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A loucura e a ciência por trás do aperto de mão de Donald Trump

A análise definitiva da mais insana saudação em toda a história da política.

12/06/2017 18:59 -03 | Atualizado 19/06/2017 08:24 -03
Jonathan Ernst / Reuters

Se o presidente da França, Emmanuel Macron, estivesse prestando mais atenção, teria reconhecido rapidamente o quão forte seria seu iminente intercâmbio com Donald Trump.

Os dois líderes haviam se encontrado rapidamente mais cedo naquele dia, trocando um firme, prolongado, "nada inocente" aperto de mão que chamou a atenção por sua intensidade e duração. Depois, quando Macron abordou Trump e outros líderes na inauguração da nova sede da OTAN, em Bruxelas, no mês passado, o presidente dos Estados Unidos ofereceu várias deixas não verbais indicando seu desejo de restabelecer a estrutura de poder global.

A primeira veio bem antes dele e Macron estarem cara a cara. Caminhando em direção um ao outro, Trump ofereceu um improvisado aperto de mão ao rei Philippe da Bélgica, que se posicionou imediatamente à sua direita. O rei pareceu ter sido pego de surpresa. Por uma boa razão. Ninguém no grupo estava fazendo esse tipo de gesto.

A oferta de Trump pareceu fora de hora. Mas Florin Dolcos, professor associado de psicologia da Universidade de Illinois e integrante do corpo docente do Grupo de Neurociência Cognitiva do Instituto Beckman, sugere que o gesto foi deliberado. E o público-alvo não era Philippe, mas Macron.

"Este é o sinal que Trump estava mandando: 'Aqui é onde você deve vir primeiro, porque sou o alfa aqui", disse Dolcos. "Fui eu quem iniciei [o cumprimento] com o outro cara."

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Momentos depois, outro sinal. Com os dois ainda caminhando em direção um ao outro, Trump olhou para Macron e abriu os braços — um gesto tipicamente reservado para família e amigos, não para dois líderes mundiais que acabaram de se conhecer. Mais uma vez, Dolcos suspeita que Trump estava enviando uma mensagem não verbal para seu homólogo francês.

"Acho que é um comportamento aprendido. Porque, tipicamente, você não faz isso. Você faz com pessoas muito próximas a você em circunstâncias naturais. Não com pessoas que você não conhece realmente", disse. "De certa forma, poderia ser visto como uma armadilha."

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Macron não caiu nela. Em vez disso, cumprimentou algumas outras pessoas antes de ir em direção a Trump. Quando finalmente chegou, Trump se adiantou e pegou a mão de Macron, puxando-a tão violentamente com força suficiente para fazer o presidente francês dar uma volta de 50 graus.

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Dolcos, outra vez, viu ali uma jogada tática. Incapaz de torcer o braço, Macron ficou impotente. Ele tentou ase afastar e Trump se recusou em deixá-lo ir.

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Macron colocou sua outra mão sobre Trump para se soltar. E, quando finalmente se libertou, Trump deu um tapinha em suas costas, terminando a troca exatamente em seus termos.

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Outro bizarro, dramático e incômodo aperto de mão com um líder mundial entrou para a história, pululando pela internet para o espanto de todos.

"Tem a ver com dominância assertiva", disse Delcos. "Por que ele quer fazer isso? Não sei.. Para mim, parece que está forçando muito a barra... Fica ridículo..."

Macron tenta se esquivar de Trump, [e] Trump responde tentando arrancar seu braço? Isto é insano.

Se você quiser entender Donald Trump — sua presidência, sua diplomacia pessoal de abordagem, até sua psique — simplesmente siga suas mãos.

Essas mãos e seus excepcionais dedos têm sido fonte de imensa insegurança, levando-o a atacar críticos e se gabar de sua genitália. Elas dão insights sobre seu casamento pela maneira pela qual buscam — cada vez mais sutilmente e, muitas vezes, sem sucesso — o abraço de sua esposa. Elas nos informam sobre seu nível de conforto no posto à medida que tenta encontrar seu papel no palco mundial. E ilustram sua preocupação com o imaginário e o papel que desempenha em avançar sua agenda.

"Simplesmente acho que o presidente é muito ciente da ótica das aparências nessas reuniões multilaterais com líderes mundiais", disse Sam Nunberg, ex-assessor de Trump, "e até acho [que o aperto de mão] é simbólico para o lema 'América Primeiro' de sua presidência e campanha'".

