MULHERES

'Women Photograph' é o projeto que destaca as fotógrafas que documentam nosso mundo

'Não podemos olhar para a guerra, a política e os direitos humanos exclusivamente pela ótica dos homens.'

05/06/2017 19:12 -03 | Atualizado 05/06/2017 19:13 -03

O fotojornalismo atual está muito distante de seus dias de glória – a chamada época áurea da fotografia, entre os anos 1930 e 1960 --, quando fotógrafos carregavam máquinas Leica e faziam experimentos com os primeiros flashes. Na época, gigantes da fotografia como Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e outros membros fundadores da agência Magnum dominavam a área e ofereciam ao público imagens históricas de eventos militares, países distantes e instantâneos do mundo aos quais, de outro modo, as pessoas nunca teriam acesso.

Décadas mais tarde as revistas começaram a perder popularidade, e a mesma coisa aconteceu com o prestígio do fotojornalismo. Mesmo assim, as pessoas que ainda ocupam a linha de frente do fotojornalismo profissional continuam a captar algumas das imagens mais contundentes e cativantes do mundo. Pense, por exemplo, na foto feita por Burhan Ozbilici, da Associated Press, segundos após o assassinato do embaixador russo à Turquia.

"O fotojornalismo é responsável por definir como o grande público vê o mundo", disse ao HuffPost a fotógrafa documental Daniella Zalcman. "As fotos publicadas em nossos jornais e revistas expõem as pessoas a problemas, lugares e indivíduos com os quais elas provavelmente nunca vão interagir pessoalmente."

Porém, como nos tempos de Cartier-Bresson, Robert Capa e outros grandes nomes, outro aspecto do cenário do fotojornalismo continua igual: os maiores profissionais do ramo ainda são, na maioria, homens brancos, explicou Zalcman.

Segundo o "New York Times", nos últimos cinco anos apenas 15% das fotos que concorreram aos prestigiosos prêmios World Press Photo foram feitas por mulheres. E entre 80% e 100% das imagens contidas nas listas feitas pelas publicações das fotos mais significativas de 2016 são de fotógrafos homens. Fotógrafas mulheres maravilhosas (e em sua maioria brancas) como Margaret Bourke-White, Dorothea Lange e Inge Morath conseguiram desmentir as premissas superadas de seus tempos – que as mulheres seriam incapazes de trabalhar com o equipamento necessário ou cuidar delas mesmas em regiões de conflito. Mesmo assim, as histórias de sucesso delas são vistas hoje como exceções à regra.

Women Photograph
Side-by-side screenshots of Women Photograph.

Zalcman disse ao "New York Times" que, no século 21, os jornais, revistas e agências de notícias não confiam os trabalhos mais importantes a fotógrafas mulheres, mostrando que a disparidade de gênero no setor continua forte. Ela citou alguns obstáculos especiais enfrentados pelas fotojornalistas mulheres de hoje, como práticas de contratação enviesadas, um abismo de confiança baseado no gênero, a dificuldade de equilibrar vida pessoal e profissional e o assédio sexual no trabalho em campo.

Em um esforço para ajudar as mulheres a superar esses obstáculos (e também para mostrar às publicações que existem muitíssimas fotojornalistas mulheres disponíveis para serem contratadas), Zalcman fundou o banco de dados Women Photograph, que promove 400 fotojornalistas mulheres de 67 países. Descrito como "uma fonte para documentaristas e fotógrafas editoriais mulheres* e as pessoas que gostariam de contratá-las", o site traz links diretos para os portfólios de fotógrafas da Arábia Saudita, Tailândia, Camarões, Rússia, Canadá e outros países. Além disso, oferece dados e informações sobre bolsas e dotações para fotógrafas aspirantes que frequentam a página.

(O asterisco denota que "amigas transgêneros e sem conformidade de gênero são todas bem-vindas" no site.)

"Não podemos olhar para tópicos de guerra, política e direitos humanos exclusivamente através do olhar masculino", disse Zalcman ao HuffPost. "Se queremos ser responsáveis ao transmitir as histórias, nossa comunidade precisa ser tão diversa quanto as vozes que representa."

