguma coisa: da homofobia, do machismo, do racismo; nas posturas que temos e que não percebemos o quanto elas ajudam a perpetuar a violência."

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Aos 51 anos, Daniela coleciona, em 32 anos de carreira um repertório imenso, se autodenomina a "A Rainha do Axé" e fez até música homônima.

Como é difícil desnaturalizar a violência

"Foi trabalhando como embaixadora da UNICEF que eu percebi o quanto a sociedade naturaliza a violência e como é difícil a gente desnaturalizar isso. Como é difícil falar sobre o assunto, confrontar os opressores, punir os agressores, constrangê-los... Mas também me fez perceber como isso funciona e como a sociedade percebe que ela é opressora também. O tempo todo a criança, a mulher, o negro, o LGBT é colocado no lugar de vítima. E isso é tanto, que eles são impedidos de realizar seus sonhos. Na corrida da vida, eles largam 100 passos atrás de um homem branco e hétero, por exemplo. A opressão é tanta, que você acredita que você é menor, menos do que o outro. Eu acho que a grande luta de quem está nessa situação é sobreviver. Eu acho que é como se você estivesse o tempo todo nadando contra a corrente e lutando para não se afogar. Aí quando você consegue colocar o rosto fora d'água, as pessoas te empurram para baixo de novo."

Todos queriam desejar por mim

"E a gente, que é mulher, sabe disso. A mulher já tem que fazer o dobro do esforço para conseguir um cargo, o triplo de esforço para conseguir o mesmo salário, né. E a gente quase se escraviza no trabalho para conseguir mostrar que é intelectualmente equivalente aos homens. Aí eu escuto: 'Ai, mas que coisa chata esse negócio de feminismo!'. Olha, Andréa, eu vou te dizer uma coisa: desde os meus 10 anos e pouco, por aí, eu já dizia que eu era feminista. Eu li os Cadernos de Pagu, Simone de Beauvoir, Camile Paglia, tudo com 16, 17 anos de idade. E eu não parei mais de ler sobre o poder das mulheres, sobre tudo o que elas estavam passando, fazendo. As compositoras brasileiras, Carmem Miranda, Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran... Mergulhei na história das mulheres na música popular brasileira para ver o que eu, Daniela, poderia fazer com o conhecimento delas. Hoje, com 51 anos, depois de 32 anos de carreira, eu me acho extremamente jovem mas, ao mesmo tempo, às vezes me sinto exausta de ter sempre que fazer um esforço imenso pra me fazer compreender e traçar um caminho de encontro aos meus desejos. Isso porque todos queriam desejar por mim. Todos os homens que estiveram perto de mim, sem exceção. E eu mal entendia que era isso, que eles esperavam de mim uma subordinação. Isso estava tão implícito, tão fora do meu escopo de possibilidades, que eu não conseguia... Que não importava o tamanho da parede que eu tivesse, eu vencia. E eles se zangavam comigo e diziam: 'Mas, Daniela, você tem argumentos para tudo!'. E eu dizia: 'Sim, tenho. Me tragam melhores, então, que, provavelmente eu vou acolher porque estou aqui para aprender'."

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Há 20 anos, Daniela é embaixadora da UNICEF e tem um papel significativo na luta por direitos humanos ligadas à instituição.

Ser politicamente correto é ser bom

"Outro dia, eu estava em um seminário LGBT em São Paulo, e as pessoas começaram a falar sobre o que é politicamente correto fazer ou não... E eu peguei e disse a elas: 'O que é politicamente correto é ser bom. É ter bondade'. É porque a bondade não é nada muito mais do que o respeito, né, Andréa? Se você fala que você tem que ter respeito pelas coisas parece que você tem que respeitar racionalmente. A gente pode errar, mesmo, porque são hábitos, são vícios, e a gente vai tirando, aos poucos, do nosso quotidiano, do nosso vocabulário as palavras erradas, os pensamentos, as atitudes... Isso é normal. A gente passa a vida toda assim, revendo hábitos. Porque, no fundo, quando é uma questão LGBT, uma questão contra o racismo, contra o machismo... Todos caímos no erro. Tudo isso está impregnado em nós. A gente precisa urgentemente de uma lei contra a homofobia. Existem muitas coisas pendentes ainda na política que precisam ser resolvidas, por exemplo."

A solução é todo ser humano ser um educador

"Em um grupo do Whatsapp de mães da escola das crianças (que é uma escola construtivista, com poucos alunos por sala), nós recebemos um recado que era o seguinte: para que todas as mães não assistissem, e não deixassem seus filhos assistirem à novela porque apareceria um beijo entre duas mulheres logo no primeiro capítulo, e que cenas de lesbianismo não eram bem-vindas na casa das pessoas. Foi aquela novela em que a Fernanda Montenegro e a Nathália Timberg eram casadas, lembra? Ora, quer dizer... Nós fizemos um trabalho de educação dentro do grupo dizendo que aquilo não feria a moral de ninguém, e que era uma situação que precisava ser confrontada e explicada para as crianças de forma correta. 99% das pessoas nos deram razão e até a mãe que falou essa besteira foi obrigada a refletir. E pode ser que ela mude de opinião, pode ser que não. Algumas pessoas não querem sair do lugar de conforto, de segurança, tem gente que não tem educação para a democracia, para a diversidade, para qualquer tema que seja fora de seu feudo. E os seres humanos são assim, frágeis, né. Mas a gente pode tentar resolver as coisas de uma forma civilizada. A solução é todo ser humano ser um potencial educador. Todo mundo quer ser feliz, todo mundo quer paz. Mas eu ainda acho que o mundo seria muito chato se todo mundo fosse igual [risos]."

