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9 momentos em que Donald Trump revelou que não entende o acordo climático que acaba de abandonar

O presidente não chegou a mencionar o aquecimento global, sabe?

02/06/2017 15:35 -03 | Atualizado 02/06/2017 15:52 -03

O presidente Donald Trump anunciou na quinta-feira seu plano de retirar os EUA do Acordo climático de Paris, proferindo um discurso na Casa Branca que fez o pacto histórico soar como um acordo comercial, algo que ele não é. Mas esse foi apenas um dos espinhos do discurso que ele fez no Jardim de Rosas da Casa Branca.

Aprovado por todos os países do mundo menos a Síria e a Nicarágua, o acordo não vinculativo (ou seja, sem força de lei) para reduzir as emissões que aquecem o planeta assinala o compromisso assumido por seus signatários em reduzir suas emissões de gases estufa e voltar à mesa de negociações a cada cinco anos para definir metas mais ambiciosas, na esperança de que o mundo possa evitar os efeitos mais catastróficos do aquecimento global.

Em seu discurso, Trump não mencionou os dados científicos climáticos nem o consenso sombrio entre praticamente todos os climatologistas avalizados de que as emissões geradas pela queima de combustíveis fósseis, a agroindústria e o desmatamento estão encaminhando o mundo para um aquecimento que levará a mudanças irreversíveis no clima até o final do século.

Por essa omissão apenas o discurso já foi enganoso. Veja abaixo nove outros pontos em que Trump errou:

1. "O custo [do acordo] para a economia [dos EUA] neste momento seria de quase US$3 trilhões em PIB perdido."

Essa estimativa saiu de um estudo "que não leva em conta os benefícios potenciais decorrentes das emissões evitadas". O estudo foi financiado pelo Conselho Americano de Formação de Capital e a Câmara de Comércio dos EUA –dois grupos que representam grandes poluidores e que há anos fazem lobby contra as políticas públicas climáticas. A estimativa destacada no estudo é baseada em algo que, em março, o Conselho de Defesa de Recursos Naturais (NRDC) descreveu como "um cenário fictício que não reflete propostas atuais nem planos realistas para alcançar nossas metas climáticas."

Kevin Steinberger e Amanda Levin, especialistas do NRDC, escreveram em um post: "O estudo da Câmara de Comércio intencionalmente impõe as normas mais rígidas sobre gases estufas aos setores que enfrentariam os custos mais altos por tonelada de redução de gases estufa. Esse cenário exagera tremendamente o custo provável de qualquer programa futuro para alcançar a redução ampla definida no Acordo de Paris, isso porque qualquer programa real para alcançar essas metas seria traçado com a flexibilidade poupadora de custos que a Câmara propositalmente excluiu de seu estudo."

2. "Sair do acordo protege os Estados Unidos contra ingerências futuras em sua soberania e maciços ônus legais futuros. Acredite em mim, teremos responsabilidade legal maciça se continuarmos no acordo."

O Acordo de Paris é não vinculativo legalmente, ou seja, não tem peso de lei. Isso significa que os Estados Unidos não poderiam ser punidos se deixassem de alcançar o compromisso assumido em 2015 de 26% a 28% de redução de suas emissões. Apesar dos argumentos em contra da Casa Branca, especialistas legais disseram que os EUA poderiam ter negociado uma meta mais baixa de emissões sem se retirarem do acordo voluntário.

O presidente Trump cumpriu sua promessa de campanha de tirar os EUA do pacto climático.

3. A China "vai poder fazer o que bem entender por 13 anos. Nós, não."

Fica subentendido aqui que a China pretende continuar a aumentar suas emissões. Mas um estudo do ano passado constatou que as emissões da China já alcançaram seu nível máximo e estavam previstas para cair 1% em 2017. A precisão dos dados oficiais chineses frequentemente é questionada, com razão. Mas vários estudos independentes conduzidos nos últimos três anos corroboraram a queda nas emissões chinesas.

Nos últimos anos a China vem fazendo investimentos enormes em energia renovável. Em janeiro o país reservou US$360 bilhões para investimentos em energia limpa nos próximos quatro anos e cancelou planos de construção de 103 novas usinas elétricas movidas a carvão. Com isso, milhares de empregos estão desaparecendo nas regiões de mineração de carvão da própria China..

4. "Resumindo, o acordo não elimina os empregos no carvão. Apenas transfere esses empregos para fora da América e dos Estados Unidos, levando-os para países estrangeiros."

Para começo de conversa, o texto do Acordo de Paris não menciona o carvão em momento algum. E, embora o plano do presidente Barack Obama de limitar as emissões de usinas americanas movidas a carvão possa não ter ajudado o setor combalido do carvão, os próprios executivos desse setor admitem que os principais culpados pela perda de empregos na extração de carvão são a concorrência do gás natural e a queda da demanda externa.

Para conseguir se recuperar em alguma medida, a indústria do carvão precisa continuar a exportar para países como a Índia, onde o carvão ainda é uma fonte de combustível muito utilizada. O repúdio diplomático que os EUA vão sofrer por terem se retirado do Acordo de Paris pode dificultar essa possibilidade.

