ENTRETENIMENTO

Como ‘Master of None’ captura a solidão da constante conectividade

E recria os altos e baixos da vida moderna.

01/06/2017 17:39 -03 | Atualizado 01/06/2017 17:46 -03
E, se a vida agora é isto — vai, vai, vai —, como são as histórias de hoje para capturar o que significa ser uma pessoa no mundo?

Ultimamente tem se falado muito sobre o excesso de coisas. Há muitas coisas por aí; estão em todos os lugares! Nossos armários estão cheios de coisas; nossos feeds de notícias estão cheios de coisas, nossas agendas estão cheias de coisas. Nossas relações amorosas também estão bagunçadas. Como uma pessoa solteira e jovem deve navegar pela atraente sobrecarga do Tinder e afins para então desacelerar o suficiente e formar uma conexão genuína?

E, se a vida agora é isto — vai, vai, vai —, como são as histórias de hoje para capturar o que significa ser uma pessoa no mundo? Se uma história tem intenção de ser realista — para refletir a vida como ela é, em vez de falseá-la para iluminar impurezas —, ainda pode ser divertida ou não pode ser nada mais do que um retrato do mal-estar alimentado pelos aplicativos?

A segunda temporada de "Master of None" consegue responder a todas estas perguntas artisticamente. Em seus dez episódios de 30 minutos, os criadores Aziz Ansari e Alan Yang nos levam a Módena, na Itália, e depois de volta a Nova York. Somos levados em uma tormenta de primeiros encontros amorosos esquisitos e a uma mesa de jantar de Ação de Graças de uma família, que evolui à medida que as décadas passam. A colagem resultante é uma imagem luxuosa da vida moderna, de seus momentos de redemoinho e de seus momentos de indiferença e isolamento.

A série admite que ser jovem hoje realmente significa viver em meio ao excesso de coisas e de forma desordenada. As conversas entre os personagens passam longe de suas próprias primeiras experiências. Há um episódio inteiro estruturado em torno de diferentes grupos de pessoas que se reúnem para ver um sucesso de bilheteria de Nicholas Cage, um filme ruim-bom com uma reviravolta chocantemente ofensiva. A pedra de toque cultural está em todos os lugares, infiltrando anúncios de taxis e momentos compartilhados entre amigos.

Em seu curto livro, What Was the Hipster?, os editores da revista digital de literatura n+1 identificaram o pastiche como uma das características do estilo de vida dos hipsters. Independentemente de Ansari ter lido o trabalho deles, sua escolha de preencher a série com cenas centradas na produção de TV, audiência da TV, jogos de videogame e referências a "Friends" faz com que as histórias do personagem pareçam verdadeiras.

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Existem maneiras mais sutis e de menores proporções nas quais "Master of None" gera a sufocante sensação de que a informação está em toda parte ― o discreto alerta de mensagens de texto de Dev, por exemplo, está sempre tocando. Mas a série também inteligentemente inclui longos e dolorosos trechos de silêncio tecnológico. Quando o telefone de Dev é roubado durante o primeiro episódio da segunda temporada, justo depois dele ter conseguido o número de uma garota que conheceu no almoço, de repente percebe como todos estão absortos em suas vidas dependentes do telefone. Em um dos poucos momentos absurdos do programa, há até um zoom de um italiano acariciando seu aparelho enquanto Dev olha com inveja.

Esses momentos sem rumo e de nostalgia em meio a uma névoa vertiginosa de informação são alguns dos mais potentes da temporada. Depois que uma paquera on-line passa de promissora a esquisita, Dev entra sozinho em um taxi e tudo é silencioso, exceto pelos sons das ruas. Durante um trajeto ao norte da cidade de Nova York, rumo ao Storm King, uma instalação de arte permanente, Dev e Francesca observam as folhas das árvores e silenciosamente dominam a cena. (E, então, Dev faz uma brincadeira sobre a senha do WiFi do local.) A série faz um esforço consciente de pontuar períodos de excesso tecnológico com trechos de silêncio e, dessa forma, recria os altos e baixos da vida moderna.

Ansari não é o primeiro roteirista que tenta atingir esse equilíbrio do rápido, inteligente, brincalhão e real sentimento humano. Em 2000, o crítico literário James Wood escreveu um polêmico ensaio focado em White Teeth, de Zadie Smith. "Um gênero está se solidificando", comentou Wood, descrevendo um grupo de autores — Smith, Salman Rushdie, Don DeLillo e David Foster Wallace — que narra o que ele descreve como "realismo histérico" ou histórias realistas que refletem o ruído da vida moderna sem o sentimento das conexões humanas e dificuldades individuais.

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Desde que o ensaio de Wood foi escrito, foram publicados vários romances louváveis que conseguiram englobar tanto o rápido ritmo da modernidade e a apática vida daqueles que estão presos em seu domínio; Private Citizens, de Tony Tulathimutte, e Taipei, de Tao Lin, exemplificam este tipo de narrativa. (Provavelmente não é coincidência que ambos os autores se envolvam diretamente com a vida na Internet.) Mas "Master of None" pode ser a única série que aborda esses temas de uma maneira que não faz do Tinder motivo de piada. Em vez disso, é apenas outra parte do mundo pela qual Dev se move, publica e privadamente.

Em uma das cenas mais fortes da temporada (além dos "episódios da garrafa" quase perfeitos, que já foram adoravelmente descritos em outros lugares), Dev e seu amigo bobo Arnold estão jantando em um restaurante mundialmente famoso, mas nenhum deles consegue desfrutar da refeição porque, embora sejam as duas únicas pessoas presentes, estão separadamente absortos em seus próprios dramas pessoais. Nós, como espectadores, sabemos que os dois estão chateados sobre suas perspectivas amorosas, mas cada um pensa que o outro está melhor. Esta é a dramática ironia, e, normalmente, é o que nos envolve nas dificuldades de um personagem.

Os dramas que alimentam grandes histórias devem parecer raros em um mundo de gratificação instantânea; Romeu e Julieta poderiam ter vivido juntos para sempre se tivessem celulares. Mas essas pequenas diferenças, entre como nos sentimos e o que dizemos, entre o que ouvimos e o que entendemos, estão em toda a parte. Estão em seu perfeitamente iluminado Instagram do seu brunch com ovo mole; estão na série de animados emojis que você envia para um paquera mais ou menos. Estão no tranquilo trajeto em um Lyft, quando você é o único passageiro que resta.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e ​traduzido do inglês.

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