NOTÍCIAS

'Acontecia na Cracolândia inaceitável estupro coletivo a céu aberto com anuência do Estado', diz secretário de Doria

'Higienista é quem achava que era melhor do jeito que estava porque ninguém estava vendo', diz Filipe Sabará, em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil.

12/06/2017 00:25 -03 | Atualizado 16/06/2017 14:23 -03

Prefeitura de São Paulo

Se existe um consenso sobre a Cracolândia é o de que alguma coisa precisava ser feita. O modo como a gestão do prefeito João Doria agiu, entretanto, tem sido alvo de amplas críticas por autoridades da área.

No dia seguinte a primeira ação da Prefeitura, em 22 de maio, o Conselho Federal de Psicologia chegou a classificar a operação de barbárie. "A ação afronta os 30 anos de história da luta antimanicomial no Brasil", sustenta a nota do conselho.

Em entrevistas ao HuffPost Brasil, tanto a ex-secretaria de Assistência Social de Doria Soninha Francine quanto o ex-coordenador do programa Braços Abertos Dartiu Xavier reclamaram da postura da prefeitura e consideraram o episódio "açodado".

"A ação que foi feita pela prefeitura é repressiva, policialesca e muito truculenta. A justificativa é de que isso se dirija aos traficantes, mas na verdade ela recai na população em situação de rua", afirmou Xavier.

Apesar das críticas, 60% da população, segundo pesquisa Datafolha, aprova a operação e 80% concorda com a proposta de internação compulsória que chegou a ser defendida pelo prefeito.

São com essas pessoas que está o atual secretário de Assistência Social da gestão Doria, Filipe Sabará. "Para mim, positivo 100%, estou com os 80% da população", disse em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil.

Sabará rebate as criticas, acredita que são de pessoas que, de alguma forma, se sustentavam da Cracolândia, se acostumaram com o menos pior ou não entendem a realidade.

Barbárie porque não é filho dele. (...) É barbárie prender os traficantes, que estupravam, assassinavam?

Para ele, a ação ocorreu na hora exata. "Tem gente que saiu da secretaria dizendo que a ação foi desastrosa. Desastroso é aquilo existir. Isso, sim, é ser desumano. Higienista, para mim, é quem achava que aquilo era melhor do jeito que estava porque ninguém estava vendo."

Leon Rodrigues/SECOM

A ação começou no dia 21 e teve mais um episódio neste domingo (10) na Praça Princesa Isabel, para onde os dependentes químicos migraram depois da primeira operação há 500 metros dali. 550 policiais sitiaram a praça e prenderam três pessoas, duas por tráfico de drogas.

Em maio, foram 900 agentes e resultou na prisão de 38 pessoas. Os usuários, então, se dispersaram. Para os críticos da ação, o espalhamento, com a geração de outras 20 mini-Cracolândias pela cidade, torna o atendimento aos dependentes químicos mais difícil.

"Só o fato de ter existido essa truculência policial no território já vai afastar os usuários. Eles simplesmente não vão estar abertos a nenhum tipo de diálogo", justifica o psiquiatra Dartiu Xavier.

A prefeitura tem outra opinião. "Para gente que é da assistência e da saúde é muito mais fácil abordar uma pessoa que está espalhada do que um aglomerado com toda aquela paúra do que o traficante vai fazer com o assistente social", argumenta Sabará.

Sucessor de Soninha Francine na pasta, Sabará, 33 anos, tem perfil próximo ao do prefeito. Assim como Doria, ele é oriundo da iniciativa privada. Filiado ao Partido Novo, o herdeiro do Grupo Sabará (que atua na indústria química com produção e comercialização de cosméticos) trabalha há mais de 15 anos com projetos sociais e já colocou em prática o conselho de "levar para casa" o usuário de drogas.

"O cara está com a orelha no asfalto e está tudo bem com ele? Não está, não. Aí comecei a ir para a rua, a levar as pessoas para dentro de casa. (...) Meus amigos achavam que eu tinha pirado, que era perigoso, mas nunca aconteceu nada comigo. Pelo contrário, sempre fui mais feliz que a média."

Para ele, tem que pensar por que as pessoas estão na droga. "Pode ser o cara mais rico ou mais pobre, ele está mal, muito mal. Eles fogem. Uma pedra de crack é uma viagem, uma viagem para quem não tem dinheiro para pagar uma passagem para Miami ou para o Guarujá. Então, ele viaja na pedra."