Zalcman tem consciência de que uma simples lista de fotojornalistas mulheres não vai eliminar os obstáculos de gênero que as mulheres enfrentam em seu trabalho. Mas "Women Photograph" é uma resposta sucinta a qualquer editor que alegue não ter conhecimento de fotojornalistas que sejam mulheres.

Segue abaixo uma prévia de algumas das fotojornalistas em exposição no "Women Photograph". Para ver mais fotojornalismo atual feito por mulheres, vá até o banco de dados, aqui.

  • Nazik Armenakyan (Armenia)
    Anush Grigoryan tinha 9 anos de idade quando assistiu à luta do pugilista profissional armênio Vic Darchinyan e decidiu que um dia também ela estaria no rinque. Foi quando ela começou a treinar kickboxing numa escola de esportes aberta em seu povoado natal de Gai, na província armênia de Ararat. Em 2010, quando o boxe feminino virou esporte olímpico, Anush decidiu fazer carreira no boxe. Anush Grigoryan, 18 anos, já teve vitórias e recebeu prêmios em vários torneios e competições juvenis. O esporte virou seu estilo de vida, e ela treina intensivamente todos os dias no ginásio de sua cidade, que, entretanto, não parece ter condições adequadas para os treinos. Uma de suas metas é participar da Olimpíada de 2916 no Rio de Janeiro, onde ela espera conquistar vitórias.
  • Susannah Ireland (London, England)
    Susannah Ireland
    Tropas do Exército britânico se protegem de tempestade de areia enquanto seu helicóptero Chinook decola da cidade de Cher-E-Anjir, na província de Helmand, no Afeganistão, 12 de agosto de 2009. Uma construção local ocupada pela companhia Príncipe de Gales das forças britânicas serve de centro do regimento da Guarda Galesa em Nad-E-Ali.
  • Jennifer Emerling (Los Angeles, California)
    Jennifer Emerling
    Cenas da praia pública de Siesta, na Flórida.
  • Abbie Trayler-Smith (London, England)
    Abbie Trayler-Smith
    Shannon, 17 anos, em momento descontraído na sala de sua casa em Sheffield. Em novembro de 2013 foi retirado o balão intragástrico que ela teve por seis meses no estômago. Desde então ela vem recuperando pouco a pouco o peso que perdeu com o balão, mas recentemente Shannon começou a frequentar uma academia e acha que agora é "a hora dela" de tornar-se a pessoa que quer ser. Do seriado "The Big O", um estudo íntimo das crianças e dos adolescentes por trás das estatísticas de obesidade no Reino Unido: uma em cada três crianças no país é classificada como acima do peso ou obesa.
  • Tasneem Alsultan (Dammam, Saudi Arabia)
    Tasneem Alsultan
    A sociedade limita a definição de uma divorciada. O que ela pode ou não pode fazer é controlado por outros. Como mãe celibatária independente, já estou em paz com os sacrifícios que tive que fazer, mas também consegui encontrar a felicidade por conta própria.
  • Emily Macinnes (Glasgow, Scotland)
    Emily Macinnes
    Mahmoud, 22 anos, e Amer, 32, viraram amigos íntimos enquanto viveram no campo de Yarmouk, na periferia de Damasco, que abriga a maior comunidade de refugiados palestinos na Síria desde a guerra árabe-israelense de 1948-49. Durante o conflito na Síria, que já dura cinco anos, Yarmouk sofreu o cerco de combatentes rebeldes e mais tarde do regime de Bashar Assad. Em 2015, depois de 90% de Yarmouk ter sido tomado pelo Estado Islâmico, Mahmoud e Amer escaparam juntos para a Turquia e depois para a Grécia. Impedidos de sair de Idomeni depois do fechamento da fronteira entre a Grécia e a Macedônia, Mahmoud e Amer fizeram parte de um grupo de 3.000 refugiados que atravessaram o rio e penetraram na Macedônia ilegalmente, mas não demoraram a ser capturados pelo Exército macedônio. Os soldados separaram os homens das mulheres e crianças e os