"O futuro está nos mercados externos; logo, a última coisa que as empresas de carvão querem é que os EUA abram mão de seu lugar à mesa das discussões climáticas internacionais e deixem que os europeus controlem essa agenda", disse um funcionário governamental dos EUA ao jornal "The Independent" em abril.

5. "Esse acordo tem menos a ver com o clima e mais a ver com outros países ganhando vantagem financeira sobre os Estados Unidos."

Deixando de lado o absurdo dessa afirmação, os EUA assumiram a liderança na redação do Acordo de Paris justamente para poderem negociar termos mais favoráveis para a América do que os existentes em pactos climáticos anteriores. Por exemplo, o Protocolo de Kyoto, firmado em 1997, determinou que os países em desenvolvimento não eram obrigados a reduzir suas emissões. Esse fato foi parte da justificativa apresentada pelo presidente George W. Bush por ter se recusado a implementar o tratado em 2001.

"Já no caso do Acordo de Paris, não há justificativa para nossa saída", disse ao HuffPost na quinta-feira Susan Biniaz, a ex-advogada do Departamento de Estado para questões relativas à mudança climática. "Negociamos o acordo em grande medida para atender às exigências dos Estados Unidos e resolver os problemas presentes no Protocolo de Kyoto."

O Acordo de Paris não menciona usinas movidas a carvão, como esta no Texas. Reuters Photographer / Reuters

6. "No entanto, com este acordo, estamos na prática trancando estas reservas [energéticas] a sete chaves, deixando de aproveitar a grande riqueza de nossa nação – é riqueza grande, é riqueza fenomenal."

O gás natural, barateado por uma técnica de perfuração conhecida como fraturamento hidráulico, ou "fracking", é o grande responsável pelo fato de os Estados Unidos já ter reduzido sua pegada de carbono em 12% em relação ao nível de 2005 (pelo Acordo de Paris, o país se comprometeu a reduzi-lo em 26%-28%). Não há nada no acordo que proíba os EUA de extrair combustíveis fósseis. Existem maneiras responsáveis de extrair combustíveis fósseis. O problema é que a administração Trump não parece estar interessada em fazê-lo. Uma das primeiras iniciativas da EPA (a Agência de Proteção Ambiental) na administração Trump foi eliminar uma norma que obrigava as empresas de petróleo e gás a prestar contas de vazamentos de metano, um gás natural potente que é capaz de prender na atmosfera 30 vezes mais calor que o dióxido de carbono.

7. "Com crescimento econômico de 1%, as fontes de energia renováveis podem suprir parte de nossa demanda doméstica. Mas com crescimento de 3% ou 4%, que é o que eu prevejo, precisamos de todas as formas disponíveis de energia americana, senão nosso país estará em risco grave de sofrer blecautes parciais ou completos. Em muitos casos, nossas empresas vão ficar paradas. E a família americana sofrerá as consequências, sob a forma de empregos perdidos e uma qualidade de vida muito diminuída."

Essa afirmação parece ter sido baseada em um estudo controverso liderado pelo secretário da Energia, Rick Perry, sobre a confiabilidade da malha elétrica. Para começo de conversa, o estudo não consultou nenhuma empresa de eletricidade. O estudo foi comandado pelo diretor de um "think tank" de direita. Como observa David Roberts, da Vox, o estudo inteiro é um ataque político contra as fontes de energia renováveis; agora que não é mais possível argumentar que as fontes energéticas que produzem emissões zero são pouco competitivas em matéria de preço, o estudo procura apresentá-las como sendo "pouco confiáveis". Além disso, como observa Roberts, a fonte real de problemas no suprimento de energia suficiente para cobrir a necessidade mínima da malha elétrica é o gás natural. Mas é pouco provável que alguém da administração Trump queira incorrer na ira das empresas de gás, chegando a essa conclusão.

8. "Além das restrições energéticas graves impostas pelo Acordo de Paris, este inclui ainda outro esquema para redistribuir riqueza para fora dos Estados Unidos, através do chamado Fundo Climático Verde – bonito nome -, que prevê que os países desenvolvidos enviem US$100 bilhões aos países em desenvolvimento, além de todos os pagamentos existentes e maciços de ajuda externa que os EUA já fazem. Então vamos ter que pagar bilhões e bilhões e bilhões de dólares, sendo que já pagamos muito mais que qualquer outro país."

Sob Obama, os EUA se comprometeram a contribuir apenas US$3 bilhões para o Fundo. É o mesmo montante que custarão 100 quilômetros de um muro na fronteira que pode se estender por mais de 1.600 quilômetros.

9. "Fui eleito para representar os cidadãos de Pittsburgh, não de Paris."

Na eleição presidencial de 2016, a candidata democrata Hillary Clinton recebeu 80% dos votos em Pittsburgh. Já Trump venceu por 78% dos votos no condado do Texas que abrange a cidade de Paris, com 14.561 votos contra os 3.583 dados a Hillary. 😉

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e foi traduzido do inglês.

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