POLÍTICA

O que está em jogo na decisão do PSDB de romper ou não com Temer em 5 pontos

Principal aliado decidiu permanecer com governo por enquanto. A legenda não quer se contaminar com denúncias, mas precisa de apoio em 2018.

12/06/2017 21:51 -03 | Atualizado 13/06/2017 10:05 -03
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Principal aliado do governo de Michel Temer, PSDB não quer se contaminar com denúncias, mas precisa de apoio em 2018.

Partido derrotado nas eleições presidenciais de 2014 e um dos principais articuladores do impeachment de Dilma Rousseff, o PSDB se encontra em uma situação controversa: manter ou não o apoio ao governo de Michel Temer, com o presidente prestes a ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

A discussão do desembarque começou em 17 de maio, após divulgação de trechos de conversas do empresário da JBS Joesley Batista com o peemedebista no Palácio do Jaburu. No diálogo, Temer fala "tem que manter isso aí", em referência à compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), na interpretação da PGR.

A delação da JBS motivou a abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) em que o presidente é investigado por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à Justiça.

A expectativa é que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresente a denúncia contra Temer nesta semana. Para que o peemedebista se torne réu e seja afastado do cargo, é preciso da aprovação da Câmara dos Deputados.

Já no dia seguinte à divulgação da conversa de Temer com Joesley, a divisão do partido ficou evidente. Após reunião na liderança da legenda na Câmara dos Deputados, o líder Ricardo Tripoli (SP) defendeu que ministros deixassem os cargos caso as denúncias se confirmem. Horas depois, o novo presidente da sigla, senador Tasso Jereissati (CE) freou o rompimento e pediu que os ministros ficassem.

Na época, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, presidente de honra do PSDB, afirmou ser favorável à renúncia dos implicados na investigação. A delação da JBS também envolveu o então presidente da legenda, senador afastado Aécio Neves (MG).

Se as alegações de defesa não forem convincentes, e não basta argumentar são necessárias evidências, os implicados terão o dever moral de facilitar a solução, ainda que com gestos de renúncia. O país tem pressa. Não para salvar alguém ou estancar investigações.

Nos dias seguintes, o ex-presidente oscilou. Chegou a ligar para Temer e pedir que o presidente "ficasse firme", de acordo com relatos de aliados. E os dois se reuniram no último dia 29. Por outro lado, o tucano começou a atuar nas articulações para uma eventual eleição indireta.

Diante do impasse, a decisão tem sido postergada pelo partido. O julgamento no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) da cassação da chapa que elegeu Dilma Rousseff e Michel Temer foi o mais recente prazo dado pela legenda.

Após reunião nesta segunda-feira (12), a sigla decidiu manter a aliança, mas pode rever a decisão se houver fatos novos. "O PSDB não fará nenhum movimento agora no sentido de sair do governo", disse o senador José Serra (SP) ao fim do encontro.

De acordo com levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo neste domingo (11), 19 de 49 parlamentares da legenda querem romper, 19 querem ficar e 11 estão indecisos ou não opinaram.

Entenda cinco fatores-chave sobre a decisão que divide o PSDB:

1. Os cabeças-pretas

No primeiro dia da crise iniciada pela delação da JBS, a ala jovem do partido, apelidada de "cabeças pretas" já defendia o rompimento. Na bancada da Câmara, essa é a posição da maioria dos 46 deputados em exercício.

Estão neste grupo, por exemplo, o vice-presidente jurídico do partido, deputado federal Carlos Sampaio (SP), e o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan.

O objetivo é desvincular o partido da crise em que Temer se encontra. Há um receio de que o PSDB fique manchado pelas denúncias de corrupção na cúpula do governo e possa ser prejudicado nas urnas em 2018.

Ainda que o partido tenha deicido permanecer na base, por enquant, será preciso lidar com o descontentamento dos mais novos.

