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Se a economia dá sinais de melhora, por que a taxa de desemprego só cresce?

Para economistas, há trabalhador ocioso. Ou seja: ainda há margem para demitir mais pessoas.

31/05/2017 19:56 -03 | Atualizado 01/06/2017 09:10 -03
AndreyPopov
Midsection of businesswoman striking out employees representing recruitment

As primeiras medidas de austeridade do presidente Michel Temer surtiram efeito nos indicadores econômicos no último ano.

A inflação de abril, acumulada no ano, por exemplo, foi de 4,08%, melhor resultado em uma década, e ficou abaixo do centro da meta do governo, que é de 4,5%. A taxa básica de juros (Selic), também teve sucessivas quedas desde abril de 2016, passando de 14,15% ao ano, para 12,15%, em abril de 2017.

Com a recuperação dando os primeiros sinais, fica a dúvida: por que o desemprego ainda continua batendo recordes a cada trimestre?

A taxa de desocupação medida pelo IBGE bateu 13,6% entre fevereiro e abril deste ano. Isso significa que cerca de 14 milhões de brasileiros estão desempregados. O resultado ficou um ponto percentual acima da taxa do trimestre anterior, de novembro a janeiro - em apenas três meses, mais de um milhão de pessoas perderam seus empregos.

O resultado é como balde de água fria para brasileiros que buscam uma recolocação no mercado de trabalho, ainda mais em um momento em que a economia mostra sinais de recuperação.

Mas economistas explicam que isto é um movimento normal. A taxa de desemprego é o último indicador a se recuperar depois de uma crise, assim como o último a mostrar sinais de deterioração.

"A taxa de desemprego cresce com defasagem de tempo porque o custo de demitir é alto, assim como de contratar e treinar um funcionário. O empresário espera confirmar a recessão", disse a economista e professora da UFRJ, Margarida Gutierrez.

Uma vez confirmada a crise, o empresário não vai investir na produção, aumentando o número de funcionários, antes de verificar uma melhora no cenário econômico. "Ele só vai voltar a contratar depois de confirmar as expectativas de recuperação", disse a professor da UFRJ.

Outro ponto que explica os aumentos consecutivos do desemprego é a ociosidade em muitas empresas. O economista Eduardo Reis Araújo, membro do Conselho Federal de Economia (COFECON), conta que, apesar de o número de desempregados assustar, ainda há ociosos empregados. "O nível de produção ainda fica abaixo da taxa de desemprego, ou seja, há margem para mais demissões. No limite, as empresas que não demitirem vão permanecer com o mesmo número de funcionários até a produção aumentar", afirmou, acrescentando:

Enquanto a economia não dar sinais mais fortes de crescimento, não haverá uma melhora significativa.

O economista explica que a taxa está longe de chegar ao limite, o que deve acontecer só a partir do segundo trimestre de 2018. "Tudo vai depender dos próximos passos do governo. Um indicador importantíssimo é o endividamento público", disse, ressaltando que o setor público encerrou fevereiro com déficit primário de R$ 23,468 bilhões, pior resultado para o mês desde 2001.

O impacto das delações para a economia

O que complica ainda mais a situação são as "delações-bomba" de ex-executivos da Odebrecht e dos donos da JBS, Joesley e Wesley Batista.

De acordo com Eduardo Araújo, economista da COFECON, a recuperação econômica precisaria também da aprovação de pautas que estão em discussão, como a reforma trabalhista e da Previdência, além da retomada de investimento em obras públicas.

"A área de construção civil, grande geradora de emprego no país, foi a mais atingida com as últimas delações e crises de governança. Esta área está praticamente estagnada", explicou. Desde 2014, a área de construção civil no Brasil demitiu mais de 1,08 milhão de trabalhadores.

A crise política instaurada depois da delação dos donos da JBS também atrapalhou o andamento de algumas proposta de Temer para tentar retomar o desenvolvimento e, consequentemente, freou as expectativas dos empresários.

"Essa delação pegou em cheio o presidente. É diferente de qualquer outra delação. Com essa delação, a coisa ficou realmente complicada, ainda com ele dizendo que não vai renunciar", disse Margarida Gutierrez, da UFRJ. Ela finalizou:

Isso é tudo que a gente não precisava para esse momento. A economia terá de esperar, os indicadores ficarão estagnados e a taxa de emprego continuará alta.

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