POLÍTICA

Próximo na linha sucessória da presidência, Rodrigo Maia é conservador e investigado na Lava Jato

Presidente da Câmara é contra o aborto, o casamento gay e a adoção de crianças por casais homossexuais.

29/05/2017 09:02 -03 | Atualizado 29/05/2017 10:58 -03
Adriano Machado / Reuters
Em todos os cenários de saída de Temer, Maia assumiria a presidência por 30 dias.

Ter nascido em Santiago, no Chile, quase atrapalhou a carreira política de Rodrigo Maia (DEM-RJ), atual presidente da Câmara dos Deputados e próximo na linha sucessória da presidência do Brasil. Isso porque só brasileiros natos podem assumir a presidência da Câmara.

Filho do ex-deputado e ex-prefeito do Rio, Cesar Maia, Rodrigo nasceu no Chile, onde o pai vivia o exílio durante a ditadura militar brasileira. Apesar de ter nascido fora do Brasil, ele foi registrado pelo pai no consulado do Brasil em Santiago, em julho de 1970, o que lhe assegurou o título de brasileiro nato.

O mero detalhe, portanto, não se apresentou como empecilho quando o deputado federal do DEM venceu a disputa com o deputado Rogério Rosso, do PSD, para a presidência da Câmara dos Deputados, em julho do ano passado, em substituição ao ex-deputado Eduardo Cunha, que renunciou à presidência da Casa e teve o mandato cassado em setembro de 2016 por mentir ao afirmar que não possuía contas no exterior em depoimento na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras em 2015.

Reeleito em primeiro turno em fevereiro deste ano, Maia é o próximo na linha sucessória da presidência da República Brasileira e pode assumir o cargo de Michel Temer em todos os cenários: impeachment de Temer (são 14 pedidos no Supremo Tribunal Federal, incluindo o da OAB), a possível cassação da capa Dilma/Temer que será julgada no próximo dia 6 pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ou por ordem do STF (Supremo Tribunal Federal), que abriu inquérito contra o presidente, no centro do escândalo revelado pelas delações da JBS.

Em todos esses cenários, Maia assumiria a Presidência por 30 dias. Nesse intervalo, seriam convocadas eleições indiretas. Inclusive, não há lei que o proíba de ser um dos candidatos na possível eleição indireta — o que significa que ele pode ganhar e ser presidente até as eleições de 2018.

Ex-bancário de temperamento forte

Bancário nos primeiros anos profissionais, Maia deixou o curso de Economia na Faculdade Cândido Mendes para se dedicar à vida política. Aos 26, foi nomeado secretário de Governo durante a gestão de Luiz Paulo Conde (1997-2000), na prefeitura do Rio de Janeiro e, dois anos depois, se elegeu deputado federal, cargo que mantém até o momento.

Ele também é presidente do DEM do estado do Rio e disputou as eleições para a prefeitura da capital fluminense em 2012, mas foi derrotado por Eduardo Paes, reeleito por mais de 64% dos votos.

Fiel ao governo Temer, Maia chegou a ser elogiado pelo peemedebista ao conquistar a presidência da Câmara. À frente da Casa, ele presidiu votações emblemáticas como a reforma trabalhista, aprovada em abril deste ano.

O episódio, porém, foi marcado por uma manobra já bem conhecida na Câmara. Após seu requerimento de urgência ao projeto ser negado no Plenário por insuficiência de votos, Maia colocou o pedido novamente em votação no dia seguinte, com menos de 300 deputados presentes, para então ser finalmente aprovado.

Criticado pela mesma manobra já bem utilizada por Cunha, Maia comemorou o resultado.

Ontem foi um descuido pessoal meu e alguma insatisfação na base, mas estou, como brasileiro, muito feliz.Rodrigo Maia, para Agência Câmara

Conservador nos costumes, o presidente da Câmara já se mostrou ser contra o aborto, contra o casamento gay e a adoção de crianças por casais homossexuais. Em uma entrevista ao jornal o Globo, em 2012, o então candidato a prefeito do Rio disse que seu partido tinha uma posição "conservadora" e que compartilhava da opinião.

Eu tenho uma posição clara, dei uma entrevista à Veja e fui bastante claro. Fui perguntado: 'Você é a favor do casamento do mesmo sexo?'. Não. Eu sou a favor da união civil. 'Você é a favor da adoção por pessoas do mesmo sexo?' Não, eu não sou a favor.Rodrigo Maia, à TV Globo

Maia fez essa declaração como forma de apoio ao ex-governador Anthony Garotinho (PR), que havia criticado naquele ano o apoio de Eduardo Paes (PMDB), que também era candidato à reeleição, à política de defesa dos direitos homossexuais.

Outra marca registrada do presidente da Câmara é o seu temperamento. Emotivo assumido, Maia tomou três pílulas de calmante antes de discursar na posse da presidência da Casa e, mesmo assim, não conteve a emoção ao falar de sua família.

Seu temperamento também já rendeu "climão" nas sessões da Câmara. Em um bate-boca durante uma das votações da PEC dos gastos, aprovada no final do ano passado, Maia disse a um deputado crítico à proposta que "não tinha medo de dedo", após ele discursar com o dedo apontado.

"O senhor pode colocar seu dedo onde Vossa Excelência quiser. Não venham para cima de mim não", disse, aumentando os ânimos entre os deputados.

Em março deste ano, ao justificar a reforma trabalhista proposta pelo Planalto, Maia afirmou que a "Justiça do Trabalho não deveria nem existir". A fala foi amplamente criticada por associações dos magistrados da Justiça do Trabalho.

"Botafogo": o investigado pela Lava Jato

O possível sucessor de Temer também é alvo de dois inquéritos no STF, resultado das delações premiadas de ex-executivos da empreiteira Odebrecht na Operação Lava Jato.

Segundo a Folha de S. Paulo, Maia é investigado por um repasse feito em 2008 por um dos delatores da construtora. Os R$ 350 mil foram utilizados para financiar as campanhas eleitorais dos candidatos do DEM no Rio. Dois anos depois, a empreiteira pagou mais R$ 600 mil a Maia. O valor seria destinado para sua campanha e a do pai, Cesar Maia.

Em outra investigação do STF, Maia aparece com o apelido de "Botafogo" nas planilhas de propina da Odebrecht. O parlamentar teria recebido R$ 100 mil em 2013 para mobilizar a aprovação da Medida Provisória 613, que aciona um programa de desoneração para a compra de matérias-primas por indústrias. A MP era de grande interesse da Braskem, braço da Odebrecht.

Maia se defendeu dizendo que as citações dos delatores são falsas e que "confia sempre" na Justiça.

Rodrigo Maia é casado com Patrícia Vasconcelos, enteada de Moreira Franco (PMDB-RJ), atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência do governo Temer.

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