MULHERES

Os retratos honestos de uma mulher revelam quão complexto é o caminho do amor-próprio

“Falar sobre ser obesa deixa as pessoas extremamente incomodadas.”

08/06/2017 12:22 -03 | Atualizado 08/06/2017 12:22 -03
Photographer Caroline Fahey has documented her self-love journey.
A fotógrafa Caroline Fahey documentou sua jornada de amor-próprio.

"Duas em cada três de minhas amigas têm problemas de imagem corporal", disse ao HuffPost a fotógrafa Caroline Fahey. "A maioria das garotas que eu conheço tem."

Em sua série "Silver Lining" (tradução aproximada: "O lado positivo"), a fotógrafa de 22 anos destrincha diante da câmera seu próprio relacionamento complicado com seu corpo. Seus autorretratos, feitos em quartos e banheiros, quintais e quartos de hotel, rejeitam uma ideia excessivamente simplificada de positividade corporal – a noção de que uma hashtag aqui ou uma selfie ali possam gerar amor-próprio constante. Em vez disso, Fahey convida o espectador a curtir seus momentos de autoconfiança, repulsa por si mesma e ambiguidade, sem privilegiar nenhum deles mais que os outros.

Em uma das imagens, Fahey está no chuveiro e está olhando para o espectador. Os contornos de seu corpo estão obscurecidos pelo vapor formado no box. Uma parte pequena do box que foi limpa revela uma área de corpo em forma de ovo e emoldurado por vapor, algo que mal se assemelha a uma forma humana. Em outra foto, Fahey está debaixo de um chuveiro ao ar livre, com gotas de água ricocheteando de seu corpo em maiô de duas peças. Ela é "Venus" de Boticelli de biquíni, casual e despreocupada, com o olhar não voltado para a câmera.

Caroline Fahey

Fahey começou a se interessar por fotografia depois de criar uma câmera do tipo "pinhole" (uma máquina fotográfica sem lente) quando estava no primeiro ano do ensino médio. Começou a fazer autorretratos quando era estudante universitária na NYU. Sua primeira série tratou de sua condição de mulher gorda e das emoções que sua estatura física inspira – ou seja, em suas próprias palavras, "a sensação de ser maior". Ela não demorou a perceber que o tema provocava reações de incômodo em seus pares.

"Falar sobre ser gorda deixa as pessoas super constrangidas", disse Fahey. "As pessoas ou cortam a conversa ou dizem alguma coisa tipo 'você não é gorda'. Mas foi realmente importante para mim desafiar as pessoas, obrigá-las a falar disso."

A relação que Fahey tem com seu corpo mudou radicalmente em 2017, quando ela descobriu que tinha um coágulo sanguíneo no cérebro, consequência da troca de seus medicamentos anticoncepcionais, associada à obesidade. "Foi extremamente doloroso, física e emocionalmente", ela contou.

Caroline Fahey

Fahey estava cursando o segundo ano da faculdade, mas se afastou dos estudos por oito meses, o tempo de se recuperar. "Meus olhos doíam, eu não conseguia ouvir bem, tinha sensibilidade aguda à luz e aos sons." Sua mãe suavizava sua frustração com um mantra de tom benévolo, lembrando a ela que a dor pela qual estava passando tinha um lado positivo, se bem que, por algum tempo, Fahey não soubesse qual poderia ser.

"Com o passar do tempo, comecei a entender qual era o tal lado positivo", ela contou. "Aprendi que minha saúde precisa ser minha prioridade número um. Ser saudável não significa perder peso e ficar magrinha. Significa ter consciência e prestar atenção ao que você faz com seu corpo."

Muitas vezes as narrativas sobre "positividade corporal" e "ficar saudável" não coincidiam. Depois de sua experiência de quase morte, Fahey seguiu um plano de dieta e exercícios físicos, ao mesmo tempo se esforçando para amar e aceitar seu corpo. Não havia uma meta única nem uma resposta simples. É essa jornada que ela documenta em sua série "Silver Lining", um retrato nuançado de uma pessoa procurando se aperfeiçoar e se aceitar ao mesmo tempo.

Caroline Fahey

"Meu projeto passou a ser amar meu corpo, ao mesmo tempo em que luto com as emoções de ser gorda", ela explicou. "É mais complexo do que simplesmente dizer 'amo meu corpo'. Alguns dias você se acha uma m...., e é importante para mim que minha fotografia reflita isso. Às vezes me sinto sexy, às vezes me sinto horrorosa. Tudo bem haver alguns dias em que você não se sente bem com você mesma."

Desde que publicou online a série fotográfica, que foi também sua tese de final de curso, Fahey vem recebendo uma enxurrada de apoio de outras mulheres que também se relacionam com dificuldade com seu próprio corpo. Muitas delas escrevem de modo anônimo. Fahey disse que isso a ajudou a sentir mais confiança para falar de suas emoções e dificuldades em uma plataforma maior, mesmo que isso deixe algumas pessoas incomodadas.

"No começo, eu era muito, muito tímida", ela comentou. "Seria altamente assustador para mim ter uma conversa como esta. Mas, quanto mais fui mostrando meu trabalho para as pessoas, mais isso começou a ficar fácil. A gente não espera que outras pessoas estejam passando por dificuldades semelhantes às nossas, mas elas estão."

Caroline Fahey
Caroline Fahey
Caroline Fahey
Caroline Fahey

Caroline Fahey

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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