ENTRETENIMENTO

Como ‘Twin Peaks’ mudou o universo das séries de TV

Obra cult de David Lynch e Mark Frost é um marco na dramaturgia e está de volta após 27 anos.

29/05/2017 18:02 -03 | Atualizado 07/06/2017 13:36 -03
Divulgação
Sheryl Lee é uma misteriosa rainha do baile no seriado.

Em uma manhã cinzenta na cidadezinha de Twin Peaks, Washington, um pescador encontra algo à margem do rio local. Ele liga para o xerife e diz: "Ela está morta. Envolvida em plástico". Ao chegar lá, o xerife examina o cadáver e constata: trata-se de Laura Palmer, uma bela e adorada líder de torcida. A partir dali, as coisas não seriam mais as mesmas naquela cidade. E na televisão também.

A cena foi exibida no início do episódio piloto de Twin Peaks, em 8 de abril de 1990, nos Estados Unidos, pelo canal aberto ABC. A série, criada pelo cineasta David Lynch – àquela época já consagrado por filmes como Veludo Azul (1986) e O Homem Elefante (1980) – e por Mark Frost, experiente roteirista de TV, ajudou a consolidar um caminho para projetos autorais e ousados na televisão. Até aquele momento, nunca uma série tão peculiar quanto a criada pela dupla fez tanto sucesso.

"Twin Peaks mudou a dramaturgia televisiva, mas não imediatamente", conta Brad Dukes, autor do livro Twin Peaks – Arquivos e Memórias (DarkSide Books, 2017), em entrevista ao HuffPost Brasil.

"Acredito que sua influência se deu sobre criadores de séries no fim dos anos 1990, com obras como Os Sopranos e Oz. A primeira temporada [de Twin Peaks] definiu um modelo para grandes histórias na TV."

O misterioso assassinato da rainha do baile lançou uma pergunta repetida à exaustão naquele ano: "quem matou Laura Palmer?". A frase foi usada na divulgação e logo se tornou extremamente popular. Para resolver o mistério, o FBI envia à cidade o excêntrico agente especial Dale Cooper, vivido por Kyle MacLachlan. Frequentemente vestido de preto e fazendo relatórios em áudio em um gravador para Diane – personagem até então não apresentada –, ele se tornou querido tanto na comunidade da pacata cidade quanto entre os fãs da série.

Conforme a investigação de Cooper avança, e enquanto ele se delicia com xícaras de café e pedaços de torta de cereja do restaurante local, é possível conhecer de perto os outros habitantes de Twin Peaks. O feminicídio desestabiliza a vida deles e provoca crises que escancaram os segredos sombrios dos personagens, como violência doméstica, adultério e intensas disputas por poder. Então, a pergunta "quem matou Laura Palmer?" ganha uma possível resposta: qualquer um deles. Isso ia na contracorrente do que era feito nas séries até aquela época – em Twin Peaks, a divisão entre o bem e o mal não está clara, e o senso de moralidade é evitado.

Assistir à série pode ser uma experiência surpreendente. Apenas um episódio pode conter uma cena de terror surrealista de congelar a espinha, uma inesperada piada de humor obscuro, tensão de roer as unhas, melodrama que satiriza novelas, e acontecimentos sobrenaturais perplexantes. Ao fundo, a lânguida trilha sonora composta por Angelo Badalamenti e Lynch, que por si só é uma obra tão icônica quanto a série, acompanha a cartela de personagens excêntricos.

"[A partir] De toda pesquisa que fiz, fica perceptível que Lynch deixa as pessoas fazerem aquilo em que elas são boas", defende Dukes, ao oferecer um palpite a respeito das engrenagens Twin Peaks.

"Ele confia às pessoas com quem trabalha que tragam suas próprias ideias. Elas todas parecem ser empoderadas ao fazer isso e, então, o diretor talvez faça um ou dois ajustes a partir disso. E, é claro, como todos nós sabemos, ele é um fã de acidentes felizes."

Dukes fez uma extensa apuração a respeito da série para o livro; ele entrevistou as dezenas de atores, produtores e vários outros profissionais envolvidos no seriado. Lynch não prestou depoimento ao autor, mas seus processos e escolhas criativas são relembrados pelos colegas.

