MULHERES

Como a luta das argentinas pode inspirar o Brasil, segundo uma das fundadoras do Ni Una Menos

Há exatos dois anos, a marcha das mulheres argentinas se tornava uma inspiração para a América Latina.

02/06/2017 20:55 -03 | Atualizado 05/06/2017 12:22 -03
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Um luminoso foi aceso durante um protesto do Ni Una Menos em 17 de Abril de 2017, em Buenos Aires, na Argentina.

Chiara Paez, de 14 anos, foi morta a pauladas pelo namorado, de 16. O corpo da adolescente grávida foi encontrado na casa dos avós do rapaz.

Lucía Pérez, de 16 anos, foi drogada, estuprada e morta por empalamento. Suspeita-se que o crime tenha sido cometido por um grupo de homens envolvidos com o tráfico de drogas.

Belén, de 27 anos, foi condenada a 8 anos de prisão por suspeita de ter induzido um aborto.

Micaela Garcia, de 21 anos, estudante e feminista, foi estuprada e morta em abril deste ano.

Chiara, Lucía, Belén e Micaela são argentinas e são mulheres.

É por histórias como a delas que, em há dois anos, no dia 3 de junho 2015, cerca de 300 mil pessoas se reuniram na praça em frente ao congresso de Buenos Aires exigindo soluções às consecutivas violências contra as mulheres no país em que uma mulher é morta a cada 30 horas.

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Manifestante segura cartaz com o rosto de Micaela García em protesto em Abril de 2017.

O movimento, que foi organizado pelas redes sociais e convocado por artistas, organizações locais e associações políticas, ficou mundialmente conhecido como Ni Una Menos - Vivas nos queremos. Hoje, dois anos depois, o que começou em Buenos Aires se espalhou e a militância das argentinas inspirou mulheres de toda a América Latina.

"Elas [integrantes do Ni Una Menos] mudaram fundamentalmente a forma como as pessoas enxergam o feminismo. As mulheres argentinas são fortes e combativas. Me surpreende a capacidade delas de se auto-organizarem, se acolherem. Vendo a luta feminista argentina eu percebo isso: as nossas vozes estão sendo escutadas. E é sem dúvidas uma inspiração para todas nós", compartilha Vanessa Dourado, brasileira que vive na capital argentina há dois anos, em entrevista ao HuffPost Brasil.

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Uma das manifestantes afirma "o nosso sangue tem valor" em manifestação contra o feminicídio na Argentina em Abril de 2017.

Isabela Gaia faz parte do Coletivo Passarinho. Formado em 2016, ele é composto por brasileiros que vivem no país hermano e que enxergaram nas organizações argentinas uma inspiração para não ficarem apenas na militância virtual.

"A força da militância argentina influenciou a gente a se organizar. O Ni Una Menos cresceu com uma velocidade impressionante. Mas claro que isso só aconteceu porque estamos falando de um país que possui um histórico de encontros nacionais de mulheres desde a década de 80. É um histórico de luta muito forte", explica Gaia.

Gisele Ribeiro mora há 5 anos na Argentina e conheceu o feminismo lá. De acordo com ela, a educação política é algo que cresce no país. "As mulheres argentinas estão cada vez mais cansadas e menos tolerantes com o machismo. Elas se empoderam e se reeducam a partir da desconstrução de noções violentas do que é ser mulher. Falta muito, muito mesmo. Mas as iniciativas de transformação estão por todos os lados", aponta.

Dois anos e a política pela vida das mulheres

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"Justiça por Micaela", dizem os cartazes que as mulheres seguram em protesto contra violência machista.

Atualmente, a presença de mulheres no governo da Argentina é uma das maiores na história do país. Mauricio Macri está rodeado delas em cargos importantes: são três ministras, a vice-presidente, a governadora e a prefeita de Buenos Aires, por exemplo. Porém, pautas feministas não avançaram na discussão, como a legalização do aborto e a lei que estabelece a paridade entre homens e mulheres em cargos políticos.

"Ter mulheres em situações de poder não quer dizer que elas representem os interesses do movimento feminista. Ter essas mulheres não beneficiou as pautas feministas, bem como ter a Cristina Kirchner no poder, uma das políticas mais progressistas, não garantiu que a lei do aborto fosse aprovada, por exemplo", afirma a especialista em gênero e sexualidade, Cecília Palmeiro, que também é uma das fundadoras do Ni Una Menos, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Difícil é não comparar os casos e o panorama argentino com o que acontece no Brasil. Em terras tupiniquins, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada e, cerca de 50 mil casos de estupro são registrados anualmente. Porém, estima-se que isso representa apenas 10% da quantidade dos casos.

E isso é só a ponta do iceberg.

Segundo dados do Mapa da Violência, os feminicídios contra negras aumentaram 54%, no Brasil ao passo que o índice de mortes violentas de mulheres brancas diminuiu 9,8%. Foram 13 homicídios femininos por dia: uma mulher morta a cada 1h50min. É o equivalente a exterminar todas as mulheres em 12 municípios do porte de Borá (SP) ou Serra da Saudade (MG), que têm menos de 400 habitantes do sexo feminino.