O aperto de mão de Trump se tornou a mais exclusiva saudação de todo o mundo da política. Antes de ele praticamente rasgar o braço de Emmanuel Macron, Trump esmagou os dedos do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe.

Quando revelou seu indicado à Suprema Corte, Neil Gorsuch, durante uma cerimônia na Ala Leste da Casa Branca, ele agiu da mesma forma ao sacudir o corpo inteiro do juiz três vezes em sua direção.

Trump marcadamente se recusou a apertar a mão da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, quando ela o visitou em uma tentativa de intercâmbio no Salão Oval.

E sustentou um aperto de mãos por um incômodo período de tempo com o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, que estava obviamente preparado.

Em um curto período de tempo, o aperto de mão de Trump se tornou tão lendário que os líderes mundiais são obrigados a se preparar de antemão. Trudeau parecia ter feito sua lição de casa, assim como Macron durante seu primeiro contato com Trump. Hillary Clinton se preparou para uma variedade de gestos exagerados de Trump no treinamento para os debates. Mas seu auxiliar, Philippe Reines, que se fazia de Trump durante a preparação, disse que o aperto de mão nunca surgiu nas sessões de treinamento.

"Nunca tentei arrancar seu braço do soquete", disse Reines ao HuffPost.

A abordagem de Trump para o aperto de mão é uma combinação de força bruta e desconforto estratégico. Na verdade, não é tanto um aperto de mão, já que consome o próprio braço da pessoa que está abraçando. O objetivo, parece, é estabelecer uma zona geográfica e trazer a outra pessoa para dentro dela.

Trump quase sempre inicia o gesto, com uma palma semiaberta à sua contraparte. Muitas vezes, seus olhos focam não na pessoa em frente, mas em sua própria mão abaixo — uma pista inicial sobre onde acontecerá o drama. Quando o gesto é imitado, Trump agarra firmemente e puxa a pessoa violentamente em sua direção. Às vezes, ele se movimenta para cima ou para baixo, mas frequentemente usará uma abordagem de lenhador (para frente e para trás). Ocasionalmente, irá torcer a mão de sua contraparte em direções estranhas ou usar sua mão livre para fortalecer o aperto. Raramente é ele quem solta primeiro.

Os receptores inesperados normalmente parecem atônitos. Como Abe, que mostra um visível alívio quando acaba. E os que se preparam de antemão reconhecem qual é o objetivo: um evidente jogo de poder.

"É um tática de intimidação. Existem estratégias de autopreservação e a intimidação é uma das principais", disse Frank Bernieri, professor associado do departamento de psicologia da Universidade Estadual de Oregon, que escreveu artigos sobre a influência do aperto de mão. "Isto é perfeitamente consistente com Trump. Ele praticamente diz: 'É o que faço para fechar um acordo'."

Isto é perfeitamente consistente com Trump. Ele praticamente diz: 'É o que faço para fechar um acordo'. Frank Bernieri, professor associado do departamento de psicologia da Universidade Estadual de Oregon

Os apertos de mão não foram inventados como veículos para exibir dominância. Em suas primeiras representações, eram vistos como um meio de selar alianças e mostrar intimidade. Pesquisas mostram que os apertos de mão podem deixar impressões duradouras sobre a consciência de uma pessoa e que diferentes variáveis podem afetar a eficácia do aperto de mão. Onde ainda não há consenso é a capacidade dos apertos de mão de afirmar autoridade.

O aperto de mão como um movimento de poder tem sido mitologizado em filme e popularizado no mundo dos negócios. Mas pesquisadores dizem que, como uma questão prática, na verdade não funciona.

"Tais tentativas seriam geralmente ineficazes porque o principal ponto de um aperto de mão é estabelecer um senso de reciprocidade e respeito mútuo", disse por e-mail Howard Friedman, editor-chefe da revista Journal of Nonverbal Behavior e professor do departamento de psicologia da Universidade da Califórnia, em Riverside.

"Alguém que usa ou tenta usar um aperto de mão de poder ou intimidação ou 1) já tem o poder e estaria simultaneamente empregando outros sinais de status como elevada altura, toque invasivo, roupas de alto status e outros sinais de dominância como a face, voz, olhar e postura; ou 2) está julgando mal as prováveis reações da outra pessoa e/ou do público", disse Friedman.

