MUNDO

6 razões pelas quais combater o terrorismo mundial é tão desafiador

4. Os grupos terroristas não são todas iguais.

13/06/2017 20:17 -03 | Atualizado 13/06/2017 20:17 -03
REUTERS/Hannah McKay
Policiais depois do ataque na London Bridge, em 4 de junho de 2017.

Gary LaFree, professor de Criminologia e Justiça Criminal, Universidade de Maryland

Uma pesquisa do Centro de Pesquisas Pew, de janeiro de 2017, mostrou que os americanos querem que o terrorismo seja prioridade número 1 na agenda da administração Trump e do Congresso. A população coloca o tema à frente da economia, educação, emprego e custos de assistência médica.

Sendo diretor do Consórcio Nacional para o Estudo e Respostas ao Terrorismo nos últimos 12 anos, trabalhei com colegas para melhorar o entendimento do terrorismo, estudando suas causas e consequências. Um de nossos maiores e mais extensos projetos envolveu a compilação de todos os ataques terroristas ocorridos em todo o mundo desde 1970 na Base de Dados do Terrorismo Global (GTD, na sigla em inglês).

Com base neste trabalho, seis questões se destacam como os principais desafios para o desenvolvimento de uma política eficaz de combate ao terrorismo.

#1: O terrorismo é raro

AP Photo/Kathy Willens

Na maioria dos lugares e épocas, o terrorismo é um evento incrivelmente raro. Em vários anos recentemente, ocorreram menos de 25 ataques terroristas nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, ocorrem anualmente 13.000 homicídios e 360.000 assaltos nos EUA. Nos últimos anos, acidentes de trânsito em todo o mundo tiraram a vida de cerca 100 vezes mais pessoas do que aquelas mortas por terroristas.

Mesmo grupos importantes como o Al-Qaida foram responsáveis por apenas 59 ataques durante toda sua existência e apenas cinco ataques desde 2008. O fato que o terrorismo seja tão raro significa que temos uma capacidade limitada de fazer análises estatísticas e tirar conclusões de política geral.

#2: Ataques em massa são ainda mais raros

Embora o terrorismo seja raro, ataques em massa com vítimas fatais são ainda mais raros. Mais da metade de todos os ataques terroristas no GTD desde 1970 não registrou vítimas fatais. O GTD identifica apenas 17 ataques a nível mundial com mais de 300 mortes. Dos mais de 156.000 ataques terroristas no GTD, o ataque coordenado de 11 de Setembro, que tirou a vida de quase 3.000 pessoas, ainda é o atentado que causou mais mortes na história moderna.

Além do 11/9, nenhum ataque em solo americano matou mais de 200 pessoas em um período de 50 anos. O que chegou mais próximo da marca foi o de Oklahoma City, cuja explosão de uma bomba detonada por Timothy McVeigh matou 168 pessoas em 1995.

Como alguns ataques com vítimas fatais que são altamente incomuns causam muita preocupação, as políticas terroristas tendem a ser baseadas em eventos extremamente raros e incomuns em vez dos milhares mais comuns, mas menos espetaculares. Em minha opinião, as políticas baseadas em eventos extremos podem ter sérias implicações e, talvez, imprevistas.

#3. A prevenção está melhorando

Um crescente número de ataques terroristas — especialmente nos EUA e Europa Ocidental — está sendo impedido ainda em fase de planejamento. Esta, com certeza, é uma boa notícia em termos de proteger os cidadãos e salvar vidas. Outra consequência é que os formuladores de políticas têm diminuído as informações sobre a real seriedade das ameaças, porque os agressores estão sendo impedidos antes de os planos serem materializados.

REUTERS/Feisal Omar

#4. Os grupos terroristas não são todas iguais

As organizações terroristas são extremamente diversas, o que torna as generalizações ainda mais difíceis.