O contraponto são antigos caciques da legenda, que querem continuar ao lado de Temer e evitar o título de "traidor". O movimento tem adesão de senadores e governadores e é liderado por Aécio Neves, Tasso Jereissati e pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

2. Os 4 ministros

Maior partido da base, o PSDB ocupa quatro ministérios: Aloysio Nunes (Relações Exteriores), Bruno de Araújo (Cidades), Luislinda Valois (Direitos Humanos) e Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo). Com o rompimento, todos teriam de deixar os cargos.

No núcleo político do governo, Imbassahy defende manter a aliança, assim como o titular do Itamaraty. "A posição da direção do partido e da maioria dos membros é de um partido que está no governo, que apoia o governo e que sustentará o governo", afirmou em encontro de chanceleres da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, em 1º de junho.

A nomeação de Imbassahy foi uma forma de aumentar a participação do partido na cúpula do governo após a saída do peemedebista Geddel Vieira Lima, em dezembro. Os outros ministros dos núcleo político: Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) são do PMDB.

Logo após o vazamento da conversa de Temer e Joesley, Bruno Araújo chegou a escrever uma carta de demissão. Ele recuou após articulação do novo presidente do partido e da divulgação da gravação, considerada fraca por aliados do presidente.

O deputado federal licenciado foi o voto decisivo pelo impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. O ministério que comanda é visto como estratégico pela capilaridade, ou seja, pela capacidade de atuar em diversos municípios, o que é essencial do ponto de vista eleitoral.

3. Os votos no Conselho de Ética

Um rompimento com Temer pode ainda prejudicar Aécio Neves, alvo de processo no Conselho de Ética do Senado que pode cassar seu mandato.

Afastado do cargo desde 18 de maio, Aécio é acusado de receber R$ 2 milhões da JBS para custear despesas com a defesa em processos aos quais responde no âmbito da Operação Lava Jato.

O STF deve julgar na próxima terça-feira (20) o pedido de prisão do parlamentar feito pela PGR.

O Conselho é presidido pelo senador peemedebista João Alberto Souza (MA). O partido tem quatro vagas entre os titulares e quatro de suplentes.

4. Os votos da denúncia contra Temer

Para que o STF aceite a denúncia contra Temer no âmbito da Lava Jato, são necessário 342 votos na Câmara dos Deputados. O PSDB tem 46 parlamentares na Casa.

Hoje, o Palácio do Planalto conta que tenha os 171 votos para barrar a denúncia. No PMDB, são 64 deputados. O DEM, que confirmou a aliança com o governo, conta com mais 29. Também estão do lado de Temer partidos do centrão, composto por PR, PP, PSD, PRB e PTB.

O medo, contudo, é que uma debandada do PSDB provocasse um efeito cascata em outros partidos da base. Após a delação da JBS, o PSB, que tem 36 deputados, e o PPS, com 10 deputados, deixaram o governo.

Os votos no Congresso também são essenciais para votar as reformas trabalhista e da Previdência. A primeira está prevista para ser votada no plenário do Senado no fim do mês. Já as mudanças na aposentadoria, que precisam do apoio de 308 deputados, ficou para o segundo semestre.

5. O apoio em 2018

Outro fator que pesa no desembarque é o apoio nas eleições de 2018. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR) deixou claro na última semana que "política é feita de reciprocidade". "Se o PSDB deixar hoje a base vai ficar muito difícil de o PMDB apoiá-los nas eleições de 2018", afirmou à Folha de S.Paulo.

Possíveis candidatos tucanos ao Palácio do Planalto têm adotado uma postura favorável ao peemedebista.

Em evento para empresários em São Paulo no último dia 30, o governador do estado, Geraldo Alckmin, afirmou que o presidente " entregará em 1º de janeiro de 2019 ao seu sucessor um país muito melhor do que o que recebeu". Ele também foi um dos articuladores do resultado da reunião desta segunda.

Seu afilhado político e possível presidenciável, o prefeito de São Paulo, João Doria, também minimizou as denúncias contra Temer.

Para ambos interessa um presidente impopular até 2018. Além disso, uma eleição indireta poderia levar ao Planalto o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o que fortaleceria o DEM e dificultaria as negociações com os tucanos para 2018. Os partidos avaliam lançar uma chapa conjunta para a Presidência da República.

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