MULHERES

'Não sou ativista de verdade', diz Margaret Atwood sobre repercussão da série sobre 'O Conto da Aia'

Na BookCon 2017, ela falou sobre o perigo de se regulamentar o corpo feminino.

09/06/2017 16:18 -03 | Atualizado 09/06/2017 16:18 -03
Canadian author Margaret Atwood in 2012.
A escritora canadense Margaret Atwood em 2012.

Desde que seu clássico de 1985 O Conto da Aia foi adaptado para a TV pela Hulu como minissérie, Margaret Atwood vem usando a história como ponto de partida para discutir questões da atualidade.

Em um chamado recente que fez por mais verbas para bibliotecas, a escritora lembrou a seus fãs que ("não por acaso", ela explicitou) não existem bibliotecas na República de Gilead, o regime autoritário fictício que ela descreve no livro. Em uma carta sobre censura e liberdade de expressão distribuída este ano pela organização PEN America, Atwood observou que a liberdade de imprensa tampouco é protegida em Gilead.

Ela falou de Gilead na feira BookCon 2017, em Nova York, quando comparou uma legislação recente sobre o aborto promulgada no Texas com "uma forma de escravidão".

Atwood participou de uma mesa de palestra ao lado do diretor da série "The Handmaid's Tale", discutindo os precedentes históricos de Gilead e a intersecção entre arte e ativismo.

"Não sou ativista de verdade", ela explicou, porque, segundo ela, ativistas recebem dinheiro por seu trabalho, sendo que ela não tem emprego. Ela disse que a posição que ocupa como artista lhe possibilita expressar coisas que outros gostariam de dizer, mas não têm como. Por essa razão, disse Atwood, ela jamais sobreviveria em uma sociedade fascista, já que os artistas geralmente são os primeiros alvos dessas sociedades.

"Vocês ainda não estão vivendo em uma sociedade fascista", disse Atwood aos presentes no BookCon. "Que bom."

Bloomberg via Getty Images

Manifestantes vestidas como personagens do romance O Conto da Aia, de Margaret Atwood, exibem cartazes durante protesto da Marcha pela Verdade, em Nova York, 3 de junho.

Quando o debate foi aberto a perguntas da plateia, um dos presentes pediu a Atwood que lançasse mão de sua capacidade de criar ficção especulativa para prever o que vem por aí para os Estados Unidos.

"Não sou clarividente", respondeu a escritora. Ela disse que, em vez disso, quando cria mundos fictícios futuros, baseia-se no que já aconteceu no passado e no que está acontecendo hoje.

"Nasci em 1939", ela disse. "O que estava acontecendo nesse ano?"

Ela explicou também que já leu muito sobre o fascismo e é leitora ávida de diários de prisioneiros. Na verdade, quando lhe foram pedidas recomendações de leitura para os fãs de seu livro, ela sugeriu Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de William L. Shirer.

Assim, O Conto da Aia nasceu de sua imaginação de como seria um fascismo com cara americana. "Não seria um fascismo ateu", ela disse.

Atwood falou que não se sente qualificada para comentar sobre o futuro possível da América, mas fez algumas observações longas e veementes sobre o estado atual do país, respondendo a uma pergunta sobre a legislação do aborto no Texas.

"Estou esperando por um processo judicial que diga que, se vocês me obrigam a ter filhos que eu não tenho como sustentar, vocês precisam arcar com os custos", disse Atwood. "Obrigar mulheres a ter filhos sem meios de sustentá-los e então dizer que elas precisam criar esses filhos é, na realidade, uma forma de escravidão."

Atwood falou de como a minissérie baseada em seu livro leva a sério a questão da mudança climática. No livro, a poluição e outras preocupações ambientais são elementos que catalisam o estabelecimento de Gilead, mas a mudança climática está ainda mais presente na trama do livro.

Atwood disse que essa atualização feita na série reflete o que está acontecendo no mundo hoje. Ela citou o exemplo de como o plástico presente no ambiente está afetando a fertilidade masculina.

"Mas não somos autorizados a dizer isso", ela observou.

Os fãs de The Handmaid's Tale, tanto o livro quanto a minissérie, sabem que seus comentários guardam relação com o mundo sobre o qual Atwood escreveu. Em sua fictícia Gilead, as mulheres carregam o ônus dos problemas de fertilidade; a infertilidade masculina é ignorada, ou então o problema é tratado em segredo. O fato de a história ter sido inspirada em acontecimentos e tendências já existentes na vida real torna muito mais assustadora a visão de Margaret Atwood de um futuro possível.

Nota do editor: A autora deste artigo foi a moderadora do debate na BookCon com Margaret Atwood e Bruce Miller.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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