Quando a maioria das pessoas pensa em grupos terroristas, uma imagem vem à mente de alguma entidade bem organizada e altamente conhecida como o Estado Islâmico ou o Al-Shabab. Na verdade, é difícil generalizar sobre grupos terroristas. Em um extremo, são indivíduos que não têm vínculos reconhecidos com uma organização terrorista — os chamados lobos solitários. No outro, estão os grupos altamente organizados que persistem ao longo do tempo, têm uma rede altamente definida de comando e uma liderança estável. Entre essas duas pontas existem pequenos grupos conectados como também redes sombrias — por exemplo, os neonazistas ou islamitas radicais. Todas essas diversas entidades estão tipicamente em um estado de fluxo. A mudança é constante; a estabilidade é rara.

Das mais de 2.300 organizações terroristas identificadas no GTD desde 1970, quase 70% haviam sido constituídas a menos de um ano. As organizações terroristas são um pouco como as startups: a maioria desaparece no primeiro ano de operação. Uma coisa é responder a um grupo bem organizado, com uma clara liderança, uma rede de comando e uma associação identificável. Mas as respostas são muito mais complicadas quando não há uma organização central, nenhum líder identificável ou apenas um grupo mal definido com diferentes conexões e compromissos passando por constante mudança.

#5. Atribuir responsabilidade é difícil

Atribuir responsabilidade em um ataque terrorista é, muitas vezes, ambíguo ou impossível.

Dados do GTD mostram que nenhum grupo terrorista pode ser responsabilizado em quase 60% dos milhares de ataques que ocorreram mundialmente desde 1970. Os ataques podem ser lançados por solitários que estão trabalhando mais ou menos independentemente de qualquer grupo específico. Em outros casos, mais de um grupo pode assumir a autoria do ataque. Ou um grupo pode assumir a autoria quando, na realidade, não tinha nenhuma conexão com o ataque ou um grupo pode afirmar incorretamente que outro grupo foi o responsável.

Analistas podem simplesmente nunca ter informação suficiente para chegar a uma conclusão ou distinguir entre grupos rivais.

Depois de um ataque terrorista, os governos estão sob enorme pressão para identificar o culpado e oferecer uma resposta rápida. Mas como as autoridades podem punir os infratores e impedir que outros se envolvam em ataques terroristas quando nunca sabem com certeza quem é o culpado?

#6: Ainda estamos desenvolvendo uma estratégia

Por fim, embora pesquisadores estejam avançando no desenvolvimento de um arcabouço para o estudo científico do terrorismo, o estudo do antiterrorismo está apenas começando. Ainda que seja difícil conseguir uma compreensão precisa das ameaças terroristas, é ainda mais difícil avaliar as estratégias usadas pelos governos para combater o terrorismo. Governos são extremamente sigilosos sobre suas políticas antiterrorismo e estratégias. E, certamente, não há nada parecido a uma base de dados mundial sobre estratégias de combate ao terrorismo e sua eficácia.

Melhores políticas

A ameaça terrorista nos EUA é episódica, esporádica e inconsistente. Muito frequentemente, as políticas reagem ao medo em vez de estimativas de ameaça reais. Por exemplo, não há evidência empírica para sustentar a recente decisão do Presidente Trump de banir cidadãos de seis países de maioria muçulmana de entrar nos EUA, em nome de prevenir a infiltração terrorista. O decreto de Trump, de março de 2017, suspenderia a entrada de pessoas do Irã, Líbia, Somália, Síria e Iêmen. Mas nem um desses países esteve envolvido em um ataque terrorista fatal nos EUA desde o 11/9.

Além disso, essas políticas são difíceis de serem desfeitas. Por exemplo, o USA Patriot Act, aprovado no caótico contexto do 11/9, foi designado para "deter e punir atos terroristas", mas foi rapidamente expandido por autoridades de aplicação da lei para mover processos contra delitos de drogas e outros crimes não relacionados ao terrorismo. Tal expansão aumenta as preocupações sobre privacidade e o poder do governo federal.

Uma política bem-sucedida requer coletar a melhor informação possível, honestamente acessando-a e evitando uma reação exagerada.

*Este texto foi originalmente publicado no The Conversation e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Esqueça muito do que você leu por aí sobre a Venezuela

- Esqueça o Islã, o que os terroristas realmente têm em comum é outra coisa