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O livro de ficção que ganhou um Pulitzer ao expor o medo e o racismo nos EUA

Colson Whitehead, escritor vencedor do Pulitzer fala sobre narrativa de ‘The Underground Railroad’ em entrevista ao HuffPost Brasil.

19/06/2017 17:13 -03 | Atualizado 19/06/2017 19:01 -03
Frank Lojciechowski
‘Temos vários líderes racistas’, diz o autor.

Nem ver de perto um escravo ser torturado e queimado vivo faz Cora, a protagonista do romance The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade (HarperCollins, 2017), desistir da ideia de fugir da plantação de algodão na qual ela é refém.

O desejo por liberdade da personagem impulsiona a jornada dela, que o escritor norte-americano Colson Whitehead, 47, conta em seu novo e elogiado livro vencedor do Pulitzer 2017. A adolescente rejeita a identidade de escrava que lhe é imposta e foge na companhia de um colega, Caesar. Há muitos riscos na empreitada – o violento dono da fazenda deixa isso claro ao fazer as atrocidades descritas acima com um escravo que consegue fugir, mas é encontrado – e um caçador parte em busca de ambos, mas a ânsia por ser livre fala mais alto.

"Cora começa na história como uma propriedade. Depois, ela vai para o norte e descobre ideias diferentes sobre liberdade e individualidade", afirma Whiteheadem entrevista ao HuffPost Brasil.

Ao chegar às prateleiras dos Estados Unidos em 2016, Underground Railroad deixou o universo literário em polvorosa. A crítica tem feito elogios rasgados à obra, seja pela prosa envolvente do autor, a abordagem criativa do tema ou os elementos de fantasia usados na narrativa.

A "underground railroad" ("ferrovia subterrânea", em tradução para português) é uma metáfora que também tem sido objeto de adoração. Na história dos EUA, trata-se de uma rota usada por escravos em fuga no século 19, na qual eles podiam contar com assistência de abolicionistas e negros livres, por exemplo. Na ficção de Whitehead, é literalmente uma ferrovia subterrânea, usada por Cora e Caesar para ir ao Norte, após escaparem da plantação dos Randall no estado da Geórgia.

Divulgação/Harper's Collins
The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade tem 320 páginas, custa R$ 44,90 e já está disponível nas lojas.

Vencedor dos principais prêmios literários, o Pulitzer de ficção e o National Book, Underground Railroad – o sexto romance e o oitavo livro publicado do autor – reflete sobre os diversos horrores da escravidão e traça paralelos com os EUA dos dias de hoje, em plena gestão de Donald Trump e intensas manifestações do movimento Black Lives Matter.

"O racismo, o nativismo e o medo do outro foram longe demais", comenta, a respeito da vitória do republicano.

O livro de Whitehead surge neste momento em que vozes negras estão em destaque na cultura pop. Seja na música de Beyoncé e Kendrick Lamar; no filme vencedor do Oscar Moonlight: Sob a Luz do Luar, com um protagonista negro e gay; nas séries de TV, com os rappers em busca de ascensão em Atlanta; ou na literatura, com nomes como Chimamanda Ngozi Adichie e Ta-Nehisi Coates (que também tem escrito os quadrinhos de Pantera Negra, o super-herói da Marvel).

A busca de Cora pela liberdade, por sua vez, tem atingido cada vez mais pessoas. Segundo a Doubleday, editora original de Underground Railroad, até abril deste ano mais de 825 mil cópias foram vendidas. Oprah Winfrey escolheu a obra para seu clube do livro e Barack Obama a colocou em sua lista de leituras de verão de 2016. Agora, a história de Cora irá para a TV: Barry Jenkins, diretor de Moonlight, trabalha em uma minissérie para a Amazon Prime Video inspirada na obra de Whitehead.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: A personagem de Cora nega a identidade de escrava que lhe é imposta. Ela foge da plantação e, ao fazer isso, parece estar em busca de identidade, não apenas de liberdade. Para você, essas duas coisas têm relação?

Colson Whitehead: Sim. Cora começa na história como uma propriedade. Depois, ela vai para o norte e descobre ideias diferentes sobre liberdade e individualidade. Cora vive experiências diferentes nas quais ela é testada, e a percepção que ela tem de si mesma se expande. A noção de individualidade dela se engrandece. No caso de Cora, identidade e liberdade estão entrelaçadas, em termos da história de uma escrava fugindo para o norte.

Cora parece acreditar que vive no "mundo dos homens brancos". Você crê que, hoje, negros vivem em um mundo dominado por homens brancos?

Se você olhar uma foto dos congressistas e dos senadores dos EUA, sim, pois a maior parte de nossos líderes e grandes empresários é branca.

Seu livro foi publicado poucos meses antes de Donald Trump assumir a presidência dos Estados Unidos, o que aconteceu logo em seguida à gestão de Obama. O que você acha que fez Trump ser eleito?

Bem, nós temos vários líderes racistas. E parece que os piores instintos dos cidadãos americanos [entraram em cena], assim como em vários outros países. O racismo, o nativismo e o medo do outro foram longe demais.

The Underground Railroad está sendo adaptada para uma minissérie dirigida por Barry Jenkins, que venceu o Oscar neste ano. Como você se sente diante disso?

Muito emocionado. Espero que dê certo. Ele me abordou quando o livro tinha acabado de sair, antes de Moonlight ser exibido em festivais. [Jenkins] foi bastante persuasivo e tinha boas ideias. Então, no mês seguinte, Moonlight estreou e só cresceu e cresceu. Acho que ele tem tido um ótimo ano e, com esperança, alguma dessa sorte vai cair sobre a minissérie. Ele é bem capaz e estou interessado para ver o que vai fazer com isso.

Você gostou de Moonlight?

Sim. Acho que é um ótimo filme. Eu o vi na pequena caixa de meu computador antes da estreia. Foi o primeiro filme [de Jenkins] que vi e fiquei bastante surpreso. Acho ótimo o sucesso que ele tem tido com Moonlight.

Você vai se envolver com a produção da série?

Não. Tenho viajado bastante e trabalhado em um novo livro. Talvez eles me liguem uma ou duas vezes para falar a respeito de algumas partes do livro que gerem algumas perguntas. É um projeto deles e fico feliz por esperar o que eles farão com isso.

The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade tem 320 páginas, custa R$ 44,90 e já está disponível nas livrarias brasileiras.

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