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Como uma doença sem cura foi praticamente varrida da Terra

Em 1986, havia 3,5 milhões de casos do verme da Guiné. Hoje, existem 25.

09/06/2017 14:43 -03 | Atualizado 09/06/2017 14:43 -03
THE CARTER CENTER/L GUBB
Meninas anteriormente infectadas pelo verme da Guiné filtram a água que vão beber para prevenir a doença.

Juba, Sudão do Sul — Foram vários dias para que Maker Achuil e outras pessoas conseguissem puxar lentamente o verme do comprimento de um braço, em formato de espaguete, de sua coxa. Depois de um ano com o parasita branco dentro dele, Achuil gritava de dor à medida que o verme da Guiné saía de sua perna.

Ex-soldado do Sudão do Sul, que lutou por décadas antes de ganhar sua independência do Sudão em 2011, Achuil ainda estremece com as lembranças da agonia que sentiu quando o verme foi gradualmente enrolado em torno de uma vara.

"Era como colocar um cigarro em sua perna — durante dias", disse Achuil, enrolando sua calça para mostrar as cicatrizes dos fluidos que queimavam quando o verme os excretava, fazendo buracos para se reproduzir. "Eu ficava exausto, mas a dor era muito forte para dormir. Tudo o que queria era nadar no lago para resfriar a dor."

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February 6, 2007. Savelugu, Northern Province, Ghana. A patient at the CAse Containment Center with two guinea worms emerging from his foot. One is wrapped in moist cotton bandage to stop it drying out as it emerges over some days.

Os vermes, que se assemelham a uma goma de mascar esticada, depositam suas microscópicas larvas em água parada. As pessoas bebem a água e ingerem os vermes, que crescem e se acasalam dentro do hospedeiro por cerca de um ano. O macho morre, e a fêmea começa a cavar através da pele do hospedeiro humano. Quando a pessoa mergulha a área afetada em água, ou seja, ao tomar banho ou para aliviar a queimação, o verme espalha suas larvas.

A doença do verme da Guiné já foi comum na África e na Ásia, com 3,5 milhões de casos estimados em 1986. Mas, em meados da década de 1980, a comunidade mundial de saúde lançou uma campanha para eliminar a doença, que hoje está restrita a algumas áreas da África.

No ano passado, um pequeno número de casos foi relatado em três países — Chade, Etiópia e Sudão do Sul —, e especialistas de saúde estão confiantes de que podem finalmente eliminar o verme para sempre. A luta no Sudão do Sul, antes reduto do parasita incapacitante, pode ser vencida em breve, apesar da brutal guerra civil que assola o país desde 2013.

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"Estamos muito próximos de interromper a transmissão no Sudão do Sul", disse Samuel Yibi, que lidera o programa de erradicação do verme no Ministério da Saúde do país.

Estamos perto do fim.

Cientificamente, os vermes que infectam humanos são conhecidos como Dracunculus medinensis. Historiadores acreditam que o verme existe desde a antiguidade, sendo mencionado no Antigo Testamento da Bíblia como "serpente ardente".

Se o verme da Guiné for extinto, seria a primeira doença parasitária a ser erradicada, e a segunda doença humana ser completamente eliminada (depois da varíola).

Yibi, um homem de fala suave, tem dedicado sua vida para a eliminação dessa doença parasitária. O agente de saúde lembra como em sua vila, com cerca de uma centena de pessoas, todos os anos pelo menos 50 indivíduos ficavam tão debilitados pela dor causada pelos vermes que não podiam cultivar os campos.

A doença atormentava as pessoas, as deformava, mas elas não falavam sobre o assunto.

Agora, em todo o Sudão do Sul, os esforços locais liderados por Yibi reduziram o número de casos em 90% nos últimos três anos. Apenas seis casos foram registrados em 2016, comparados com 70 em 2014.

A Etiópia contabilizou apenas três casos no ano passado, e o Chade, 16.

"O progresso que temos visto para a restrição da doença do verme da Guiné a esses poucos casos, em apenas três países, é um testemunho à dedicação das pessoas em áreas endêmicas para cuidar de sua saúde e da [saúde] de suas comunidades", disse o médico Dean Sienko, vice-presidente de programas de saúde do Carter Center.

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Mogos South, Eastern Equatoria State, South Sudan.( SSGWEP.) Area Supervisor Paulo Lovul and Village Volunteer Aleper Akol Naparinga use visual aids such as picture books to teach village children and adults how to avoid contracting Guinea worm disease.

O centro ― que tem sede em Atlanta (EUA) e foi fundado pelo ex-presidente norte-americano Jimmy Carter e sua esposa, Rosalynn ― tem ajudado a coordenar a campanha global, que já dura décadas, para finalmente varrer a doença do mapa mundial, incluindo a negociação de um lendário cessar-fogo em 1995, onde agora é o Sudão do Sul, para assegurar que o programa de erradicação do verme da Guiné iria sobreviver.

"As pessoas têm convivido com isso por várias gerações", Yibi disse. "Esperamos que, em 2017, provavelmente chegaremos a zero [número de casos]."

Embora não haja medicação específica para a doença, o ciclo de reprodução do verme pode ser interrompido ao assegurar que as pessoas infectadas não entrem na água — especialmente a usada para beber —, enquanto o verme está tentando atravessar a pele.

O ciclo também pode ser interrompido ao fornecer às pessoas acesso a fontes de água mais limpa ou desinfetar a água antes de bebê-la. No Sudão do Sul, as pessoas têm sido incentivadas a usar filtros de água para evitar a ingestão das larvas do verme.

Yibi disse que tem sido um processo longo e difícil, mas "agora, quando volto para uma vila onde antes o verme da Guiné era comum e pergunto se há casos, as pessoas gritam 'Não!'. Não queremos nem ouvir este nome. Está morto e esquecido por nós'".

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The Carter Center's Dr. Donald Hopkins shows Molujore Village children how to use the plastic water filtration pipes his teams have been distributing, to eradicate Guinea Worm disease. Dr. hopkins was part of the delegation of former U.S. President Jimmy Carter's visit to Molujore Village in Terekeka County, Southern Sudan, to review The Carter Center's efforts to eradicate Guinea worm disease.

Ironicamente, mesmo com tantas outras espécies em risco de extinção devido aos excessos cometidos pela humanidade, esta espécie, dependente dos seres humanos, está encontrando novas maneiras de sobreviver. Em Mali, que no ano passado não registrou casos do verme da Guiné pela primeira vez em 25 anos, agentes de saúde encontraram cachorros infectados com o parasita. Os vermes também infectaram cães no Chade.

Ainda assim, especialistas em saúde permanecem otimistas.

O médico Donald Hopkins é o arquiteto da campanha de erradicação do verme da Guiné, que teve início na década de 1980. Hopkins é assessor especial do Carter Center para o verme da Guiné e também trabalhou na campanha para eliminar a varíola. Essas infecções em animais são apenas "outro quebra-cabeça a ser resolvido", disse.

"Navegamos por muitos desafios, até mesmo guerras, nos 30 anos de trabalho para erradicar o verme da Guiné", disse Hopkins.

Os séculos de dor agonizante causados pelo verme podem, em breve, fazer parte do passado.

O Carter Center recebe subvenções da Fundação Bill & Melinda Gates, que também apoia esta série do HuffPost. Todo conteúdo editorial é independente, sem qualquer influência ou contribuição da fundação.

Este texto foi originalmente publicado no The World Post e traduzido do inglês.

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