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Esqueça o Islã, o que os terroristas realmente têm em comum é outra coisa

Ataque terrorista deixou sete mortos e 48 feridos em Londres, neste último domingo (4).

05/06/2017 16:51 -03 | Atualizado 05/06/2017 17:26 -03
One of the London Bridge attackers appeared in Channel 4 documentary, The Jihadis Next Door 
Van atropelou pedestres na London Bridge; em seguida pessoas foram esfaqueadas no Borough Market. Três terroristas foram mortos na cena no crime.

Alguns relatos apontam que os terroristas responsáveis pelo ataque à London Bridge, no último domingo (4), disseram "isto é para Alá" enquanto esfaqueavam suas vítimas. Porém, assim como outros ataques terroristas recentes, a verdade já está vindo à tona. E nada tem a ver com religião.

Nesta segunda-feira (5), menos de 48 horas após a tragédia que fez sete mortos em Londres, uma narrativa semelhante emergiu, algo que, como lideranças muçulmanas se apressaram a apontar no último domingo, não reflete nada sobre sua religião e os ensinamentos do islã.

Antes mesmo de ser retirada, a fita amarela que protegeu a cena do crime, vieram à tona detalhes sobre um dos homens, mostrando que ele era tão falso quanto os falsos coletes de explosivos que os três jihadistas tinham presos a seus peitos.

REUTERS
O agressor, conhecido como

A polícia ainda não divulgou os nomes dos homens responsáveis pelo ataque, mas já sabemos que um deles, conhecido por enquanto apenas como Abz, tinha sido expulso da mesquita que frequentara e era usuário de drogas. E morreu trajando uma camiseta do time Arsenal.

A metamorfose assassina pela qual passou esse homem de 27 anos possui semelhanças surpreendentes com as de vários outros terroristas cujos ataques, reivindicados pelo Estado Islâmico, abalaram o Reino Unido e a Europa nos últimos dois anos.

Especialistas em contraterrorismo disseram ao HuffPost UK que questões sociais são um elemento comum a muitos terroristas, já que eles frequentemente "caem pelas frestas" da sociedade depois de terem ficado "isolados, sem voz e insatisfeitos" em suas próprias comunidades.

Khalid Masood, o terrorista que atacou na ponte de Westminster e cuja metodologia se suspeita que tenha inspirado o ataque mais recente, teria dormido com prostitutas, fumado crack e brandido facas na cara de pessoas, antes de cometer seu ataque.

Policiais armados montam guarda no local na London Bridge onde terroristas arremeteram sua van contra pessoas, antes de descerem dela para esfaquear pessoas que curtiam a noite na vizinha Borough Market.

A dona do imóvel onde Masood morou disse ao jornal The Independent que seu inquilino era "um louco" e "não era muçulmano de verdade". Masood, de 52 anos, que no dia 22 de março matou quatro pedestres com seu carro antes de esfaquear e matar o policial Keith Palmer, tinha condenações anteriores por danos criminais e posse de uma arma branca.

Salman Abedi, que matou 22 pessoas e deixou mais de 100 outras feridas depois de detonar uma bomba na Arena de Manchester, 15 dias atrás, tinha abandonado a faculdade, bebia, fumava maconha e tinha sido expulso da mesquita de seu bairro.

Depois dos ataques de Paris -- ataques coordenados com tiros e bombas que deixaram 130 mortos --, foi revelado que um dos terroristas, Ibrahim Abdeslam, passava seu tempo fumando maconha e bebendo álcool. E foi dito na época que seu grupo de terroristas pode ter cometido os ataques assassinos quando estava sob o efeito de um coquetel de drogas, já que agulhas, seringas e tubos de plástico foram encontrados em seu quarto de hotel. Mas também foi sugerido que esses materiais poderiam ter sido utilizados para carregar cinturões suicidas com explosivos.

Salman Abedi tinha abandonado a faculdade, fumava maconha e foi expulso de sua mesquita local, antes de matar 22 pessoas na explosão na Arena de Manchester.

Mohamed Lahouaiej Bouhlel, que matou 84 pessoas investindo contra multidões em Nice (França) com um caminhão de 19 toneladas no Dia da Bastilha, em julho de 2016, também tinha um histórico de violência e uso excessivo de drogas e álcool.

Walid Hamou, um primo de sua esposa, comentou que Bouhlel "não era muçulmano, era um bosta".

Hamou disse ao MailOnline: "Bouhlel não era religioso. Ele não frequentava a mesquita, não rezava, não observava o Ramadã. Bebia álcool, comia carne de porco e usava drogas. Tudo isso é proibido pelo islã.

"Ele não era muçulmano, era um bosta. Ele espancava sua mulher, minha prima. Era um sujeito repulsivo."

O professor Tahir Abbas, pesquisador sênior do Royal United Services Institute, em Londres, disse ao HuffPost Reino Unido que terroristas como Abz, de comunidades "marginalizadas", frequentemente adotam comportamentos antissociais, algo que os converte em alvos fáceis de esforços de radicalização.

Imãs seguram flores, reunidos na ponte de Westminster antes de uma vigília em memória às vítimas do ataque terrorista da ponte de Westminster.

Abbas disse que os homens brancos são afetados da mesma maneira no Reino Unido, mas que, em vez de projetar esses sentimentos globalmente, sua insatisfação é muito localizada. Segundo ele, esses homens demonstram hipernacionalismo e um senso deturpado de história e patriotismo.

O professor disse que há dez anos vem procurando afastar a discussão da ideia de que o terrorismo seria fruto apenas de uma "ideologia perversa". Segundo ele, não foram propostas novas ideias de como fazer frente ao terrorismo.

No domingo, tanto a Comunidade Muçulmana Ahmadi quanto o Conselho Muçulmano Britânico explicaram que o ataque na London Bridge fere os preceitos de sua religião.

Condenando o ataque, o imã Abdul Quddus, da Comunidade Muçulmana Ahmadi, disse: "A religião islâmica diz que, se você mata uma alma inocente, é como matar a humanidade inteira, e se você salva uma alma inocente, é como salvar a humanidade por inteiro. 'Muçulmano' é aquele que protege os direitos dos outros. Um verdadeiro muçulmano tem apenas dois objetivos. Um objetivo é realizar os direitos de Deus, e o segundo e realizar os direitos de seus seres humanos irmãos."

Harun Khan, do Conselho Muçulmano Britânico, disse: "Os muçulmanos de todo o mundo estão ultrajados e enojados com esses covardes que mais uma vez destruíram as vidas de nossos concidadãos britânicos."

Han disse que o fato de o ataque ter acontecido no mês do Ramadã, quando muitos muçulmanos estão orando e jejuando, "é mais uma prova de que essas pessoas não respeitam nem a vida nem a fé".

Em um blog para o HuffPost Reino Unido, na segunda-feira, o ex-chefe de contraterrorismo Jim Gamble deixou claro que a religião não é relevante para qualquer discussão sobre terrorismo: "Estamos falando de terroristas, indivíduos que utilizam a violência para fomentar suas finalidades políticas. Apenas um tolo que não soubesse nada sobre o terrorismo associaria atos criminosos com uma religião ou uma comunidade."

*Este post foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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