colocaram em veículos do Exército, dizendo que estavam sendo levados para o norte, para a fronteira da Sérvia. Mas em vez disso eles foram transportados de volta à fronteira da Grécia com a Macedônia, onde foram levados para barracas do Exército e espancados pelos soldados, para então serem obrigados a atravessar a fronteira outra vez e voltar a Idomeni. O espancamento deixou Amer com uma fratura na perna e várias costelas quebradas. A esposa e a filha de Amer estão atualmente em um centro de asilo em Essen, na Alemanha, onde aguardam na esperança de que Amer possa se juntar a elas. Mahmoud queria avaliar a dificuldade da viagem antes de sua mãe e seus irmãos menores a empreenderem. Ele tem medo de ser obrigado a voltar à Turquia, onde, afirma, os refugiados sírios são tratados como lixo.
  • Elena del Estal (India)
    Elena del Estal
    Anisha segura um frango em sua casa em Haryana, na Índia. Ela é filha de uma "paro": uma mulher que foi traficada e vendida como esposa, porque seu pai não conseguiu encontrar uma mulher local com quem se casar. Esta foto integra um projeto fotográfico aprofundado sobre o tráfico de esposas na Índia – o comércio de meninas e mulheres vendidas para fazer casamentos forçados.
  • Rachel Woolf (Detroit, Michigan)
    Rachel Woolf
    O estudante Marcus Washington, 17 anos, da Flint Southwestern Academy, posa no sábado 7 de maio de 2016 em seu quarto em Flint, no Michigan, antes do baile de formatura. "É uma coisa que só acontece uma vez na vida, então significa muito para mim", ele disse.
  • Ilana Panich-Linsman (Austin, Texas)
    Ilana Panich-Linsman
    Emily Dextraze, 11 anos, é participante de concursos de beleza e vive em Westfield, Massachusetts, cidade de 42 mil habitantes situada a duas horas a oeste de Boston. O setor de concursos de beleza movimenta estimados US$5 bilhões por ano nos Estados Unidos, e o número de concursos realizados no país varia entre 5.000 e 100 mil, segundo uma busca na internet. Uma estimativa conservadora aponta que 2,5 milhões de meninas americanas, desde bebês até adolescentes, participam dos concursos. Para as famílias, a participação de uma filha nos concursos custa a partir de US$1.500, podendo chegar a muito mais. Taxas de inscrição, figurinos, maquiagem, cabeleireiro, bronzeamento artificial e semanas de treinamento profissional, tudo isso contribui para encarecer a participação.
  • Jackie Dewe Mathews (London, England)
    Jackie Dewe Mathews
    Ibrahim Issa Choela (29 anos de idade) e sua filha Jueria (2 anos). Ibrahim já foi atacado duas vezes, sendo uma enquanto estava dormindo em sua cama, o que o levou a mudar-se para outro lugar, e outra vez na volta de um treino de futebol. Uma pessoa o xingou, chamando-o de "bom negócio", isso porque é fato sabido que partes do corpo de albinos podem ser vendidos por valores altos. Sua esposa, a mãe de Jueria, fugiu pouco depois de dar à luz, porque não conseguiu suportar o estigma de estar com uma pessoa com albinismo. Além disso, tinha medo de que, se eles tivessem outro filho, o bebê poderia ser albino. Ibrahim cuida de Jueria durante o dia, e os avós cuidam dela à tarde, quando ele vai para o treino de futebol com o time Albino United, formado por jogadores com albinismo que querem mudar as atitudes da população, provando que são capazes de jogar futebol e difundindo a mensagem que os assassinatos de albinos precisam acabar. Ibrahim não tem emprego; ele não estudou o suficiente para conseguir um trabalho em um ambiente fechado. Esse tipo de emprego normalmente requer mais qualificações que os trabalhos feitos ao ar livre.
  • Katie Orlinsky (New York, New York)
    Katie Orlinsky