Na avaliação do secretário, o problema é de contexto, de falta de entendimento. "De padrões que colocamos na sociedade de que o cara tem que ser algo e se ele não se encaixa? Ele vai para a droga."

Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Há muitos questionamentos sobre o modo como a operação foi conduzida. Para você, qual resultado até agora?

Até agora, foi muito positiva. Sou uma pessoa otimista. Primeiro porque começou com uma ação policial, com 50 presos, e não deixou nenhum ferido. Isso foi excelente. Segundo que, para a gente da assistência social e eu trabalho nessa área há 15 anos, era muito difícil acessar direito essas pessoas, ficava a criação de um vínculo, mas um vínculo dentro de um contexto, você não conseguia aprofundar mais. Chegava na página dois e o traficante falava "opa, está mexendo no status quo, no meu faturamento, não pode mais". A assistência desenvolveu uma estratégia e um modus operandi baseado na realidade que é uma bolha. Ou seja, até onde a gente podia como Estado, a gente ia. Eu pensava como Estado aceita uma situação que não tem capacidade de ir até o final do serviço. Para mim, aquilo é uma aberração.

O estupro coletivo da espécie humana e animal acontecendo ali a céu aberto com anuência do Estado durante 23 anos. Isso é inaceitável.

Falando de garantia de direitos, ali era o local onde tínhamos a maior quantidade de falta de garantia de direito, justamente a fragilidade humana e o estupro coletivo da espécie humana e animal acontecendo ali a céu aberto com anuência do Estado durante 23 anos. Isso é inaceitável. Se um ET descesse na terra em frente a Cracolândia ia falar: "o que é que esses caras estão fazendo?". Para mim, aquilo é uma aberração, uma situação a se entender.

Trabalhei muito tempo com dependentes químicos, e uma coisa é você trabalhar com o dependente e outra com o dependente que o trafico sequestrou. Para mim, aquilo e inaceitável. Sou totalmente favorável e, para mim, a ação foi super sucesso. Agora, as pessoas não ia desaparecer. A gente já esperava que elas fossem migrar. Mas eu prefiro muito mais uma pessoa migrando, mas que tenha algum tipo de luz no fim do túnel.

Uma coisa é você trabalhar com o dependente e outra com o dependente que o traficou sequestrou.

Uma das críticas é que os dependentes já tinham um laço com a assistência que trabalhava naquele local e que vai ficar mais difícil fazer a abordagem. Qual plano para continuar a acessar aquelas pessoas?

Para gente que é da assistência e da saúde, é muito mais fácil abordar uma pessoa que está espalhada do que um aglomerado com toda aquela paúra do que o traficante vai fazer com o assistente social. Temos inúmeros casos de assistentes sociais ameaçados, coagidos. Aí os assistentes desenvolveram uma espécie de estratégia para atender dentro do que o tráfico permitia. Isso é ridículo. Você não pode aceitar isso. Eles espalharam, mas você consegue abordar muito mais fácil. As pessoas já estavam no frio, já estavam na chuva, já estava sofrendo, ninguém estava vivendo na Disneylândia. Era um negócio terrível, sem nenhum tipo de saída, não tinha nada. Era o menos ruim.

Os assistentes desenvolveram uma espécie de estratégia para atender dentro do que o tráfico permitia. Isso é ridículo.

Só na SAS eram 96 pessoas da equipe ao custo anual de mais de R$ 100 milhões para manter aquela situação como estava. Não dá para aceitar isso. Para mim, aquela situação de terem saído, pode chamar de espalhamento, de afastamento, enfim do que for. Cracolândias por aí já existiam. O que tem agora é um número de pessoas que saiu dali do quarteirão e foram para próximo de uma praça. Tenho depoimentos de pessoas da equipe e da saúde que preferem pessoas menos conglomeradas, reféns do tráfico para atender do que da maneira como está.

O senhor faria algo diferente?

Acho que essas críticas são de quem se acostumou com o menos ruim. Não existe mudança sem incomodar as pessoas. Alguém vai sempre reclamar, aí você conversa ali com as famílias, as pessoas que estavam ali perto, 100% das famílias falam que tinha que fazer alguma coisa. São muitas histórias.

Era consenso de que tinha que fazer alguma coisa, mas não qualquer...

Tinha que fazer. Se fizesse depois, iam dizer que demorou. Se fizesse antes, iam falar que não sabíamos o que estava acontecendo. Acho que foi na hora exata. Outra coisa, não tem que discutir a hora que a polícia entra e a hora que não entra, a assistência social e saúde estão aqui justamente para dar apoio. Eu dou parabéns para o João Doria e [ao governador] Geraldo Alckmin, para quem atua de verdade no que acontece lá. Eu não faria nada de diferente, talvez até tivesse feito antes porque é um desespero para quem já teve familiares próximos.