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Dena Kaye, Daniela Mercury, Kristian Kristov, Angelique Kidjo e Menchi Barriocanal no lançamento da campanha #IMAGINE, da UNICEF, em 2014, em Nova York, nos Estados Unidos.

Os jovens estão ensinando os mais velhos

"Você fala de um movimento conservador... Mas pense, Andréa, em uma sociedade tão livre, que todo mundo transa com quem quer, onde as gerações estão mais livres, falantes, se comunicando democraticamente nas redes, que ninguém mais pode esconder tanto as coisas, como é que os conservadores sobrevivem? Essas pessoas ficam em um lugar muito incômodo e, então, por isso, elas querem ser vistas. Elas querem fazer um barulho. Mas eu penso que a grande maioria -- mas a maioria real das pessoas -- é a favor da liberdade, e quer que as pessoas vivam da maneira que bem entenderem, sem barreiras. E eu acho ainda, por isso, que os mais velhos têm obrigação de serem menos preconceituosos, porque conhecem mais a vida, conhecem mais o ser humano, já passaram por mais experiências. E, na verdade, os jovens estão dando um banho, né?! Estão ensinando os mais velhos. Eles acham que só pela idade eles sabem as coisas e eles não estão sabendo é nada. Estão se sacudindo para viver em um mundo que mudou. Eu acho que o mundo mudou, sim. E quem quiser que se mude junto [risos]. Você não vê a postura do Papa? Eu vivi para ver isso. Eu sou muito católica e eu não esperava por menos."

Nós estamos com direitos arriscados

"Eu sempre fui educada por muitos artistas, Andréa. Que me ajudaram a ver como o mundo é. E isso precisa ser feito. Celebrado. Porque nas outras áreas tem muita manipulação. E nesse ponto a nossa cultura atrapalha e muito. Querer insistir e dominar através de um autoritarismo é algo que o Brasil ainda insiste. A gente tem que ter muito cuidado com o Congresso Nacional, com o Senado, em todos os sentidos. Não só nas questões LGBT... Eles são, em sua maioria, homens brancos, héteros, cis e acabam determinando tudo apenas por uma única visão que, muitas vezes, é preconceituosa e define o que deve e do que não deve acontecer na sociedade. Então a gente tem que tomar cuidado com retrocessos. Porque esse governo Temer está deixando de fazer mudanças importantíssimas para a sociedade. Essa questão do aborto, por exemplo. Nós estamos com nossos direitos arriscados. Eu sou a favor das mulheres decidirem se querem abortar ou não. A mulher precisa poder escolher. É pela liberdade de ter poder sobre o próprio corpo. Então, isso é uma coisa muito séria para se pontuar. Sem falar nas leis contra a transfobia, homofobia, lesbofobia, todas as fobias relacionadas à sexualidade, e isso é uma coisa urgente porque o Brasil é o País que mais mata pessoas trans no mundo. É por isso que precisamos de Parada LGBT todo dia, Diretas Já todo dia: para eles verem que a sociedade não quer o que está sendo imposto e que a gente não vai aceitar esse lugar."

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"Enquanto tiver gente sofrendo a gente tem coisa para fazer", afirma Daniela em entrevista ao HuffPost Brasil.

Eu tenho o poder de luta

"Eu me sinto extremamente privilegiada em poder lutar por direitos. Não é isso que me tira dos privilégios que eu sempre tive, nem vou deixar de ser Daniela Mercury, porque nada muda, sempre fui quem sou. Mas fico lisonjeada em poder lutar por uma causa com tanto poder. E é o poder, não é? Eu tenho o poder de luta. A sociedade me deu isso. O opressores me deram a luta. Me deram uma luta muito bonita. Enquanto tiver gente sofrendo a gente tem coisa para fazer. E eu tô [sic] achando muito massa todo esse momento, como dizem aqui na Bahia. Eu acho que, de alguma forma, está tendo ao mesmo tempo uma crise e uma mudança profunda também. Não sei até onde vamos nessa profundidade, mas eu acho que estamos tendo coragem de falar mais sobre esses assuntos. O problema é só a gente começar a achar que o problema está resolvido. A gente mexe no inconsciente coletivo, onde está escondido o que as pessoas não querem ver. É preciso cuidado."

Cada um tem a sua história

"Já que eu estou falando com uma jornalista jovem, de um meio de comunicação digital, eu convoco as pessoas, no dia da Parada LGBT, a fazerem suas manifestações nas redes mas não só para saudar a diversidade, mas também para contar a sua história -- cada um tem o seu próprio tema frágil, tem a sua violência sofrida. Que faça um post, uma manifestação simples ou profunda, que compartilhe sua história, que as pessoas realmente se politizem em todos os sentidos, porque isso é muito importante para a democracia. Os políticos têm medo da gente. Nós somos os patrões deles."

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