    Em pé numa canoa feita de peles de foca, o arpoador Quincy Adams, do povo Iñupiat (indígena do Alasca), vasculha o horizonte à procura de baleias, a quilômetros da cidade de Barrow, no Alasca, no dia 18 de abril de 2016. A barreira de neve foi erguida pela equipe de baleeiros para que suas presas não pudessem ver seu acampamento. O derretimento e movimento de gelo marinho vem tornando a caça às baleias cada vez mais perigosa, e a comida começa a escassear em muitos vilarejos de indígenas.
  • Myrto Papadopoulos (Athens, Greece)
    Myrto Papadopoulos
    "Meu nome é Amani el Mekhlef. Tenho 29 anos e cinco filhos. Quando eu estava na Síria, estava grávida de sete meses e um dia uma bomba caiu ao lado de minha casa. Perdi o bebê. Me levaram para um lugar para tirar o bebê da minha barriga sem anestesia. Os médicos levaram cerca de seis horas para tirar o bebê. Depois disso decidimos partir, e eu estava grávida outra vez. Basicamente, partimos quando eu estava grávida de meu filho, devido aos muitos bombardeios. As fronteiras estavam fechadas. Tivemos que esperar uma semana para podermos ir à Turquia. Depois disso, entramos na Turquia e ficamos em um campo de refugiados (Tel Abyad). Após um ano que vivemos no campo, eu engravidei outra vez. Simplesmente aconteceu. Meu marido queria outro filho, devido à nossa cultura e nossos hábitos. Nós não calculamos quantos filhos vamos ter, é o que Deus nos der. Minha sogra tem 18 filhos. A viagem da Turquia à Grécia foi muito dura. Meu marido partiu sozinho da Turquia e eu segui depois (com as crianças). Carregamos muitas coisas, mas acabamos jogando fora a maior parte. Subimos no barco, as crianças chorando o caminho inteiro. Passamos duas horas no mar. Quando chegamos, uma organização veio nos ajudar. Não senti medo algum, graças a Deus. Muitas organizações nos acolheram e nos levaram aos campos. Quando chegamos ao litoral, quase perdi meus filhos por causa da multidão de pessoas que estavam aguardando lá. Em um momento, perdi um de meus filhos e passamos sem comida alguma porque tivemos que procurá-lo."
  • Danielle Villasana (Istanbul, Turkey)
    Danielle Villasana
    Como em muitos outros países do mundo, no Peru há um estereótipo segundo o qual as mulheres transsexuais só são capazes de trabalhar de cabeleireiras ou profissionais do sexo. Mas, como a concorrência por trabalho nos salões de beleza é grande e é preciso pagar pelos estudos, muitas mulheres trans são relegadas a trabalhadoras sexuais. Na foto, Camila, à esquerda, desce do táxi depois de uma longa noite dançando.
  • Nichole Sobecki (Nairobi, Kenya)
    Nichole Sobecki
    CAMPO DE ADI-HARUSH, Etiópia — Uma família carrega seus pertences no campo de Adi-Harush no fim da tarde. Mais de 1 milhão de refugiados eritreus vivem na Etiópia; muitos passam apenas alguns meses em campos como Adi-Harush antes de se lançar na rota longa e perigosa para a Europa, passando pelo Sudão e a Líbia.
  • Michelle Siu (Toronto, Canada)
    Michelle Siu
    A vítima da talidomida Bernadette Bainbridge em sua casa. Ela vive com seus pais idosos, de quem é completamente dependente. Bernadette é uma artista de talento, mas vive muito isolada e não tem amigos. Um de seus sonhos para o futuro é morrer antes de seus pais, porque ela tem medo da incerteza, sem saber quem cuidará dela se seus pais morrerem antes. A talidomida em certa época foi saudada como "medicamento milagroso" para males como insônia e enjoo de gravidez, mas na realidade teve efeitos sinistros sobre os fetos de gestantes que a tomaram. Os bebês nasceram com membros deformados e lesões internas.

Todas as legendas foram fornecidas pela "Women Photograph".

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.