ENTRETENIMENTO

Milton Gonçalves: 'Nós negros somos 52% do Brasil, mas ainda não nos conscientizamos disso'

Ator mais antigo da Globo em atividade está na nova novela das 19h, 'Pega Pega'.

27/06/2017 19:25 -03 | Atualizado 28/06/2017 13:03 -03
Divulgação/Mauricio Fidalgo
"O fundamental é o ensino, a cultura, o conhecimento, independente de cor, raça ou etnia."

Milton Gonçalves é o ator mais antigo da TV Globo. Chegou à emissora em 1965, quando ela nem sonhava em ser a gigante da teledramaturgia que é hoje.

Seu primeiro trabalho foi na novela Rosinha do Sobrado, escrita por Moysés Weltman e dirigida por Otávio Graça Mello, onde interpretou o comerciante Abílio.

Com mais de de 50 anos de carreira, o ator mineiro já interpretou inúmeros tipos: escravo, pai de santo, professor, delegado, coronel e muitos outros personagens que tornaram seu rosto conhecido do público público brasileiro.

Atualmente, ele vive Cristóvão, o faz-tudo do no Carioca Palace Hotel, "hotel-personagem" de Pega Pega, novela das 19h escrita por de Claudia Souto e com direção artística de Luiz Henrique Rios. Com passado conturbado, o personagem está ligada à trama central do folhetim.

A carreira consolidada na TV cobre um passado de dificuldades e dores provocadas pelo racismo. Na infância, os pais camponeses de Milton Gonçalves se separaram. O menino mudou sozinho com a mãe para São Paulo, onde ele se deparou com a rejeição do padrasto.

Aos 7 anos, começou a trabalhar como babá numa casa em que o filho mais velho da família o deixava para fora para poder dormir com a empregada. Na pré-adolescência, morando em uma comunidade de imigrantes, enfrentou humilhações e ataques racistas.

O horizonte mudou quando foi pela primeira vez ao teatro. Na época, Milton Gonçalves tinha 17 anos. Lá, se encantou com o que viu e rapidamente conseguiu entrar numa companhia de teatro, em que passou por diferentes áreas das artes cênicas até chegar à condição de ator.

Na sequência, o mineiro se mudou para o Rio, onde integrou o Teatro de Arena ao lado de nomes como Flávio Migliaccio, Renato José Pécora, Gianfrancesco Guarnieri e Nelson Xavier. "Eles eram pessoas com as quais eu tinha diálogos e conversava sobre a melhora, sempre a melhora, não pessoal, mas a melhora social, a melhora de vida", conta o ator ao HuffPost Brasil.

Depois de aceitar o convite de Otávio Graça Mello para atuar em Rosinha do Sobrado, Milton Gonçalves não deixou mais a TV.

Irmãos Coragem, Selva de Pedra, O Bem Amado, Gabriela, Escrava Isaura e Roque Santeiro estão entre as mais de 50 novelas em que o mineiro atuou - isso sem contar minisséries e especiais da TV Globo que participou no decorrer das últimas décadas.

"A cada dia sinto mais saudade dos companheiros que eram sérios em seus projetos, no seus desejos, no sonho de ter uma sociedade, um Brasil maravilhoso", revela o ator.

Quando o assunto é racismo no Brasil, Milton acredita que a mudança depende da própria população negra.

"Nós brasileiros negros somos 52% da população e a gente ainda não se conscientizou de que somos essa porcentagem da população. O dia que a gente tiver ciência disso, nós vamos mudar esse país."

De acordo com ator, a mudança, no entanto, também exige uma atuação do Estado. "O fundamental é o ensino, a cultura, o conhecimento, independente de cor, raça ou etnia. Eu acho que é isso que tem que ser feito no país", diz o ator que já tentou carreira política em 1994, quando foi candidato ao governo do Rio pelo PMDB.

Conhecido como militante do movimento negro, o ator não aparenta ser a favor de nenhuma política de combate à desigualdade racial no Brasil. "A gente precisa dividir a renda melhor neste país", afirma. "Acredito que não se deve segregar entre branco, índio, oriental e negro. Não importa, são todos brasileiros. É preciso ajudar esses brasileiros que mantém esse país trabalhando muito diariamente", completa.

Questionado se é uma pessoa otimista, Milton Gonçalves responde: "Não sei se eu sou otimista, mas acho que se a gente quiser mudar esse país, conseguimos fazer dele um lugar melhor".

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