Conhecida como 'Senhora do Tronco', a enigmática personagem de Catherine E. Coulson anda acompanhada de um pedaço de madeira e transmite mensagens dele para outras pessoas.

Após o imenso sucesso, que alavancou a audiência da ABC e trouxe respeito da crítica, vieram vários prêmios, como Globos de Ouro – inclusive na categoria de melhor série de drama – e Emmys. A segunda temporada foi confirmada e sua exibição começou naquele mesmo ano. No entanto, ao chegar ali pela metade, a coisa começou a desandar.

O autor do assassinato de Laura (Sheryl Lee) é revelado e, após isso, foi difícil manter o público fisgado. Além disso, Twin Peaks foi deslocada por vários horários na grade da emissora. A audiência despencou.

"A ABC, basicamente, decidiu acabar com a série e seguir em frente", conta Dukes. "Para eles, a audiência não justificava uma continuação."

O programa foi cancelado. E terminou com uma deixa para a terceira temporada não produzida. Em 1992, os fãs puderam retornar ao universo de Lynch e Frost com o filme Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk with Me, no título original), que, como o título brasileiro bem explica, narra os acontecimentos que antecedem a morte da personagem e a chegada de Cooper na cidade para investigá-la.

Sheryl Lee e seu bocão em cena.

Exibido no Festival de Cannes daquele ano, na disputa pela Palma de Ouro, o principal prêmio do evento, o longa-metragem foi recebido deboche e chegou a ser vaiado; quando estreou nos cinemas dos EUA, a crítica o bombardeou. Com o passar do tempo, entretanto, o filme conquistou respeito e tornou-se um dos principais da filmografia de Lynch. (Em 2014 foi lançada uma nova edição dele, chamada The Missing Pieces, com cenas deletadas da versão original.)

Twin Peaks já havia conquistado lugar na história da dramaturgia televisiva e no coração dos fãs, mas parecia ter chegado ao fim. Em entrevista à Empire em 2001, Lynch disse que franquia estava "morta".

No entanto, tudo mudou em outubro de 2014, quando o canal a cabo Showtime anunciou a produção de novos episódios em uma série limitada.

O retorno

Também chamada de Twin Peaks: The Return, o revival conta com grande parte do elenco principal e outras dezenas de atores novos na franquia, como Laura Dern, Naomi Watts – ambas frequentes colaboradoras do diretor –, Jennifer Jason Leigh, Michael Cera, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, Monica Belucci e Ben Rosenfeld.

Com 18 episódios confirmados, todos escritos e produzidos por Lynch e Frost e dirigidos pelo cineasta, a série estreou no Showtime em 21 de maio, com um episódio duplo de duas horas. No Brasil, ambos os capítulos chegaram à Netflix no dia seguinte, e os próximos virão semanalmente.

Os dois capítulos que iniciam o retorno foram exibidos fora de competição no Festival de Cannes deste ano e foram recebidos com empolgação pelo público. Após a sessão, os espectadores aplaudiram o diretor de pé e o ovacionaram por cinco minutos. Lynch ficou emocionado, como mostra o vídeo abaixo.

O revival se ambienta nos dias atuais e, mesmo após alguns episódios serem disponibilizados, seu enredo ainda é um mistério – não que pudéssemos esperar algo diferente de Twin Peaks.

Os livros sobre a série

Além da obra de Dukes, outros títulos recentes podem te ajudar a ir mais a fundo no universo esquisito do seriado.

A História Secreta de Twin Peaks (Companhia das Letras, 2017), escrito pelo próprio Mark Frost, é um romance tão pouco convencional quanto a série. É uma compilação de documentos, como trechos de diários e recortes de jornais, que formam um dossiê do FBI a respeito da cidade. A história do local é investigada de séculos atrás até 1989, quando Laura é morta. Uma agente do FBI chamada apenas de "T.P." recebe a tarefa de descobrir quem é o autor do volume. Tem 368 páginas e custa R$ 119,90.

O Diário Secreto de Laura Palmer (Globo Livros, 2016), assinado por Jennifer Lynch, filha do cocriador da série, contém as entradas de diário de Laura, o qual ela mantinha escondido e fez relatos importantes a respeito de acontecimentos que precedem sua morte. O livro fez sucesso ao ser lançado em 1990, entre as temporadas um e dois da série.

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