COMPORTAMENTO

Como o Google Street View se tornou terreno fértil para artistas

Nunca antes as pessoas tiveram um acesso visual sob demanda tão fácil a espaços públicos em todo o planeta.

08/06/2017 16:04 -03 | Atualizado 08/06/2017 16:05 -03
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Câmera do Google Street View nas ruas do Rio de Janeiro, em 2013.

No dia 25 de maio, o Google Street View comemorou seu 10o aniversário. Uma ferramenta do Google Maps, permite que seus usuários explorem cidades e vilas ao redor do mundo — e até mesmo entre empresas concorrentes e instituições governamentais (como a Casa Branca). Jogos surgiram com base no Street View — como o Geoguessr, no qual os usuários adivinham onde foram aleatoriamente colocados no mundo —, ao mesmo tempo que alguns usuários documentaram imagens engraçadas capturadas pelas câmeras itinerantes dos carros do Google.

Mas o Google Street View também tem sido uma ampla fonte para artistas de todos os tipos, inspirando uma variedade de trabalhos criativos que incluem ensaios fotográficos, vídeos musicais e performances improvisadas.

O que o Google Street View tem exatamente que o torna tão atraente para os criativos? Talvez porque nos permite experimentar a fantasia do que a acadêmica Donna Haraway chamou de "o truque de Deus" — o desejo impossível de ver tudo.

Nunca antes as pessoas tiveram um acesso visual sob demanda tão fácil a espaços públicos em todo o planeta e, na última década, artistas aproveitaram esse imenso poder para abordar assuntos como vigilância e prostituição.

Seleção do vasto arquivo do Google

A absoluta magnitude do poder de ver tudo do Google Street View serve de tema para alguns artistas. O projeto de Michael Wolf, "A Series of Unfortunate Events" (Uma Série de Eventos Infelizes), reúne imagens do Google Street View, desde acidentes de bicicletas a incêndios. Considerado como um todo, a coleção de Wolf retirada do amplo arquivo do Google acena em direção à vastidão do próprio mundo. Vista individualmente, suas imagens são ao mesmo tempo assombrosas e familiares.

Às vezes, o Google Street View atrai artistas mais por razões mais políticas. Pode haver um desconforto real com a tecnologia, uma vez que ela equivale a um dos mecanismos de vigilância mais abrangentes da história humana.

O projeto em andamento de Jon Rafman, "The Nine Eyes of Google Street View" (Os Nove Olhos do Google Street View), reflete a perturbadora relação entre a humanidade e a vigilância. (Os "nove olhos" do título se refere ao número de câmeras do poste fixadas no alto do carro do Google Street View, embora o número tenha aumentado para 15).

Em 2008, um ano após o lançamento do Street View, o Google incorporou a tecnologia de desfocagem para proteger a identidade de transeuntes capturados pelas câmeras. Mas a tecnologia não está isenta de falhas. A imagem de Rafman de um homem com uma fantasia de coelho e rosto desfocado ao lado do rosto de uma pessoa "real" retrata uma perturbadora justaposição; é um lembrete de que o Google Street View é incapaz de diferenciar essa pessoa mascarada e você. Com isso, a imagem de Rafman explora o medo mais básico dos regimes de vigilância em massa: de que você será apenas outra entidade sem rosto.

Outros artistas adotaram uma abordagem diferente. Doug Rickard, em uma exposição chamada "A New American Picture", documentou as "ruas esquecidas" dos Estados Unidos selecionando imagens dos marginalizados em seus bairros oprimidos. Halley Docherty usou o Google Street View para sobrepor quadros famosos e capas de discos em seus modernos cenários (por exemplo, os Beatles atravessando a rua na Abbey Road de hoje. E o projeto "Vacated" (Vago) de Justin Blinder transforma as imagens do Google Street View em GIFs que se alternam entre fotos do "antes e depois" de esquinas gentrificadas na cidade de Nova York.

Posando para a câmera

E existem os que tentam criar uma cena em frente das câmeras. Embora não se identifiquem como artistas, essas pessoas respondem com uma ingenuidade criativa e improvisada de artistas. Todos os dias que as pessoas veem um carro do Google se aproximando, inventam uma cena — um nascimento encenado em Berlim ou uma morte encenada na Escócia — e reagem rápido. Em nossa pesquisa, chamamos esses eventos-performance de tableaux vivants ("imagens vivas"), em um aceno à vitalidade evanescente das cenas que ganham vida para então se dissolverem com a mesma rapidez com a qual foram criadas.

A arte Street View tem seus detratores. No seu programa "No Man's Land", Mishka Henner usou o Street View para "bocas" conhecidas na Itália e na Espanha e selecionou imagens de mulheres que poderiam ser profissionais do sexo. Embora o programa tenha sido selecionado para o Prêmio de Fotografia "Deutsche Börse", as críticas não foram unânimes. Alguns acharam sexista assumir que as mulheres retratadas eram, de fato, prostitutas, embora tenham elogiado a maneira pela qual as imagens transmitiram a vulnerabilidade diária (e tédio) que envolve o trabalho sexual.

Talvez, acima de tudo, o programa tenha inspirado questões sobre a autoria dos fotógrafos, que simplesmente selecionam as imagens tiradas pelas câmeras do Google. No entanto, como apontado por um crítico, o Google Street View nos forçou a reconsiderar o que a fotografia de rua significa como gênero atualmente à luz das câmeras itinerantes do Google.

O que esperar agora desse estranho cruzamento entre uma ferramenta de mapeamento e arte? Hesitamos em fazer previsões estáticas, mas não ficaríamos surpresos em ver mais colaborações entre o Google e artistas, como o vídeo de música experimental da banda Arcade Fire, que preenche o Google Street View com imagens do bairro de infância do espectador em uma montagem nostálgica. Também gostaríamos de ver mais envolvimento de mulheres, já que a maioria dos artistas que trabalham com o Google Street View tendem a representar uma perspectiva masculina.

Depois de uma década, o Google Street View já não é novidade. Mas isso não significa que seu potencial de ação e intervenção artística diminuirá. À medida que a plataforma colete cada vez mais imagens dos espaços públicos da Terra — e as tecnologias de realidade mista, aumentada e virtual se tornem mais penetrantes —, esperamos que as pessoas encontrem maneiras novas e inventivas para fazer arte de uma plataforma que, desde o início, tem sido um surpreendente devaneio.

Este texto foi originalmente publicado no The Conversation e traduzido do inglês.

The Conversation

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