No meu caso não foi família, mas amigos próximos que perdi na Cracolândia de classe alta. Não era média, era classe alta, bilionários, que acabaram morrendo na Cracolândia. Vou deixar acontecer isso e tudo bem? Uma vez que eu mudei para o poder público é minha responsabilidade. Se a nossa equipe não está preparada para atender, a falha é nossa, mas não posso deixar de fazer alguma coisa porque não está preparada, então vamos fazer alguma coisa e nos preparar.

Eduardo Ogata / SECOM

Que luz é essa no fim do túnel?

O próximo passo é fazer o que estamos fazendo. A partir do que entendemos necessário, se você faz um negócio sem saber qual a realidade, você está gastando dinheiro público, a gente está conseguindo muita verba privada. O prefeito tem todo esse acesso, eu também, então a gente consegue doações, conseguir verba e não saber o que fazer também é pior. Iam reclamar do mesmo jeito. Estamos fazendo o que a gente já fazia, não mudou nada, é o projeto Redenção, com abordagem, cadastramento.

Pela primeira vez na história, as esquipes estão atuando em conjunto. Acho que só tem coisa positiva acontecendo. Infelizmente, a imprensa está acostumada com o menos ruim, é como eu enxergo. Sim, sempre poderia ser melhor. Ninguém é perfeito. Fico até feliz com a cobrança da imprensa porque felizmente existe a expectativa de que a gente é bom. Mas como não existe perfeição, sempre poderia ser melhor. Dentro do que a gente tem de recurso, acho que foi excelente. Foram mais de 10 mil abordagem desde o dia 21. Para mim, é positivo 100%, estou com os 80% da população.

Como começou seu trabalho com a população de rua?

Desde cedo eu perguntava e costumava ouvir "ele gosta, está aí porque quer". Essa resposta não é convincente. O cara está com a orelha no asfalto e está tudo bem com ele? Não está, não. Aí comecei a ir para a rua, a levar as pessoas para dentro de casa, a dar banho, cuidar, pagar escola com a minha mesada. Dava aula de inglês, fazia lição de casa junto. Meus amigos achavam que eu tinha pirado, que era perigoso, mas nunca aconteceu nada comigo. Pelo contrário, sempre fui mais feliz que a média. Depois de 12 anos na empresa da família, saí, fundei uma marca de cosméticos veganos que utiliza embalagens jogadas fora. Justamente pelo sonho de não ver nenhum lixo. Também fundei a Arcah, a Associação de Resgate à Cidadania por Amor a Humanidade, que não tem nada a ver com meu trabalho aqui. Ano passado saí de tudo. Jamais imaginei que esse trabalho de acolhida ia me ajudar hoje. No início do ano, o Doria me chamou. Então, estou aqui. Minha missão de vida é a população mais carentes. (...) Tinha época que eu ia todos os dias passar a noite com população de rua e tem gente que ainda me chama de playboy. Tem que ser muito louco.

Tinha época que eu ia todos os dias passar a noite com população de rua e tem gente que ainda me chama de playboy. Tem que ser muito louco.

Eu fiz isso a vida inteira. Eu sei o que é levar para casa literalmente, eu sei o que é dar banho, levar para casa, pagar escola, pagar reforço, dar emprego e eu adoro fazer isso. Minha paixão mesmo. Quando não faço, fico mal. Não é que eu sou bonzinho, é minha paixão mesmo, é o que me faz ficar vivo. Isso é uma coisa que não tem como tirar de mim.

Pouca gente conhece o ser humano que o João Doria é, tem um cara que é humano, embora ele não tenha tido a mesma experiência que eu tive, ele é totalmente adepto ao ser humano. Quem está falando que a ação da Cracolândia foi higienista, não sabe o que está falando ou não conhecia a Cracolândia, ou ganhava da Cracolândia. Não estou falando de propina, de receber dinheiro do crime, estou falando que o cara só existia, ou a proposta de vida dele só existia, por cuidar da Cracolândia. Então, você tira isso e inconscientemente ele acha ruim. Tem que continuar o trabalho, não pode desistir. Tem gente que inconscientemente está reclamando do que aconteceu porque, querendo ou não, vivia de alguma forma daquilo e às vezes não na maldade.

O Conselho Federal de Psicologia, por exemplo, considerou a ação uma barbárie.