"O Brasil tem um histórico de lutas raciais, e somos nós que temos que aprender com isso. Por outro lado, o que nós podemos compartilhar com vocês é a tradição de movimentação e politização permanente que temos aqui. Nós vamos pras ruas e sabemos que elas nos pertencem", aponta Palmeiro, ao falar sobre como as argentinas podem inspirar as brasileiras na luta pela garantia de seus direitos.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Como você enxerga a trajetória do Ni Una Menos até aqui?

Cecília Palmeiro: O que aconteceu desde 2015 até agora foi uma transformação da representação política dessas mulheres em termos de sujeitas históricas. A partir da primeira marcha do Ni Una Menos, o que começou com um grito coletivo virou uma maré global. Tem uma série de manifestações oceânicas que foram se traduzindo e se espalhando pelo mundo, na Argentina, se espalhando pela Espanha, Peru, depois foi para o Brasil e tomou a América inteira. A gente se traduz e a gente cresce como maré.

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Fotos de mulheres desaparecidas e assassinadas pelas mãos de homens são expostas em protesto contra a violência machista durante protesto do 'Ni Una a Menos'.

Qual o principal legado do movimento desde a 1ª marcha?

O que nós conseguimos foi impactar debate público e institucional, marcar a agenda política, Mesmo que a violência contra as mulheres não tenha diminuído... Pelo contrário, piorou no sentido da crueldade dos feminicidios e da repressão policial às manifestações. Estamos assistindo a repressão aos movimentos de mulheres no mundo inteiro e a reação conservadora contra a nossa revolução. Porque é uma revolução sensível. É uma revolução molecular que acontece no nível dos corpos, do discurso, das poéticas, e reflete na forma com que a gente expressa e imagina os nossos protestos, mas também em como imaginamos um novo mundo possível.

O que você acha que as argentinas podem ensinar às brasileiras em termos de militância?

Eu tenho uma relação muito legal com o movimento de mulheres no Brasil, com associações de mulheres brasileiras, com as Hermanas, com o fundo de mulheres. Temos uma relação de sororidade com o movimento no Brasil. Nós fizemos a greve internacional de mulheres juntas, com muita comunicação permanente. Não acho que a gente tenha só o que ensinar. A gente tem muito o que aprender mutuamente. O Brasil é um importante exemplo para nós de interseccionalidade e a relação entre os diferentes feminismos. Com a greve internacional, os diferentes feminismos no Brasil fizeram uma aliança sólida e conseguiram fazer uma grande manifestação no país inteiro. O Brasil tem um histórico de lutas raciais, e somos nós que temos que aprender com isso. Por outro lado, o que nós podemos compartilhar com vocês é a tradição de movimentação e politização permanente que temos aqui. Nós vamos pras ruas e sabemos que elas nos pertencem.

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As mulheres em protesto contra o feminicídio na Argentina em abril de 2017.

Como você enxerga o papel das mulheres na luta por seus direitos em seu país?

O papel das mulheres na luta por seus direitos e direitos humanos está muito marcado na Argentina pela figura das mães da Plaza de Mayo. Elas foram o primeiro grupo de mulheres a sair para as ruas e fazer uma luta radical e internacional. Nós somos suas herdeiras e filhas. Elas, que já eram mulheres fazendo política, mulheres lutando, não se achavam feministas em suas práticas. Agora, depois do movimento Ni Una Menos - as madres são muito aliadas e muito próximas, elas sempre estão em nossas manifestações, conferências e presentes em nossos escritos -, agora elas se chamam de feministas. Nora Cortiña, uma das madres fundadoras, falou que agora ela é feminista e isso é uma coisa ótima. É muito interessante ver as gerações sendo aliadas, se ajudando, se potencializando e construindo mutuamente. E o feminismo aparece como esse lugar em que as mulheres podem aprender umas com as outras sobre nossas tradições. E é também um espaço para radicalizar, fortalecer as ideias e as lutas de todas e de cada uma.

O presidente Macri está rodeado de mulheres em seu governo. Isso tem ajudado no avanço de pautas feministas na política?

Quando se trata de responsabilidade, a gente ainda não tem a paridade garantida pela lei nos 50% dos cargos políticos. Vemos que no governo atual temos algumas mulheres em posições hierárquicas, não como presidente, mas temos a governadora da província de Buenos Aires, temos uma vice-presidenta, mas elas não representam os interesses de todas as mulheres, muito pelo contrário, elas são bancadas pela igreja católica e tem posições anti-feministas. Ter mulheres em situações de poder não quer dizer que elas representem os interesses do movimento feminista. Ter essas mulheres não beneficiou as pautas feministas, bem como ter a Cristina Kirchner no poder, uma das políticas mais progressistas, não garantiu que a lei do aborto fosse aprovada, por exemplo. Porque essas questões não são simplesmente questões de identidade e solidariedades automáticas. De qualquer jeito, é super importante a presença de mulheres na política, não porque sejam garantias de progressividades, mas simplesmente porque é uma questão de direito. Nós temos o direito de ocupar a política.

E quais outros lugares você quer ver o Ni Una Menos ocupar?

Nossa próxima ação [marcada para este 3 de junho] é a marcha contra a violência institucional durante as manifestações. A ideia é que nossa maré possa crescer e ocupar todos os espaços possíveis, desde os lugares institucionais, até as ruas, passando pelos ambientes de trabalho, partidos, enfim, tudo.

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