ENTRETENIMENTO

Como Jean-Michel Basquiat ultrapassou o limite do que é ser um artista norte-americano

Seu legado ultrapassa de longe os números recordes em leilões de arte.

30/05/2017 12:06 -03 | Atualizado 30/05/2017 12:10 -03
Artist Jean-Michel Basquiat in 1983.
O artista Jean-Michel Basquiat em 1983.

Jean-Michel Basquiat, saudado como o primeiro artista negro famoso a abrir caminho no mundo predominantemente branco das galerias de arte de Nova York, fez história há duas semanas quando um quadro seu foi vendido pelo incrível valor de US$110,5 milhões.

Após a venda, que foi um recorde para a casa de leilões Sotheby's, Basquiat (que morreu em agosto de 1988, aos 27 anos e no meio de uma carreira meteórica) tornou-se oficialmente o artista americano cujo trabalho alcançou o preço mais alto em um leilão de arte.

Nascido no Brooklyn, Nova York, em 1960, Basquiat é descrito com frequência em termos do que foi e do que conseguiu se tornar, muito antes de ter "destronado" Andy Warhol para tornar-se o criador da arte que, de fato, tem a cara do que é a América.

"Como um jovem grafiteiro rebelde passou de vender desenhos por 50 dólares em 1980 a ter uma pintura leiloada esta semana por impressionantes 60 milhões de dólares?", indagou o New York Times antes do leilão em 18 de maio.

Mesmo quando Basquiat ainda era vivo, críticos se surpreendiam com sua ascensão da condição de sem-teto e desempregado para o status de celebridade inacreditável, vendendo telas individuais por valores muito baixos aos 24 anos. Basquiat falava abertamente de seu passado traumático, da violência doméstica que sofreu na infância por parte de seu pai, que era haitiano, e das crises de doença mental de sua mãe, porto-riquenha. Ele entrou em contato com a arte e com línguas estrangeiras quando ainda era criança (falava francês, espanhol e inglês com fluência) e demonstrava grande habilidade em ambas, mas na adolescência fugiu de casa e abandonou a escola secundária.

Basquiat vendia camisetas e cartões postais na rua, pouco antes de ele e um amigo adotarem o pseudônimo artístico SAMO e espalharem seus grafites pelo SoHo, um bairro cheio de galerias de arte e galeristas cuja atenção queriam chamar, em Nova York. Desse modo, Basquiat se tornou conhecido: ele colocou sua arte em evidência, para que fosse impossível deixar de vê-la.

AFP/Getty Images
Um funcionário da Sotheby's fala de uma tela sem título de Jean-Michel Basquiat durante exibição prévia para a mídia, em 5 de maio de 2017, na Sotheby's em Nova York.

Ele pintou sua tela de US$110,5 milhões quando tinha apenas 22 anos. Nessa época, já havia pichado "SAMO JÁ MORREU" numa parede da baixa Manhattan, anunciando o fim da colaboração que chamou a atenção de Nova York. Basquiat já havia passado a ter contato direto com artistas, escritores e outras celebridades da época ― Andy Warhol, o apresentador do programa de TV "TV Party" Glenn O'Brien, Blondie, David Bowie, o marchand Larry Gagosian. Ele já levara seus trabalhos explosivos a galerias em mostras solo aclamadas pela crítica – uma fusão punk de neo-expressionismo e primitivismo, com cores fortes, pinceladas maníacas e rostos e corpos esqueletais. Sua arte (milhares de pinturas e desenhos), suas palavras, seu corpo, até mesmo seu cabelo, em pouco tempo passaram a integrar os próprios alicerces da cultura pop da época.

Glenn O'Brien, que escreveu o roteiro do filme Downtown 81, estrelado por Basquiat, colocou a popularidade do artista em perspectiva: "Basquiat tem tantos fãs quanto Bob Marley".

Sua ascensão ao estrelato artístico foi rápida, mas hoje, décadas após sua morte, seu legado é ainda maior; o impacto inegável que ele teve sobre o mundo das artes é muito mais impressionante que sua habilidade em infiltrar nesse mundo rapidamente. Em seus poucos anos de ação, Basquiat trabalhou incansavelmente, fazendo performances, networking e arte, para mostrar sua visão ao mundo –uma visão que incluía a condenação do passado racista dos EUA e a história de brutalidade policial do país, além da celebração de heróis negros e de eventos que, de outro modo, estariam ausentes das paredes de galerias. Basquiat utilizava materiais recuperados e técnicas de grafitagem para inserir a política nesses espaços impecáveis.

Um trabalho em particular, "Defacement (The Death of Michael Stewart)" (Desfiguramento [A morte de Michael Stewart]), registrou a morte de um grafiteiro negro espancado por policiais de Nova York até morrer. "Poderia ter sido eu", disse Basquiat, em frase que reverbera hoje. "Poderia ter sido eu."

FABRICE COFFRINI via Getty Images

Antes de morrer de overdose de heroína, Basquiat manteve relações complicadas com o mundo artístico racialmente segregado, fato iluminado em seus obituários. "Basquiat seria o único artista negro a sobreviver ao rótulo de grafiteiro e a encontrar um lugar permanente como pintor negro no mundo artístico branco", diz um obituário. Hoje seu lugar nesse mundo frequentemente é usado como o prisma através do qual podemos enxergar o establishment de arte contemporâneo – como ele mudou e como não mudou.

"Não havia como não enxergar Basquiat", Jordan Casteel disse ao Guardian. "Ele estava em toda parte e garantia que todos o vissem. Hoje será a mesma coisa, não haverá como não nos enxergar. Vocês vão nos enxergar. Nós, como artistas negros, vamos continuar a lutar por essa visibilidade, e podemos fazê-lo, mas isso também vai significar que o mundo da arte 'mainstream' precisa aceitar que há mais do que alguns poucos de nós e que há talentos reais lá fora."

Quase 30 anos após sua morte, a obra de Basquiat e sua ética de trabalho estão longe de esquecidas. Ele superou Andy Warhol, ultrapassando postumamente os preços obtidos em leilão pelos trabalhos de outros artistas "quintessencialmente americanos" (leia-se: brancos e homens) como Jackson Pollock, Mark Rothko e Robert Rauschenberg. Enquanto a pop art de Warhol abraçava o brilho do consumismo, permitindo que seus compradores ricos sentissem que estavam captando suas brincadeiras, as telas violentas de Basquiat faziam críticas fortes ao poder, colonialismo e conflito de classes, de modo que o espectador que realmente olhasse atentamente raramente podia passar adiante sem ficar marcado.

O mercado de arte e as instituições que lhe dão suporte ainda têm um longo caminho a percorrer em matéria de inclusão – e, de muitas maneiras, funcionam como um reflexo mais divertido dos Estados Unidos e seu avanço lento em direção à mesma inclusão. Enquanto isso, porém, o mercado coroou Basquiat como o artista americano máximo, e somos gratos por isso.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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