Que absurdo falar isso. Barbárie porque não é filho dele. Você me desculpe falar isso, mas se o filho do cara estivesse lá e a polícia tivesse prendido os traficantes, que barbárie? Quem morreu? alguém machucou? Não aconteceu nada. Prenderam os traficantes. É barbárie prender os traficantes, que estupravam, assassinavam? Tinha ali um tribunal do crime. Meus amigos foram fazer uma ceia de Natal e foram sequestrados no dia 24 de dezembro. Quem está falando que isso não é uma barbárie. Que loucura. É a síndrome de Estocolmo à distância, o cara gostava daquilo para ter aquilo para discutir.

Tem gente que saiu da Secretaria dizendo que a ação foi desastrosa. Desastroso é aquilo existir. Isso sim é ser desumano. Higienista, para mim, é quem achava que aquilo era melhor do jeito que estava porque ninguém estava vendo. Estava, de certa forma, controlado. Literalmente, era isso. Controlado porque não era sua família, seu amigo. Tive amigo que resgatei da Cracolândia, coisa mais triste. A sociedade não se envolvendo, deixando tudo para o Estado. Sou suspeito porque desde a minha infância eu não fico esperando, eu faço as coisas. Muita gente aí, tanto da direita querendo um estado menor só que não faz nada para resolver o problema que um Estado menor tem que fazer. Se diminuir o Estado tem que fazer. E o lado da esquerda que quer colocar tudo no Estado, nunca resolver. Quando a sociedade vai se envolver?

Tem gente que saiu da Secretaria dizendo que a ação foi desastrosa. Desastroso é aquilo existir. Isso sim é ser desumano.

Tem que pensar por que as pessoas estão na droga. Elas estão mal. Pode ser o cara mais rico ou mais pobre, ele está mal, muito mal. Eles fogem. Uma pedra de crack é uma viagem, uma viagem para quem não tem dinheiro para pagar uma passagem para Miami ou para o Guarujá. Então, ele viaja na pedra. Qual o problema dele? Não é só social, medicinal, é muito mais. É de contexto, de falta de entendimento, de padrões que colocamos na sociedade de que o cara tem que ser algo e se ele não se encaixa? Ele vai para a droga. Tem que olhar para isso.

Uma pedra de crack é uma viagem, uma viagem para quem não tem dinheiro para pagar uma passagem para Miami ou para o Guarujá. Então, ele viaja na pedra.

Falta uma política antecessora?

Desde quando teve isso? É como se a pessoa estivesse sequestrada. Vamos preparar toda uma política, enquanto isso a pessoa fica sofrendo lá sequestrada. Aí pensa aqui, pensa mais um pouco e a pessoa está lá sequestrada. Depois você vê. Tem que ir lá e arrancar a pessoa do sequestrados, depois faz o que tem que fazer e constrói com as pessoas. É muito mais colaborativo fazer assim do que manter como está. Primeiro resgata a vítima do sequestro, depois cuida das feridas. Quanto anos estamos lá e a Cracolândia só crescendo? Aquilo ali não ia chegar a lugar nenhum nunca.

Existe alguma inspiração para o seu modelo de acolhimento?

Meu modelo de fazer é fazer acolhimento pensando em porta de saída. Por isso temos o Trabalho Novo, são 644 já pessoas empregadas. São pessoas que estavam na rua ou em albergues que agora estão empregados recebendo seu salário. Quero ver antes dessa gestão quem empregou 644 pessoas. E nossa meta é 20 mil até o fim do ano e vamos chegar. Se não chegar, tentamos. Minha principal inspiração é San Patrignano, uma fazenda na Itália onde as pessoas saem de lá empregadas. Não estou dizendo que a pessoa vai ficar três, quatro anos com a gente internada. Lá também não é internação, é convite. Sem emprego, ninguém é ninguém. É inovador porque tem porta de saída, autonomia e renda. Primeiro, tinha que tirar a pessoa do sequestrador, já tiramos. Ah, mas espalhou? Agora, vamos atender. Tem que parar de tratar as pessoas como coitadinho porque não são. O que está acontecendo tinha que acontecer.

LEIA MAIS:

- 'Acabou o shopping center', diz Doria após nova ação policial na Cracolândia

- Ação de Doria na Cracolândia é 'midiática', diz ex-coordenador do Braços Abertos

- Conselho Federal de Psicologia chama ação de Doria na Cracolândia de 'barbárie'

Passo a passo da ação do governo Dória na Cracolândia