Trump não segue essa teoria. Seus apertos de mão são claras tentativas de afirmar sua dominância alfa.

Vejamos quando Trump cumprimentou o presidente do Tajiquistão, Emomali Rahmon. Nesse incidente, Rahmon desempenhou o papel do agressor, agarrando e balançado a mão de Trump da mesma maneira que Trump fez com Macron. O que impressionou Dolcos, da Universidade de Illinois, é o que aconteceu depois. Em vez de se afastar — que seria a tendência natural —, Trump se aproximou ainda mais.

Isso permitiu que seu braço fosse, mais uma vez, torcido, o que, por sua vez, permitiu que ele restabelecesse o controle físico e afirmasse sua estatura dento da própria órbita de Rahmon. "Foi o reequilíbrio do jogo de poder", nas palavras de Dolcos. "É um pouco de rotação do corpo, por isso parece normal."

Aqueles que são próximos de Trump dizem que não acreditam que ele ensaie esses momentos. Mas Dolcos suspeita que sim. Os padrões são tão aparentes e o gesto é tão demonstrável que parece simplesmente natural que Trump os tenha planejado. Isso é verdade mesmo em ocasiões quando nem existe o aperto de mão.

Em uma parada anterior em sua viagem ao exterior, Trump se encontrou com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Quando os dois se sentaram diante das câmeras, Netanyahu se levantou primeiro e ofereceu a mão. Trump ignorou o gesto, caminhado para o outro lado.

Observadores supõem que ou Trump não percebeu sua contraparte ou se perdeu no momento. Dolcos tem uma teoria diferente.

"É uma outra forma de estabelecer hierarquia, de que ele é quem inicia [o cumprimento]", disse. Trump estaria pensando: "Não vou participar quando você inicia. Provavelmente vou ignorar e depois voltar. Aí é quando vamos fazer isso. Não quando você começa."

Kevin Lamarque / Reuters
Um dos primeiros apertos de mão de Trump como presidente eleito.

A parte mais curiosa do aperto de mão de Trump é que ele supostamente odiaria dar apertos de mão. Ele já classificou tais cumprimentos de "bárbaros" e "uma das maldições da sociedade americana". Trump teria fobia de germes, mas dispensa antisséptico Purell.

E ainda, assim, apesar das hesitações, Trump entrou em um campo onde o aperto de mão é ainda mais fundamental do que no mundo dos negócios. A política é construída com aperto de mãos.

Neil Makhija foi assistente de Joe Sestak quando o democrata tentou, sem sucesso, se eleger para senador pelo estado da Pensilvânia em 2010. Ele se lembrou como seu chefe se movia para a frente e para trás, de um lado para o outro, nos desfiles do 4 de julho em vez de caminhar no meio da rua. Ele queria apertar cada mão que pudesse tocar.

"Há uma tendência entre políticos que, se você entra em contato com um eleitor, eles de certa forma verão a luz", disse Makhija. "Você acha que, quanto mais pessoas tocar, mais provavelmente vencerá."

Makhija acabou se tornando o organizador de eventos do então vice-presidente Joe Biden e, mais uma vez, o aperto de mão também foi usado em seu portfólio. Sempre que Biden fosse encontrar um político ou dignitário, seus assessores planejavam o encontro, incluindo aquela saudação inicial.

"Não há dúvida de que, quando você tem uma equipe organizadora de eventos para a Casa Branca, cada detalhe é discutido em termos de quando o aperto de mão vai acontecer, qual é o pano de fundo e o que está atrás de você e todas essas coisas", disse Makhija.

Ao contrário de Biden ou Sestak, Trump não vê o aperto de mão como um meio de estabelecer a cordialidade ou reciprocidade com sua contraparte. Ele não o vê como meio de ganhar votos ou facilitar a diplomacia. Ele o imagina como uma demonstração de sua condição alfa. Isso o torna único entre os presidentes norte-americanos e um deleite para a era do YouTube. Então, outra vez, o que mais se pode esperar de Donald Trump?

"Se estamos falando sobre seu aperto de mão, é meio análogo para nós falarmos sobre ele quando ele aponta seu dedo e diz: 'Você está demitido'", disse Nunberg. "Não há ninguém que seja um melhor showman e mais ciente da ótica do que qualquer pessoa com a qual trabalhei do que ele."

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